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Foto: Daniel Fallot/Getty Images

Albert Camus ou literatura para tempos de peste


Em tempos de resistência à epidemia e aos desgovernos que nos agridem, o retorno à obra de um escritor que nos deixou há 60 anos pode ser bastante oportuno

Estamos apenas no terceiro mês do ano e já nos deparamos com conflitos entre Estados Unidos e Irã, uma crise mundial causada pelo novo coronavírus, inundações, motins policiais e a progressão de ataques antidemocráticos do governo no Brasil. Nessa realidade não muito encorajadora que segue seu curso, urge a necessidade de lidar com o que é imediato sem se deixar abater pela avalanche de notícias ruins que desaba sobre nós.

Certas obras literárias podem servir de companhia para momentos como este. Na atual conjectura, não é uma má ideia se ter por perto o clássico “A peste” (1947), do escritor franco-argelino Albert Camus. Por conta do aumento de casos de covid-19, a crônica teve suas vendas dobradas na França neste início de ano e foi alçada a terceiro livro mais vendido na Itália — juntamente com a retomada das vendas de “Ensaio sobre a cegueira” (1995), que chegou a quinto mais vendido no país.

Para quem não a conhece, trata-se da história de uma epidemia que dizima grande parte da população da cidade de Orã, na Argélia. Em meio a um surto que expulsa ratos dos esgotos e gera pilhas de cadáveres humanos, transformando a vida de pessoas em dados estatísticos, o doutor Rieux tenta combater a morte com o que faz de melhor: curar um doente por vez.

Nestes últimos dias, alguns veículos da mídia internacional têm relembrado da obra como um tipo de antídoto, não só para o coronavírus, mas para a negligência de parte da administração da saúde pública em países atingidos, para as fake news que circulam e para o medo por parte da população que pode chegar à xenofobia, como é possível ler no The Jerusalem Post do dia 20 de fevereiro.

Aqui no Brasil, além de opor-se a uma eventual histeria por conta da doença, Camus também pode nos inspirar a lidar com mazelas que ultrapassam essa questão. Sua obra põe em evidência os princípios da sabedoria e da coragem como formas de lidar com os excessos das nossas patologias histórico-estruturais.

O autor nos faz perceber que certos discursos políticos autoritários, assim como os micro-organismos causadores das doenças, são abstrações niilistas que nos dispersam e aniquilam

A obra foi fundamentada em estudos do escritor sobre epidemias que atingiram a Europa, o Oriente Médio e a própria Argélia em diferentes momentos históricos, além de nutrir-se bastante da estrutura e do embate entre homem e natureza de “Moby Dick” (1851). Quando de sua publicação, “A peste” serviu como analogia para a ocupação alemã em Paris durante a Segunda Guerra, trazendo a violência absurda e arbitrária para o cotidiano das pessoas. A epígrafe emprestada de Daniel Defoe — “É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe” — conecta o confinamento do livro ao mal da “maladie” (“doença” em francês) que ameaçava o leitor na época.

Mais tarde, em carta a Roland Barthes de 1955, como lembra artigo do Le Monde, de 3 de março, Camus afirma que a obra descreve “a luta da resistência europeia contra o nazismo. A prova disso é que mesmo esse inimigo não sendo nomeado, todo mundo o reconheceu em todos os países da Europa”. Assim, como um bom clássico, o livro volta a ser atual e traz uma mensagem de alerta ante os regimes totalitários sempre à espreita, afinal, “o bacilo da peste não dorme nem desaparece nunca”.

Não é à toa que “A peste” foi agrupada com outras obras de Camus no que ele denominou de Ciclo de Prometeu — o titã cuja revolta contra os deuses consiste em transmitir a sabedoria do fogo aos mortais. Em meio à desproporção entre o que esperamos dos governos e eventuais atitudes com consequências atrozes para o meio ambiente e para os grupos mais frágeis ao redor do mundo, é preciso se manter lúcido.

Se não for possível vencer a peste da noite para o dia, há outras formas de combatê-la: cuidando da saúde dos doentes, como alguns médicos têm feito; encarando-a com inteligência, como cientistas da USP (Universidade de São Paulo), liderados por Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, fizeram ao sequenciar o genoma do vírus em tempo recorde; ou ainda, buscando a medida certa para o diálogo, como Dráuzio Varella e muitos profissionais da saúde têm feito ao aconselhar a população diante da nova epidemia.

Também em contraposição às reações xenofóbicas ao vírus, Camus valoriza a união dos combatentes. Em uma cidade monótona, repleta de homens em quarentena, que tiveram que se separar de esposas e filhos, as palavras se tornam raras e sem sentido. A memória de momentos felizes se faz nebulosa. O elo entre os habitantes é ameaçado, pois a constante lamúria perde sua força. Como resposta, a amizade do doutor Rieux com o viajante Tarrou expõe o entendimento de que ambos compartilham de uma condição comum naquele universo. O amor “philia”, de amizade, constante e consciente, é uma força que se opõe ao flagelo e ao mal que nos atingem todos os dias. O amor, aliás, é o princípio e o fim da revolta camusiana, que deve arder sem jamais perder sua ternura.

O autor nos faz perceber que certos discursos políticos autoritários, assim como os micro-organismos causadores das doenças, são abstrações niilistas que nos dispersam e aniquilam. Em tempos de resistência à epidemia e aos desgovernos que nos agridem, num momento de necessidade urgente de uma frente ampla para a defesa de direitos humanos, o retorno à obra de um escritor que nos deixou há 60 anos pode ser bastante oportuno. Sua própria vida de resistente é um exemplo: Camus encontrou na escrita a força para enfrentar tanto o nazismo quanto as limitações físicas da própria tuberculose descoberta aos 17 anos.

Em épocas de doença e de instabilidade política, também redescobrimos o potencial humano dos que diariamente enfrentam os governos e seus vírus. Em 1949, ao nos visitar, Camus se impressionou com o contraste “fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos com as favelas”, como escreve em seu “Diário de viagem”. Mas em diversos momentos nos seus escritos ele procurou ser otimista quanto ao destino da humanidade. Se o desfecho da peste é um aviso para nos mantermos de olhos abertos, nesse mesmo diário, ele chegou a sonhar com o dia em que nós, brasileiros, nos revoltaríamos contra nossa condição:

“O Brasil, com sua fina armadura moderna colada sobre esse imenso continente fervilhante de forças naturais e primitivas, me faz pensar num edifício corroído cada vez mais de baixo para cima por tranças invisíveis. Um dia o edifício desabará, e todo um pequeno povo agitado, negro, vermelho e amarelo espalhar-se-á pela superfície do continente, mascarado e munido de lanças, para a dança da vitória.”

Embora estejamos em busca de respostas objetivas para reagir à doença e à disseminação do nosso ódio estrutural, a obra do escritor é um exemplo de como a literatura, com sua capacidade de conciliar fruição a potencial didático, também oferece um caminho para lutarmos e preservarmos nosso elo em meio ao caos: é preciso uma revolta fraterna e lúcida em tempos de peste.

Raphael Luiz de Araújo é doutor em letras pela Universidade de São Paulo, professor de língua portuguesa e literatura, e tradutor de obras como “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, “Os primeiros Cadernos”, de Albert Camus, e “Irene”, de Pierre Lemaître.

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