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Indignação de branco: quando a empatia atrapalha o antirracismo


A ênfase da negritude no discurso de pessoas negras provoca mal-estar à branquitude. Esse é o ponto onde o racismo nos cutuca sub-repticiamente e é dele que, para a decepção das pessoas negras, tentamos fugir

Nós, brancas e brancos, costumamos nos denunciar pela maneira como nos indignamos diante de certas situações. É algo interessante de se ver. Lá estão dois amigos conversando, um branco e um negro. O último relata ao primeiro, num gesto de confiança ou de desabafo, uma experiência de racismo vivida por ele: um olhar torto, uma insinuação calada, um movimento qualquer de dúvida. Chama a atenção como o branco rapidamente se insurge: “E você não fez nada? Eu não aguentaria isso!” Lembro-me muito bem de ter sido esse branco diversas vezes e ter ouvido, para a minha decepção: “E o que eu podia fazer?”

Em casos assim, a empatia para com o autor do relato dá lugar a um sentimento abrasador de injustiça. E, em vez de apenas ouvirmos nosso amigo em silêncio ou de lhe perguntarmos “E o que isso fez com você?”, como sugere a psicanalista Grada Kilomba, somos levados a atender sem reservas a esse sentimento, negando de saída aquilo que, para o outro, é justamente o que lhe impossibilita agir. Dito de outro modo, ao nos identificarmos com quem sofre o racismo, falhamos em compreender por que ele acontece. Porém, isso ocorre não devido a alguma limitação intelectual, mas sim à imposição soberana de uma situação análoga: o branco nunca se identifica com quem inflige o racismo. E quando porventura o faz, não é com esse termo — racismo — que ele o denomina.

A extrema dificuldade de nós, brancas e brancos, cogitarmos nosso lugar do outro lado do relato faz de nossa indignação um artefato um tanto inócuo no combate ao racismo. No entanto, pensar a origem dessa dificuldade pode ser bastante elucidativo. Para Frantz Fanon, a “condição de ser humano” a qual brancas e brancos nos arrojamos com uma universalidade imprescritível só existe mediante a demarcação de um grupo não-universal ao qual podemos nos contrapor à vontade. Para tal grupo, o adjetivo “negro” (pode ser qualquer outro que não “branco”) não seria uma questão de escolha. Uma vez em contato com os brancos, torna-se uma imposição soberana. Disso decorre que esse sujeito-negro, esse sujeito-adjetivo com sua subjetividade adjetivada, aparecerá para o branco ao mesmo tempo como expressão de uma particularidade (dado que ele não é universal) e como uma generalidade abstrata, gerando encantamento ou abominação: “Olhe, um negro!” O exemplo de Fanon deve nos bastar.

A luta antirracista não é o racismo às avessas. É preciso não perder de vista a profunda assimetria que marca a negritude

É certo que muita gente se beneficia da indignação de branco. Afinal, ela guarda um aspecto escorregadio que a torna irresistível até às sensibilidades mais autocríticas. Por um lado, ela invoca a premissa republicana de que “somos todos iguais” perante um pacto social no qual distinções de raça (e gênero, religião, sexualidade etc.) não entrariam na conta. Racista, nesse sentido, é quem não aprendeu essa lição ou dela discorda, revelando de cara um desajuste moral que merece ser repreendido pela mão justa da sociedade. Por outro lado, a indignação de branco tende a ver nas demandas do povo negro por justiça social e representatividade — isto é, nas tentativas concretas de combate ao racismo — o mesmo tipo de afronta à igualdade que caracteriza o racista. Não por acaso o tal “racismo reverso” soa perfeitamente lógico a muita gente. Para a branca e o branco indignado, quando pessoas negras se manifestam enquanto pessoas negras, colocando sua negritude no centro do discurso, surge um mal-estar proveniente do fato de ele/ela jamais ter feito o mesmo com sua branquitude. Esse mal-estar é o ponto onde o racismo nos cutuca sub-repticiamente e é dele que, para a decepção das pessoas negras, tentamos fugir.

O branco que se indigna assim é incapaz de apreender o funcionamento do racismo, porque para ele jamais haverá um lugar em que ele deva caber, seja onde for. Porque, no limite, a causa de sua indignação é com a possibilidade de ser particularizado, des-universalizado ou, se quisermos, reduzido à sua branquitude. Ao dizermos “eu não aguentaria isso”, nosso sentimento de injustiça reforça em nós a “condição de ser humano”, na qual o adjetivo “branco” não é apenas prescindível: é uma obviedade impensável e um insulto para nós. Mostre-nos nossa branquitude e nós a distorceremos dizendo, num ato reflexo defensivo, que ela não importa ou que é apenas mais um atributo entre vários que compõem nossa personalidade. Até porque, para nós, brancas e brancos, sempre nos é permitido reivindicar o espectro total das personalidades humanas.

No fundo, o branco não arredará de seu privilégio de ser, para si mesmo, uma totalidade autocontida e autojustificada, assim como não abrirá mão de significar o amigo negro — aquele que lhe narrou a história — como alguém cuja incompletude precisa ser complementada a qualquer custo. Lembremos, por exemplo, do costume profundamente racista de elogiar uma pessoa negra logo após anunciar a sua negritude — “é um médico negro excelente” ou “é uma negra linda!” Nesses casos, a pessoa em questão é reduzida à metonímia de um coletivo uniforme e fadado a cumprir seu destino de adjetivo.

Pode soar desanimador para muito branco cheio de “boas intenções” que essa indignação distancie mais do que aproxime. Mas acredito haver saídas para esse dilema, e todas elas devem começar com a decisão de nos adjetivarmos. Pessoas negras nos dizem isso há muito tempo, mas, como nos recusamos a ouvi-las também enquanto totalidades, falhamos em identificar a importância de tal mensagem e, o que é pior, confundimo-la com um grito raivoso ao qual é preciso fazer concessões. É o preço para não sermos mais incomodados.

Não podemos pensar, contudo, que, ao recusarmos a universalidade e nos adjetivarmos como brancos e brancas, chegaremos a uma posição simétrica à ocupada por pessoas negras. Acreditar isso é repor a fantasia republicana da igualdade, onde todo mundo é acometido, da noite para o dia, de daltonismo racial. A branquitude não é gêmea da negritude, assim como a luta antirracista não é o racismo às avessas. É preciso não perder de vista a profunda assimetria que marca a negritude (e, de forma mais abrangente, a própria ideia de raça) desde seu aparecimento com a colonização. Assim, se não é possível abolir num ato de vontade essa assimetria, é necessário que, para nós, brancas e brancos, ela não se dilua na retórica humanista e bem-educada das salvações.

Chegou a hora de ouvir essa mensagem com ouvidos de branco. Evidentemente, recusar a universalidade é um ato doloroso para quem, por tantos séculos, se definiu a partir dela. Muitas vezes implica um luto vivido de maneira agônica e hesitante. É como se o fato de ser branco ou branca traçasse um contorno à giz num horizonte até então intocado. Porém, é algo necessário para quem o antirracismo parece não apenas justo, mas a única saída. Enquanto acharmos que nossa “condição de ser humano” é suficiente para lutar ao lado de quem teve tal condição historicamente negada; enquanto repetirmos satisfeitos que “todas as vidas importam” (“All Lives Matter”), como se valorização das vidas em geral sanasse o problema das vidas que são desvalorizadas em particular, continuaremos a endossar o exclusivismo estruturante dessa categoria supostamente universal.

Rafael do Nascimento Cesar é mestre e doutorando em antropologia social pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Trabalha, desde 2013, com temas relacionados a relações de gênero, relações raciais, identidade nacional e música popular.

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