Foto: Renato Parada/Cia das Letras - divulgação

Generosidade, entusiasmo e seriedade: o exemplo de Ruy Fausto


Aos 85 anos, partiu muito antes da hora. O consolo é que ele nos deixa, além de sua obra, seu exemplo

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O nome de Ruy Fausto, falecido no último dia 1o de maio, remete imediatamente aos três tomos de sua obra “Marx: Lógica e Política”, provavelmente um dos pontos mais altos da reflexão crítica brasileira. Outras homenagens a Ruy certamente discutirão a importância dessa sua contribuição. Meu propósito aqui é outro. Quero deixar o registro do intelectual que vi atuar, em algumas ocasiões, nos últimos anos.

Comecei a trocar e-mails com Ruy em 2016, por conta de uma contribuição que escrevi para a revista que editava na época, a Fevereiro. No final daquele ano, Samuel Pessôa publicou uma crítica na piauí a um texto que ele havia publicado na mesma revista. A crítica de Pessôa estimulou Ruy a se engajar com o pensamento econômico convencional. Sagaz e cosmopolita, ele logo percebeu que o que alguns economistas liberais buscavam vender no Brasil como receitas modernas e cientificamente comprovadas não passavam de mercadorias consideradas obsoletas na maior parte dos outros países.

Em certo momento, Pessôa alegou que as propostas de seu debatedor eram utópicas. Ruy fez, então, um breve panorama sobre as patologias do capitalismo contemporâneo, incluindo o “aumento da desigualdade”, “uma alta taxa de desemprego” e “uma crise ambiental de efeitos potencialmente catastróficos”, e concluiu: “[n]essas condições, creio que o chamado realismo é utópico, e o impulso utópico, realista”. Ele via a política anticapitalista que defendia como uma forma realista de superar as catástrofes que estão à nossa volta. (Versões ampliadas de suas reações aos argumentos de Pessôa foram publicadas em seu livro de 2017, “Caminhos da esquerda”)

Em nossas conversas, nesse período, Ruy mostrava-se animado com suas leituras de economia, discutindo tanto temas mais abstratos quanto episódios concretos. Ele conversava com entusiasmo sobre o livro de Steve Keen, “Debunking Economics”, e se revirava com as polêmicas sobre a trajetória da desigualdade nas últimas décadas. Sempre mencionava, em seus e-mails, quando viria ao Brasil e dizia que deveríamos marcar de conversar longamente.

Felizmente, pude desfrutar dessas conversas um par de vezes. Em um meio em que as pessoas, vaidosas, falam muito e escutam pouco, Ruy destoava. Ao vivo, ele perguntava sobre a vida pessoal e os planos acadêmicos do interlocutor, interessava-se, comentava. Compartilhava também seus vários planos simultâneos, seus livros para terminar e seus tropeços com a vida cotidiana. Sua generosidade e seu entusiasmo não cabiam em conversas breves. Por isso, tratava-se sempre de “conversar longamente”.

O tom leve em que falava não ofuscava, no entanto, a imensa seriedade que ele atribuía às disputas intelectuais. O seu diagnóstico de que o impulso utópico adquiria caráter realista conferia urgência aos debates. Tal urgência transparecia nos seus textos e também no empenho com que buscava estimular a criação de revistas independentes e críticas. Em meados de 2018, em uma dessas conversas, ele me convidou para me unir a um grupo de pessoas que estava envolvido em uma empreitada desse tipo. Cerca de um ano e meio depois, no último mês de março, essa iniciativa foi oficialmente lançada: a Revista Rosa.

A orientação da revista fica clara no trecho que conclui sua apresentação: “A equipe que lança esta revista escolheu como título um nome que evoca o que houve de melhor na história da esquerda em termos de reunião difícil entre uma crítica intransigente do capitalismo e uma exigência democrática sem concessões. O nome Rosa exprime também um voto em favor das ‘primaveras dos povos’, primaveras que não foram raras na história dos séculos passados e mesmo do atual, mas que, infelizmente, tiveram curso efêmero. Não existe, porém, pesadelo que não chegue ao fim. Há que apressar esse desfecho, encurtar a noite deste muito sombrio inverno.”

A morte de Ruy foi um choque. Nas semanas que a antecederam, ele enviou dezenas de e-mails para a equipe editorial da Rosa, sobre os mais variados temas. Alguns sobre as Rodas da Rosa, debates virtuais organizados pela revista, outros sobre os textos a serem publicados. Organizava convites, sofria com o atraso das decisões, animava-se com os avanços. Estava em plena atividade. No dia 26 de abril, dias antes de nos deixar, enviou uma versão revista de um texto para a próxima série da revista.

Marcelo Coelho tem razão. Aos 85 anos, Ruy partiu muito antes da hora. O consolo é que ele nos deixa, além de sua obra, seu exemplo de rigor, generosidade, entusiasmo e perseverança. Cabe a quem ficou continuar seu esforço, regando suas rosas, para superarmos esse inverno que, na sua ausência, ficou ainda mais sombrio.

Fernando Rugitsky é professor da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo) e pesquisador principal do Mecila (Maria Sibylla Merian Centre Conviviality-inequality In Latin America). É doutor em economia pela New School for Social Research.

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