Foto: Pilar Olivares/Reuters

Alô, Brasil, pode segurar porque o racismo é filho seu!


A construção do Movimento Negro como sinônimo de repositório de equívocos, ignorância e incapacidade de transformação social para o bem comum é um artifício tão antigo quanto as tentativas de reedição do mito da democracia racial

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Após mais de três séculos explorando a maior quantidade de gente africana submetida à escravidão via tráfico transatlântico nas Américas e tendo sido o último país da região a aboli-la, o Brasil assistiu à imposição de um pacto social: vamos virar essa página afirmando ao mundo que somos uma democracia racial!

Diferentemente dos EUA, “a escravidão, para felicidade nossa, não azedou nunca a alma do escravo contra o senhor — falando coletivamente — nem criou entre as duas raças ódio recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimidos”, argumentava Joaquim Nabuco, ainda em 1883.

Faltava verossimilhança à ficção, mas este era um encaminhamento inevitável para o sucesso de qualquer projeto de nação forjado pelas elites brasileiras, sem que fosse necessário assumir mais explicitamente o desejo de eliminação de 56% da população, os “pretos” e “mestiços”, do Censo de 1890.

A população negra, no imediato pós-abolição, passou a ser tratada como a expressão residual de uma fase superada, podendo existir sob a tolerância paternalista e a repressão atenta do Estado que trabalhava para o progresso de “todos”. Assim era atualizado o modus operandi do conservadorismo brasileiro, fundado na centralidade do sujeito masculino, branco e concentrador de renda, que precisa manifestar simpatia relativa a quem rejeita para se manter no poder.

Para o bem e para o mal, não faltam exemplos na História do Brasil para demonstrar que a invenção da “direita que não vê racismo” é antiga, profunda e complexa. Não cabe a representantes da direita atual reivindicar autoria ou originalidade, como interpreta o vereador Fernando Holiday em artigo publicado na Folha de S.Paulo, num desejo de se distanciar de Sérgio Camargo, seu correligionário de campo, que temporariamente ocupa a presidência da Fundação Cultural Palmares.

A falta de repertório sobre lutas negras vivenciadas em solo brasileiro é altamente prejudicial para brancos, negros, indígenas e todos os outros grupos sociorraciais

Dizer isso é falsear a verdade mais uma vez. Até porque estamos diante de um dado social que encontra fortes ressonâncias em setores que aprendemos a chamar de progressistas e patriotas. A esquerda e o centro obviamente não estão fora desse espectro.

A negação do racismo, aliás, têm sido um artifício muito comum entre todos que se protegem na negação da agência dos movimentos negros como sujeitos históricos. A construção do Movimento Negro como sinônimo de repositório de equívocos, ignorância e incapacidade de transformação social para o bem comum é um artifício tão antigo quanto as tentativas de reedição do mito da democracia racial.

Ou vai dizer que não é para isso que servem os outros selos de “Não somos racistas”, estampados em capas de livros como o de Ali Kamel? Ou os tapinhas nas costas e recolocações vantajosas no mercado de trabalho para profissionais denunciados por... racismo?

Neste momento em que nos esforçamos para aprender a nos defender das fake news, concordamos plenamente com a necessidade de se estudar a história para compreender as múltiplas e não poucas experiências de lutas negras vivenciadas em solo brasileiro. Essa falta de repertório é altamente prejudicial para brancos, negros, indígenas e todos os outros grupos sociorraciais.

A julgar pelos trabalhos da nossa competente historiografia realizados nos últimos 40 anos, que já ampliam sobremaneira os conhecimentos sobre Palmares, estamos diante de uma excelente oportunidade de nos manter na legalidade e fazer valer o cumprimento das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que inseriram a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, alterando a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), que segue vigente.

Estamos falando de informações que demonstram, além da agência de homens e mulheres escravizados e escravizadas defendendo sua humanidade, a presença expressiva de trabalhadores negros e negras livres, libertos e libertas disputando espaços no mundo do trabalho livre antes mesmo do fim da escravidão, do protagonismo dessas pessoas na formação de associações e dos primeiros sindicatos operários, dando demonstrações de que não era a falta de preparo para a vida em liberdade que impedia que muitos pudessem desfrutar seus direitos e serem reconhecidos por seus talentos e virtudes, como defendia a Constituição desde os tempos do Império.

Sem isso, vai seguir impossível admitir outro local para a existência política do Movimento Negro que não essa que reduz a luta obstinada de Martin Luther King a uma tolerância que cheira a acomodação e subalternidade. Como observou o teólogo negro Ronilso Pacheco, “Martin Luther King foi assassinado não só por supremacistas brancos, como também por uma igreja branca, que ainda hoje insiste em negar a existência do racismo e esconder a luta social do pastor”.

Só assim conseguiremos defender a legitimidade da missão institucional da Fundação Cultural Palmares e de todos os outros mecanismos acionados para combater o racismo no Brasil, com seus limites e potencialidades, algo, isso sim, natural das coisas humanas.

Ana Flávia Magalhães Pinto é professora do Departamento de História da UnB (Universidade de Brasília); coordenadora da regional Centro-Oeste do Grupo de Trabalho Emancipações e Pós-Abolição da Anpuh (Associação Nacional de História); integrante da Rede de Historiadorxs Negrxs e da Coalizão Negra por Direitos.

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