Foto: Adriano Machado/Reuters

De Bolsonaro a Freud: a autoridade e o mal-estar brasileiro


Há um grupo de brasileiros que se sente autorizado externamente à expressão social de traços pouco afeitos à vida em sociedade. Esses traços indesejáveis à vida social agregadora — como o ódio, a eliminação do outro, o racismo — foram liberados das entranhas dos desejos reprimidos dos indivíduos pelo presidente

Um dos aspectos centrais da necessidade humana de viver em sociedade é a proteção que o grupo oferece. Um bebê leva mais ou menos um ano até aprender a andar. Que presa fácil ele seria se não houvesse o grupo a lhe proteger?

A vida em grupo, igualmente, protege o ser humano do próprio ser humano, seu maior predador. Para isso, alguma espécie do que hoje chamamos de Estado cria leis, regras, Constituições, dizendo o que se pode e o que não se pode fazer. São as regras oficiais. Aliás, há também nelas codificadas as punições para quando elas são feridas.

Além disso, a vida em grupo cria também códigos de comportamento que não são oficiais no sentido de não serem estatais, feitos e mantidos pelo poder do Estado. Eles não valem para todas as pessoas da sociedade e vários deles são, inclusive, escolhidos pelo indivíduo, diferentemente dos oficiais, que são impostos. A Bíblia cristã e as regras do jogo de futebol são exemplos. Por fim, os códigos não-estatais podem ser intangíveis, impalpáveis, meramente simbólicos. A cultura é o maior exemplo disso.

As “leis” colocadas por esses códigos exercem, como ensinou Sigmund Freud, uma autoridade externa em relação aos seres humanos. Elas autorizam e constrangem o comportamento individual e moldam, assim, a sociedade.

Porém, elas não são apenas externas, pois se colocam também na mente humana. No sistema de Freud, a autoridade externa terá seu ponto de contato individual no superego sem, contudo, se confundir com ele. Cada coisa é uma coisa. Ele é uma espécie de censor, que dá o sinal vermelho ou verde aos desejos humanos inconscientes apresentados nas imagens e nas sensações da consciência.

Para sair do abstrato: já ouviram falar de ressaca moral no dia posterior a uma bebedeira em que o superego foi anulado pelo álcool? Por que domina a alma tal sentimento, cuja origem não se sabe qual é? E a culpa sem sentido que vira e mexe se sente? São expressões da relação intrincada entre o inconsciente, a consciência, e o poder moderador da mente humana, o superego.

Lá no inconsciente se escondem traços da personalidade humana que socialmente se julgariam problemáticos e, por isso, a consciência, moderada pelo superego, os filtra e coloca neles nomes e razões diferentes do que realmente são. A agressividade, a inveja, o ciúme, o ódio, são exemplos comuns desses traços.

Senti-los é humano. Amortecê-los é igualmente humano, mas de certa forma também é medo da autoridade externa. Querer enfrentar a autoridade externa pode ser desejo humano, afinal realizá-lo preenche a vontade humana de poder, que vários sentem ser parte constitutiva do seu ser.

Pois bem, sente-se um mal-estar no Brasil atualmente. Há um grupo de brasileiros que se sente autorizado externamente à expressão social de traços pouco afeitos à vida em sociedade. Esses traços indesejáveis à vida social agregadora — como o ódio, a eliminação do outro, o racismo — foram liberados das entranhas dos desejos reprimidos dos indivíduos pelo presidente. Ao mesmo tempo (a boa dialética), alguma parte dos votos que o elegeram fizeram-no na busca pela realização desses desejos.

Os olhos de seus mais fiéis e íntimos seguidores veem Bolsonaro quando o miram, mas é a si mesmos que enxergam

Assim, o processo: não é o presidente o único causador do mal-estar atual. Ele o é tanto quanto o indivíduo que se encontra plenamente representado por ele, que enxerga a imagem do espelho ao vê-lo — o que não significa todos os que o apoiam, mas a parte mais aguerrida do apoio. Sua postura no cargo que ocupa, que tem autoridade estatal, oficial e simbólica, cria a autorização externa buscada pelas pessoas mais intimamente identificadas com ele. Então, elas transferem ao presidente a responsabilidade de suas próprias vontades e relaxam seus superegos na catarse do “se ele permite, se ele faz, eu posso, eu faço”. Por sinal, militares no governo simbolizam a confirmação da autoridade (permissiva a uns e bastante restritiva a milhões), ao vesti-la com o poder das — atenção ao nome — Forças Armadas.

Daí a primeira pessoa do plural tão comumente ouvida em manifestações em que se veem pessoas com a camiseta da seleção brasileira: “nós estamos no poder”. Daí a projeção de suas reais vontades: “estamos aqui para varrer os comunistas”, sendo que “comunistas” são todos os que não são a imagem do espelho, por isso cabem João Doria, Luciano Huck e Sérgio Moro na definição; “varrer” é a imagem da vontade de como se processa o ato de limpeza: eliminar o outro.

Acresçam-se pessoas se manifestando com caixões em meio à pandemia e protestos com buzinaços em frente a hospitais. Por isso a resistência da popularidade do presidente, mesmo diante de ele ter perdido fiéis da balança como Moro. Os olhos de seus mais fiéis e íntimos seguidores veem Bolsonaro quando o miram, mas é a si mesmos que enxergam.

Os brasileiros, em sua vasta maioria, encontram-se em mal-estar. Respeitam a autoridade externa. Lidam bem com seus monstros internos. Transferem à sociedade parte de suas frustrações como se fosse culpa dela, mas não tentam sobrepô-la, pois aceitam o constrangimento que a vida em grupo impõe como contrapartida dos benefícios que oferece. Se desejam mudá-la, o fazem por meio do convencimento, da relação humana — isto é, por meio da política, da arte de praticar o convívio e a troca com a diferença a fim de alguma convergência. O superego e a autoridade externa alinham-se de uma forma civilizatória para não gerarem um prolongado e insuportável mal-estar. Quando o insuportável mal-estar é o caso, o resultado tende a ser o caos.

Fábio Bittes Terra é doutor em economia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e professor na UFABC (Universidade Federal do ABC) e no PPGE-UFU (Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia).

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