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Foto: Lars Plougmann/Creative Commons

A importância da curiosidade sexual no desenvolvimento infantil


Mais de um século depois dos estudos de Freud sobre o tema, continuamos ainda às voltas com as teorias sexuais infantis... dos adultos

“Pois o que se pretende ao recusar às crianças — ou aos jovens, digamos — tais esclarecimentos sobre a vida sexual humana? Teme-se despertar prematuramente o seu interesse por essas coisas, antes que surja nelas de forma espontânea? Espera-se, com esse ocultamento, reter o instinto sexual até o momento em que ele possa tomar apenas o caminho que lhe é aberto pela ordem social burguesa? [...] Ou se pretende seriamente que depois venham a julgar tudo relativo ao sexo algo inferior e abominável, de que os pais e os educadores queriam mantê-los afastados tanto quanto possível?”

Assim Freud escreveu em “O esclarecimento sexual das crianças” (1907), texto em que desdobrou o que a seu ver seria um dos destinos inevitáveis das teorias psicanalíticas sobre a sexualidade infantil: a relação entre a sexualidade infantil e a educação. Aquele trabalho era resposta a uma carta do Dr. Fürst, um médico da época reconhecidamente aberto às teorias freudianas, e foi publicado originalmente na revista Soziale Medizin und Hygiene. Ele marcava definitivamente um lugar para a psicanálise no pensamento e na preocupação com a educação das crianças, que viria a ter longa vida em culturas arejadas.

Como se sabe, Freud defendeu o esclarecimento aberto à sexualidade infantil a partir, em primeiro lugar, do reconhecimento da presença do sexual como condição primária da existência do bebê, em seu modelo ontológico, que pressupunha a necessidade de prazer como fundamento específico da natureza humana. Eram as suas famosas “pulsões sexuais pré-genitais” do bebê humano, primárias, originárias do que viria a ser o “eu” futuro de todos nós. Além disso, ele destacava a relação entre a curiosidade sexual da criança e o seu desenvolvimento intelectual, o que seria um tema amplamente explorado na clínica de inibições e neuroses infantis graves por sua discípula, a psicanalista de crianças Melanie Klein.

Para Klein, a impossibilidade de levar ao nível da palavra, e da brincadeira, a curiosidade sexual e sua investigação da realidade era a razão pela qual a atividade intelectual se inibia

Freud se referia na carta a Fürst, particularmente, ao seu trabalho original “A análise da fobia de um menino de cinco anos”: um pacientezinho acompanhado psicanaliticamente por seu pai, com a sua supervisão e orientação, que ficou conhecido mundialmente como “o pequeno Hans”, e cujas teorias sexuais versavam sobre o enigma da chegada dos bebês e questões ao redor da diversidade sexual.

As teorias sexuais próprias de Hans foram cruciais para o seu tratamento mediante um esclarecimento que protegia, sobretudo, a capacidade de pensar do próprio menino. Nas fantasias de Hans, a via do nascimento passava pelo sistema excretor — o nascimento cloacal — e a presença do pênis era um fato universal, tanto em seres animados quanto inanimados — dando um bom testemunho da autenticidade, autonomia e criatividade do trabalho mental infantil.

O psicanalista parte em defesa de Hans, que para ele não era um garoto especialmente sensual ou com qualquer disposição patológica singular que não o embate normal entre as forças da sexualidade infantil e o seu barramento pela cultura, e atribui à liberdade que os pais lhe concedem a condição de pensamento do pequeno investigador, que pacificaria a culpa que coloria suas pesquisas.

A necessidade de saber, que assume a forma de uma “pulsão epistemofílica” em Freud, tinha uma de suas origens no enigma da chegada dos bebês para todos nós, e desde muito cedo. Ela seria, desde então, reconhecida como uma condição necessária para o desenvolvimento ou a inibição intelectual da criança — inibição que se somava às formações neuróticas também advindas daí — para se dar conta daquilo que se pensa e se sabe sobre o sexual.

A novidade que se afirmava a partir do caso Hans é a formalização da liberdade de pensamento como promoção da saúde e do desenvolvimento mental infantil — a mesma que já vinha sendo garantida às neuroses adultas desde a publicação dos “Estudos sobre a histeria” (S. Freud, J. Breuer, 1895) e que Freud investigou em si mesmo, com profundidade e tolerância, em “A interpretação dos sonhos” (1900).

Nos estudos biográficos que seguiram àquela história das origens da psicanálise, soube-se que o pequeno Hans, de fato Herbert Graf, construiu uma carreira brilhante como cenógrafo de ópera. Não apenas isso, ele foi mesmo o inventor da profissão. Serge Bédère (2009) retoma o caso sob a perspectiva da biografia de Graf e a partir dos escritos de seu pai, Max Graf, o aluno que, junto com Freud, cuidou do menininho paralisado por medo de cavalos, em 1905. As considerações biográficas acentuam, ao final, o destino criativo exitoso de Hans no desenvolvimento de sua profissão, muito nova. Ao contrário de fixar-se em um sintoma a ser curado, Hans/Graf foi atravessado por uma notória atividade criativa ao longo de toda vida. Ele foi diretor titular da Metropolitan Opera House de Nova York, realizou mais de 60 espetáculos em Verona, Milão, Veneza e Florença, e assumiu a Ópera de Zurique e o Grande Théatre de Genebra, até sua morte em 1973.

Melanie Klein, a discípula fervorosa de Freud, inicia seu trabalho clínico importante no campo da psicanálise com crianças em torno do problema da inibição intelectual. A tese defendida em um primeiro momento, e confirmada pelos casos clínicos, é de que a inibição intelectual estaria relacionada à supressão da curiosidade sexual e da sua liberdade — a pulsão epistemofílica — em função de um sistema psíquico altamente repressor, que também habitava as crianças, um superego cruel original. Para Klein, a impossibilidade de levar ao nível da palavra, e da brincadeira, a curiosidade sexual e sua investigação da realidade, seja por repressão ou por não suportar a própria destrutividade que podia se apresentar exatamente aí — que é inerente ao ato de conhecer — era a razão pela qual a atividade intelectual se inibia.

Mais de um século depois, continuamos ainda às voltas com as teorias sexuais infantis... dos adultos. Assistimos à regressão às modalidades de pensamento primitivas figuradas na formação de objetos híbridos sexuais, a respeito da sexualidade das crianças, para a manipulação política — a “mamadeira de piroca”, imagem-mentira bizarra e excitada das eleições — e, agora, um projeto de políticas públicas que encoberta o esclarecimento sexual dos jovens, privilegiando a política da abstinência.

A razão dessas ações peculiares nós aprendemos com as crianças: o insuportável da nossa própria sexualidade e destrutividade. Em nosso caso cultural e nacional trágico, um insuportável que lesa a capacidade de investigar e pensar algo da vida, convidando a emergência do sintoma no lugar da curiosidade e transformando tudo isso em política conservadora de massas. Nem as crianças e nem os adultos devem saber mais aquilo que de fato sabem.

Marília Velano é psicanalista, mestre em psicologia/psicanálise pela Universidade Paris 7, Denis Diderot, e professora do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

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