Foto: Carolina Antunes/PR

A cultura no país. Ou as páginas não escritas da nossa literatura


Uma parte importante do Brasil virou uma esquina e deixou a cultura para trás. Sabe-se lá quando isso será revertido. O que já sabemos — e nos custa encarar, pois toca numa ferida narcísica — é que antes de a política virar as costas para a cultura, uma parte importante da cultura já estava de costas para a política

Parte da vida sensível deste país a que chamamos Brasil deixou de existir no último ano. Enfileirar os nomes é como um abraço de tristeza sem fim, mas, pela palavra, ainda que de forma voluntariosa, insuficiente e algo patética, celebramos aqueles que não foram sequer sussurrados pelo poder desta terra desgovernada.

João Gilberto, Francisco Brennand, Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia Rosa, Moraes Moreira, Aldir Blanc, Flávio Migliaccio, Sérgio Sant’Anna, Maria Alice Vergueiro — para ficarmos apenas no último ano.

Na literatura brasileira, sinto que todo um mundo se esvai desde que Millôr Fernandes, Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro se foram. Victor Heringer, partindo de outro lugar, renovou o abalo do qual ainda tentávamos nos recuperar.

Estaríamos tão órfãos se falássemos e escrevêssemos em uma língua menos periférica?

Nélida Piñon nos ajuda a lembrar que o melhor da nossa literatura raramente é prestigiado pelo poder durante períodos democráticos (ou quase isso). Ao receber o prêmio Príncipe de Astúrias, fato inédito para a língua portuguesa, ela voltou para a casa com um Miró, mas não recebeu sequer um telefonema do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Premiados com o Camões, dois dos nossos maiores artistas, Raduan Nassar e Chico Buarque, têm boas histórias para contar a esse respeito.

A novidade do nosso tempo é um apetite insaciável do poder por estética grotesca, ética escatológica e ideais arcaicos — em busca de um Brasil idílico que nunca houve desde que o homem branco desembarcou por aqui. À alienação do artista, os últimos secretários de Cultura somaram a gambiarra nazista, a celebração histriônica da ditadura e o desejo de destruir tudo o que possa ser chamado de arte.

Parece algo saído de uma peça de Shakespeare. Uma coincidência macabra permite que, ao enfrentar uma peste no momento mais difícil de sua história recente, um país seja comandado por um déspota cuja ambição se sustenta em um desejo profundamente humano, porém barrado à maioria de nós: a destruição total. O desejo de morte encontra furtivamente o meio ideal para a sua realização e a Besta se torna livre para fazer um massacre sem puxar o gatilho. É quase um sonho.

Uma parte importante do país virou uma esquina e deixou a cultura para trás. Sabe-se lá quando isso será revertido. O que já sabemos — e nos custa encarar, pois toca numa ferida narcísica — é que antes de a política virar as costas para a cultura, uma parte importante da cultura já estava de costas para a política. Sobre a literatura, essa distância foi notória na minha geração, recém-chegada aos 40 anos.

Como é possível que a sensibilidade e mesmo a curiosidade de uma geração tenham passado tão longe da gestação de um cataclisma?

Digo isso desprovido de qualquer superioridade moral — além de ser eu próprio um membro de tal geração, acredito ser um despropósito qualquer tipo de pressão para que um escritor escreva sobre o que quer que seja. No entanto, me intriga o fato de a sensibilidade de uma geração ter passado praticamente ao largo de tudo isso. Me pergunto sobre os escritores, mas talvez eu pense antes nos cidadãos.

No início dos anos 2000, havia entre muitos autores de ficção da minha geração certo encantamento com a possibilidade de se escrever sem incorporar elementos realistas da política. Os interesses e as manifestações públicas seguiam na mesma direção. Havia exceções, como Julián Fuks, mas a tônica até 2013 era manter a distância. Nesse tempo, quando escrevia meus primeiros contos, lembro que temas, enredos e personagens com problemáticas sociais e políticas tinham qualquer coisa de mobiliário antigo. Com seu realismo clássico e profunda consciência histórica, Milton Hatoum parecia o derradeiro artista de sua linhagem.

O curioso ao olhar para trás é que os jovens lidávamos com a tirania “do passado” como um inglês contemporâneo devia se voltar para a Londres empobrecida, desoladora e violenta de Dickens. Lembro de uma amiga fazendo ironias sobre o meu romance “Do outro lado do rio”“escrever sobre ditadura é um caminho certo para levar prêmios” (P.S.: não aconteceu) — e de autores talentosos se esmerando em análises sobre a linguagem dos games. A sensação de liberdade, talvez fruto de uma ressaca de quando era impossível contornar a política, durou pouco.

Pois aqui estamos nós neste calamitoso 2020, frente a um governante tirano e a uma pandemia sem precedentes no último século. Desde 2013, quando entramos nessa espécie de vórtice do caos, muito se escreveu sobre o cinismo com que lidamos com nossos traumas. Uma longa lista de marcos históricos — da colonização das terras indígenas, passando pela escravidão até chegar à ditadura militar — desbotou rapidamente na consciência nacional. A ditadura seria apenas o exemplo mais recente.

Mas não há motivos para nos sentirmos especiais.

Tal mistura de niilismo, onipotência, alienação, cinismo, arrogância, negligência e sandice é um patrimônio da humanidade. Seus expoentes na literatura estão em “Pais e filhos”, “Os Maias” e “Guerra e paz”, para ficarmos em três romances icônicos de como gerações, sempre da elite, respiravam desdém. Embora a tragédia brasileira carregue traços singulares — nossa violência segue com poucos paralelos mundo afora —, também é uma ópera bufa seguindo um antigo leitmotiv.

O tempo passa, os problemas se agravam e milhares de vidas são perdidas em ritmo alucinante. A literatura naturalmente sofre o impacto desse real avassalador. Tudo indica que será impossível contornar as questões escancaradas do presente. Mas a minha dúvida continua: como é possível que a sensibilidade e mesmo a curiosidade de uma geração tenham passado tão longe da gestação de um cataclismo? Quando algum curioso profissional se debruçar sobre a literatura produzida pela “geração 2000”, talvez se confirme a minha sensação; talvez não. Talvez alguém escreva boa ficção sobre isso. Talvez a gente descubra que de fato existe um país chamado Brasil.

Robson Viturino é escritor e jornalista. É autor do romance “Do outro lado do rio” (Editora Nós).

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