Foto: Luiza Calagian e Pedro Biava/CTI

Floresta democrática: frente em defesa do cinturão verde guarani


Enquanto governos e empresas travam uma guerra contra o ecossistema, comunidades indígenas resistem ao genocídio e mantêm costumes tradicionais de cuidado da natureza

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A presença dos povos Guarani, ramificados nas etnias Mbya, Kaiowa e Nhandeva, no centro-sul do continente americano, está registrada desde os primeiros relatos de viagem dos navegantes europeus que por aqui chegaram. O avanço colonial, no entanto, custou muito caro às populações nativas. Comunidades foram escravizadas, além de culturas e florestas destruídas, em nome da exploração de recursos naturais e do desenvolvimento imperialista.

A colonização se trata de um sistema de expropriação de terra e imposição violenta de culturas por parte de um poder soberano. Se dedicarmos um breve instante para analisar alguns acontecimentos que agitaram o mar da história, veremos que essa expansão, ainda hoje, continua ocorrendo.

Em entrevista conosco, o professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo Wiliam Berger afirmou que a colonização da América conduziu esse território ao atraso em razão de uma industrialização tardia e periférica, na qual a criação do Estado-nação impôs no Brasil uma acumulação primitiva dentro do modo de produção agrário-exportador. Em suas palavras, “foi por meio do saque, do morticínio, da tortura e do roubo das terras indígenas que se inaugurou o capitalismo dependente”.

Enquanto governos e empresas travam uma guerra contra o ecossistema, comunidades indígenas resistem ao genocídio e mantêm costumes tradicionais de cuidado da natureza. E não é de hoje que povos tradicionais alertam para o desequilíbrio ambiental causado pela forma exploratória de ocupação, produção e consumo da sociedade contemporânea.

Na luta pela preservação de seus saberes ancestrais, nas periferias da maior cidade da América Latina, os Guarani Mbya iniciaram uma vigorosa retomada das terras de onde seus antepassados foram expulsos. No início, foram os movimentos bandeirantes, depois a urbanização e metropolização de São Paulo, que desmatou uma área rica em água e diversidade de plantas e animais para dar lugar às monoculturas do café e eucalipto.

O cultivo tradicional é uma das formas de se contrapor ao capital e às técnicas especializadas do agronegócio, sustentados pela desigualdade social

Nas regiões que voltaram a habitar, as comunidades guarani são as principais responsáveis por recuperar e proteger a Mata Atlântica contra o avanço da metrópole. Localizada nas proximidades do litoral brasileiro, em zona de intenso desmatamento, a segunda maior floresta tropical da América do Sul é uma das riquezas naturais mais ameaçadas do continente. As populações indígenas são, nesse sentido, um grande apoio para a mata, onde, há milhares de anos, desenvolveram seu modo de vida em comum.

A volta para as terras onde estão as TIs Jaraguá e Tenondé Porã conferiu aos povos indígenas a possibilidade de retomar o plantio de alimentos tradicionais. A recuperação de solos degradados, o trabalho de pesquisa e o sistema de troca de sementes crioulas permitiram não apenas o intercâmbio de técnicas ancestrais de cultivo, mas também o uso de espécies originárias, conferindo à agricultura uma das principais atividades de subsistência desse povo.

Hoje já são 17 roças em terras recuperadas na TI Tenondé Porã, onde é encontrada uma grande diversidade de espécies, como as 50 variedades de batata-doce (“jety”), 16 de milho, dez de mandioca, além de feijão, amendoim, abóbora, melancia, entre outros alimentos, livres de qualquer transformação gênica.

Na TI Jaraguá, onde está localizada a tekoa Yvy Porã, as comunidades indígenas, em parceria com não-indígenas, recuperaram uma área onde havia um lixão e plantaram mais de 300 mudas de espécies nativas, como pitanga, cambuci, araucária e palmito-juçara, praticamente extinta na região.

Segundo a cosmologia guarani, os alimentos nutrem não apenas o corpo, mas também o espírito. Para plantar é necessária disposição, tranquilidade, bons pensamentos e “coração leve”. Os roçados, em geral, são trabalhados em mutirões, com ajuda de crianças e adolescentes de outras aldeias, a fim de assegurar que o conhecimento seja aprendido e perpetuado.

Antes de iniciar o plantio, as pessoas mais velhas realizam a cerimônia da bênção da roça, momento em que as crianças cumprem um papel fundamental: o de purificação das sementes. Na tradição guarani, as crianças são consideradas sagradas, e os idosos, a fonte de sabedoria, sendo guias espirituais das aldeias.

Para além das lutas e ameaças que havemos de atravessar, o “nhandereko”, como é chamado o modo de vida guarani, continua sendo uma resistência real ao sistema dominante. O cultivo tradicional é uma das formas de se contrapor ao capital e às técnicas especializadas do agronegócio, sustentados pela desigualdade social e precarização das relações de trabalho.

Como forma de garantir sua sobrevivência, as comunidades Guarani Mbya, articuladas na CGY (Comissão Guarani Yvyrupa), iniciaram uma nova luta em 2016 pela construção do PL 181/16, que defende o cinturão verde guarani na capital paulista. O projeto tem objetivo de dar continuidade aos trabalhos de gestão territorial e ambiental das terras indígenas e está sendo debatido na Câmara Municipal. A aprovação ainda depende de uma segunda votação e da sanção do prefeito de São Paulo, Bruno Covas.

Franciani Bernardes é jornalista, doutora em ciências da comunicação e militante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação.

Jera Poty Miri é uma liderança guarani da Tenondé Porã e uma das fundadoras da tekoa Kalipety.

Este texto foi elaborado a partir de um diálogo entre integrantes do Intervozes e lideranças indígenas guarani, como parte da campanha pela aprovação do Projeto de Lei do #CinturãoVerdeGuarani, que busca fortalecer as terras indígenas e a cultura do povo guarani na cidade de São Paulo. A campanha é uma realização da CGY (Comissão Guarani Yvyrupa), em parceria com o CTI (Centro de Trabalho Indigenista) e o Intervozes, apoiado pela Fundação Rosa Luxemburgo.