Foto: Aly Song/Reuters

Como a aposta em inovação salvou empresas chinesas


A agilidade para responder rapidamente ao cenário caótico da pandemia foi a principal característica dos negócios que se sagraram bem-sucedidos na China

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A pandemia do novo coronavírus colocou muitas empresas chinesas à prova de suas próprias estratégias, e inúmeras foram as companhias que não conseguiram colocar em prática a gestão da crise de seus negócios de modo eficiente à sobrevivência. Enquanto a tragédia chinesa se fazia presente em um número reduzido, mas ainda assim relevante um grupo de empresas vislumbrou na crise uma oportunidade de crescimento. O segredo? Inovação. Pois é, uma parcela de companhias chinesas entendeu que localizar de modo cirúrgico a demanda de seu consumidor e entregar serviços com uma velocidade exponencial deixou de ser mero aparato voluptuário e tornou-se a própria essência do negócio.

Ao tratarmos de inovação, pouco se discute o fato de que a sustentabilidade de modelos inovadores de negócios pode transformar economias positivamente de modo significativo. Na China, um exemplo nítido de sucesso foi o crescimento exponencial do mercado de e-commerce nos anos 2010 que colocou à prova a capacidade dos ecossistemas digitais de transformar uma economia. A evolução dos modelos de negócios digitais conseguiu que 800 milhões de consumidores chineses se tornassem adeptos de pagamentos onlines e plataformas de serviços correlatas, que anualmente somam mais de US$ 2 trilhões em negócios.

A pauta, que faz parte da narrativa da China contemporânea, também colocou em xeque o poder dos ecossistemas digitais de responder às atuais demandas da crise sanitária. Em um mês, a plataforma de entrega Meituan Dianping teve um aumento de vendas tão grande que teve que reinventar o seu sistema de entregas. Para que o serviço continuasse a ser realizado de modo eficiente e ágil, apesar da alta demanda, a empresa espalhou armários inteligentes por cidades chinesas estratégicas.

A agilidade para responder rapidamente ao cenário caótico foi a principal característica dos negócios que se sagraram bem-sucedidos durante a pandemia. Empresas como Alibaba, Meituan Dianping, Tencent e Baidu tornaram suas plataformas aptas a oferecer parcerias com terceiros de modo a incrementar o leque de produtos e serviços ofertados, bem como criaram interfaces amigáveis em seus aplicativos na busca de soluções às novas necessidades advindas com a crise sanitária.

A atual crise deixou a lição de que melhor do que possuir recursos é saber como alocá-los de modo ágil e inovador

A busca por soluções inovadoras e ágeis transcendeu barreiras. No setor de e-commerce, por exemplo, inúmeras empresas chinesas incrementaram seus negócios com atributos tangenciados por inteligência artificial e Interfaces de Programação de Aplicação (“API”, em inglês), mobilizando processos colaborativos às estratégias de negócios durante a gestão da crise.

Em outros setores, o destaque ficou com a empresa Baidu, companhia chinesa de buscas online, que desenvolveu um sistema de sensor infravermelho, contactless (sem contato), alimentado por inteligência artificial para medir a temperatura de vários indivíduos simultaneamente além de detectar qualquer variação corporal que signifique probabilidade de febre. O sistema já é usado na estação ferroviária Qinghe, de Pequim, por onde atravessam cerca de 200 pessoas por minuto. O detalhe é que a medida tornou possível que nenhum fluxo de passageiros fosse interrompido. Inovação, seguindo a linha rápida e cirúrgica.

A partir do aprendizado chinês, podemos concluir que as empresas que rapidamente entenderam a crise como uma janela de oportunidade puderam aumentar seu valor de mercado e, criativamente, alavancaram seus resultados. É o caso da Alibaba que, ao vislumbrar uma queda de vendas dos fabricantes de atacado, decidiu lançar um aplicativo chamado Taobao Deals, que faz a conexão de consumidores àqueles fabricantes atacadistas. A janela de oportunidade foi devidamente aproveitada pela companhia que buscou uma ineficiência de mercado e logo trouxe uma solução que resolveu a questão da alta dos estoques e a queda dos resultados.

Não é raro ouvirmos que as gigantes empresas de tecnologia chinesas só conseguem orquestrar modelos de negócios inovadores por causa das cifras vultosas que possuem em seus caixas. Mas a atual crise deixou a lição de que melhor do que possuir recursos é saber como alocá-los de modo ágil e inovador. O planejamento de gestão das mudanças disruptivas da pandemia é uma variável que tem impulsionado empresas chinesas de modo criativo a trabalhar com o principal fator de transformação da economia do país asiático, que, por sua vez, também tem sido peça-chave para a sobrevivência dos milhões de modelos de negócios que decidiram transcender durante a crise sanitária: a inovação.

Rodolfo Barrueco é advogado, empresário, cofundador do Observa China, fomentador do Innovation Hub do IBMEC (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), comentarista de inovação e tecnologia, além de fundador do 睿巴瑞 Advisory Company, que apoia novos negócios e tecnologias entre Brasil e China.