Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Cooperativismo de plataforma: quais as possibilidades


Os ‘Breques dos Apps’ colocaram no horizonte as possibilidades de construção de cooperativas de plataformas no Brasil. Há desafios, mas potencialidades são muitas

As greves dos entregadores no mês de julho e início de agosto trouxeram de vez o tema da plataformização do trabalho à discussão pública. Vemos que o cenário atual de entregadores e motoristas que trabalham por meio de apps como iFood, Rappi, Uber ou 99, por exemplo, é indesejável dos pontos de vista de trabalho decente, desenvolvimento sustentável e do que é essencial em um contexto pandêmico.

Uma das saídas possíveis é o cooperativismo de plataforma. Unindo a organização cooperativista e o potencial das tecnologias digitais, as plataformas cooperativas podem ter vários desenhos institucionais e abrigar diversos setores da economia. É uma espécie de reação à uberização generalizada, valendo-se do seu formato de intermediação tecnológica das relações de consumo e produção para criar arranjos alternativos.

Entre os princípios do cooperativismo de plataforma estão propriedade coletiva, trabalho associado, pagamentos decentes e seguridade de renda, transparência e portabilidade de dados. Não é difícil enxergar a conexão desse modo de organização do trabalho intermediado por sistemas sociotécnicos com a agenda de direitos digitais no século 21.

O cooperativismo não é uma ideia, mas uma prática. Nos últimos anos têm surgido cooperativas de fotógrafos (Stocsky), trabalho doméstico (Up & Go) streaming audiovisual (Means TV), freelancers (Smart), entre outros. Na área de serviços de entrega, atualmente na Europa há, pelo menos, 15 cooperativas de entregadores, como Mensakas e Urbike. Em geral, são empreendimentos pequenos e locais, enraizados nos laços comunitários da vida urbana. Alguns operam em modelos federados. Com isso, permite-se que existam várias “unidades autônomas” de cooperativas, integradas pelo mesmo código-fonte e conjunto de funcionalidades. Isso também significa pensar e experimentar diferentes desenhos institucionais, por exemplo, cooperativas de consumo e multilaterais, como FairBnb, da área de hospedagem, e Resonate, de streaming de música.

Essas iniciativas evidenciam que é possível imaginar outros mundos possíveis na economia de plataformas. Porém, é preciso lembrar que não há fórmula nem manual para uma cooperativa de plataforma. São experiências e laboratórios em construção. As iniciativas não vão fazer sucesso em um passe de mágica só com a construção de um aplicativo.

As barreiras de entrada são altas, tanto pelo custo de capital para desenvolvimento da plataforma quanto pelos incentivos feitos para formação da base de usuários. Mesmo com estratégias de redução de custos, como uso de Saas (“Software-as-a-Service”) — o que reduz custos de atualização, certificados de segurança, registro de logs — e plataformas de construção de marketplaces como ShareTribe, o investimento é alto. Estima-se que a prototipagem de um aplicativo de constituição de um mercado de nicho custe R$ 500 mil.

Outro ponto é o investimento em estratégias de comunicação em um mundo de atenção escassa. Parte do apelo das Big Tech é a cooptação dos discursos de que apenas elas são “inovadoras” e “disruptivas” com estratégias para desmobilizar trabalhadores e dividir consumidores.

A pressão da concorrência com as grandes plataformas deve ser pensada a partir de quais valores as cooperativas podem entregar. Para superar problemas de escala e efeitos em rede, elas podem se integrar em redes federadas (como a CoopCycle, no caso dos entregadores) e por aplicativos com interoperabilidade (um exemplo não cooperativista é o aplicativo da Rappi que permitia ver as ofertas de patinete da Yellow).

É possível imaginar e prefigurar novos mundos possíveis a partir da realidade concreta de trabalhadores e consumidores em nosso país

Além disso, é preciso descolonizar os dados em favor de bens comuns e de trabalhadores. O cooperativismo de plataforma também é uma estratégia política para pensar no valor agregado dos dados. Isso implica em uma expertise de organização de base de dados, gerenciamento seguro e compreensão do valor econômico dessas informações. A Up&Go é um exemplo interessante: mulheres latino-americanas e caribenhas receberam apoio técnico da CooLab e aporte financeiro e mentoria do grupo Robin Hood. Contrataram também “community builders” para disseminar práticas de como gerir em conjunto não apenas um empreendimento, mas também códigos.

Seria absurdo afirmar que as cooperativas de plataforma podem superar as grandes empresas de tecnologia dominantes em seus respectivos mercados. No entanto, é provável que elas ocupem espaços em mercados que não se orientam apenas pelo preço, mas por uma reflexão crítica do ato de consumo.

Um paralelo vem da alimentação: as “plataformas cooperativas” como feiras de produtores orgânicos certamente não possuem a pretensão de eliminar as grandes redes de supermercados. Porém, apelam a um público que se preocupa não apenas com o ato político de comer, mas com a qualidade de trabalho e de vida daqueles que fizeram o alimento chegar a sua mesa. O Breque dos Apps joga essa discussão à tona: quais condições de trabalho decente existem por trás de algoritmos e telas de smartphones?

Cooperativas isoladas não sobrevivem. A intercooperação é uma ideia promissora. Isso permite interligar diferentes setores, por exemplo, programadores, restaurantes, entregadores e agricultores. No contexto atual, as articulações entre os diferentes setores são essenciais para a construção do movimento de cooperativismo de plataforma no Brasil. No país, além das milhares de cooperativas existentes, articuladas pelo sistema do cooperativismo, despontam dezenas de novas cooperativas, permitindo a integração de cadeias complexas de serviços. É preciso desmistificar a ideia de que o cooperativismo está ligado a setores “low tech” e de baixo valor agregado. Atualmente, a OCB (Organização das Cooperativas do Brasil) tem mais de 7.000 iniciativas e registrou aumento de 400% no número de cooperativas de tecnologia em 2019.

As possibilidades do cooperativismo necessitam de uma reinvenção da educação no Brasil. É certo que há escolas de cooperativismo que fazem um trabalho extremamente inovador e qualificado. Porém, sua discussão não pode ficar restrita ao nicho específico daqueles já interessados em cooperativismo. Precisamos imaginar, por exemplo, qual seria o impacto se as mais de 400 faculdades de ciência da computação no Brasil se lançassem ao desafio de reimaginar uma economia de plataforma inclusiva, trazendo para dentro da sua estrutura curricular discussões relacionadas a plataformas cooperativas.

É possível imaginar e prefigurar novos mundos possíveis a partir da realidade concreta de trabalhadores e consumidores em nosso país. As cooperativas de plataforma são laboratórios de utopias reais. Tais experiências nos obrigam a vislumbrar quais economias digitais queremos no século 21 no Brasil.

Rafael Grohmann é professor do mestrado e doutorado em ciências da comunicação da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e coordenador do Laboratório de Pesquisa e Intervenção DigiLabour, que mantém uma newsletter. Coordena no Brasil o projeto Fairwork, da Universidade de Oxford. Doutor em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo).

Rafael Zanatta é mestre em direito e economia política pela Universidade de Turim e mestre em teoria geral do direito pela USP. É doutorando pelo Instituto de Energia e Ambiente da USP. É membro da Lavits (Rede Latino-Americana de Estudos de Vigilância, Tecnologia e Sociedade). Traduziu o livro “Cooperativismo de Plataforma” (Trebor Scholz) em 2017.

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