Foto: Ammar Awad/Reuters

‘Você não é judeu de verdade’: o antissemitismo velado


Era de se esperar que os judeus se posicionassem maciçamente contra um presidente que, em muitos aspectos, lembra um político que nos massacrou. No entanto, acontece justamente o contrário

Recentemente, o Ministro da Educação Abraham Weintraub comparou a ação da Polícia Federal referente ao inquérito das fake news com a Noite dos Cristais, sangrento episódio de perseguição aos judeus na Alemanha. Entidades como o Conib e o Comitê Judaico Americano se posicionaram publicamente contra a fala do ministro. Cerca de um mês antes, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, comparou a quarentena contra a covid-19 com campos de concentração nazistas.

É no mínimo paradoxal esse tipo de discurso vir do mesmo governo que protagonizou um caso como o de Roberto Alvim, secretário de Cultura que interpretou em um vídeo o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Ainda que tenha sido demitido como secretário, chama à atenção a ausência de uma condenação de Alvim, que não sofreu nenhuma punição legal, embora a legislação brasileira preveja que a apologia ao nazismo é crime que pode levar a cinco anos de prisão. Pouco tempo depois, quase não se fala mais no episódio. E não foi um caso isolado: somente no mês de dezembro de 2019, o Brasil vivenciou dois casos marcantes e semelhantes de manifestações neonazistas: um jovem com uma braçadeira com a suástica nazista em um shopping em Curitiba, cidade em que, inclusive, houve mais um caso, no dia 8 de fevereiro de 2020, quando carros foram riscados com suásticas; e um produtor rural que achou que seria divertido ir para um bar também com uma braçadeira nazista. Impossível não destacar ainda a suposta frase da chefe da Susep, aliada de Paulo Guedes, dizendo que é bom à economia que as mortes pela covid-19 se concentrem em idosos. Como não pensar no massacre de deficientes na Alemanha nazista justamente porque eles eram vistos como inconvenientes ao crescimento econômico.

A antropóloga Adriana Dias, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), identificou um total de pelo menos 334 células neonazistas em atividade no Brasil. Uma delas, em Niterói, com no mínimo 14 membros. Conforme apontou o G1, a data de fundação, 2013, coincide com a prisão de sete neonazistas que agrediram um jovem nordestino com um taco de beisebol. Curiosamente, na foto da prisão veiculada no jornal, ao menos três dos cinco que aparecem são homens pardos.

Bolsonaro nunca demonstrou diretamente hostilidade contra eles, como o faz continuamente contra outros grupos sociais, pelo contrário. Tudo bem o preconceito e o racismo, certo? Desde que não seja com a minha religião

Nesse contexto, era de se esperar que o povo judeu, historicamente tão perseguido, tivesse aversão a um presidente com viés autoritário, que declama torturador como herói, compara negros a gados, diz que indígenas não são seres humanos, que a ditadura matou pouco, que não estupra uma mulher porque ela não merece — é impossível listar todas as barbaridades ditas ou feitas, a cada dia há uma nova. Era de se esperar, ainda mais depois do incidente com Roberto Alvim, que os judeus se posicionassem maciçamente contra um presidente que, em muitos aspectos, lembra um político que nos massacrou. No entanto, acontece justamente o contrário.

De acordo com o antropólogo Ronaldo de Almeida, em um ensaio na obra "Democracia em risco?" e baseado em dados do Datafolha, 60% da população judaica declarou apoio ao então candidato Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018. No ano anterior, o presidente foi convidado a falar no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, uma entidade judaica, quando, entre outros pontos, comparou quilombolas a gado e associou mulheres à fraqueza. Tudo sob o aplauso de centenas de judeus.

O antissemitismo no Brasil nunca foi tão forte quanto na Europa ou nos Estados Unidos. O que não significa que ele não exista. Eu sou, literalmente, exemplo vivo do antissemitismo brasileiro. Se hoje existo, é porque meu bisavô foi astuto o suficiente para alterar seu sobrenome para uma pronúncia alemã, Schargel, passando-se por habitante de um país amigável ao Brasil e evitando assim a sua deportação para a Polônia.

Particularmente, já tive que ouvir que “se sua família foi aniquilada foi porque mereceu”, além de pequenos ataques travestidos de boa-vontade, do tipo “ah, mas você nem é judeu de verdade”, do uso constante do verbo “judiar” e da previsível e repetitiva pergunta que todo judeu do sexo masculino ouve com frequência. Isso só no Brasil, sem contar os casos de discriminação no exterior, onde o antissemitismo se amalgama com a xenofobia.

Toda a Europa construiu monumentos, memoriais e museus após a guerra, baseados justamente na necessidade de nunca esquecer para que nunca mais se repetisse. Ainda assim, de uma amostra de 7.000 alemães, 32% dos entrevistados em uma pesquisa acreditam que os judeus usam o Holocausto por conveniência e 34% pouco sabem ou desconhecem totalmente o Holocausto. Esses memoriais, transformados em pontos turísticos, fazem com que turistas pouco interessados na história, na memória ou no sofrimento alheio tirem fotos felizes, saltitantes, rindo.

Sartre estava certo quando disse que “o judeu é uma invenção do antissemita”. De uma família secular, a última religiosa fora minha avó. Tive pouco contato com a cultura judaica na infância e, por muito tempo, a ideia do judaísmo não estava sequer em segundo plano em minha identidade. Até a adolescência, ser judeu era, para mim, apenas um detalhe. Sequer entendia muito bem o que significava ser judeu, muito menos por que alguém perseguiria ou até mesmo como reconheceria um judeu. Isso começou gradualmente a mudar conforme, a partir da minha adolescência, passei a sofrer os primeiros ataques. São ataques pequenos, em geral mascarados de humor, de piada. Desde piadas com estereótipo de avareza, até algumas mais pesadas, com o próprio Holocausto.

Zora Neale Hurston, no ensaio “How it feels to be colored me”, discute justamente como a questão de se entender como negra surge apenas em contato com o racismo. Quando criança, ela não enxergava diferença entre as pessoas. Só quando passou a lidar com o racismo, com a diferença socioeconômica em relação aos brancos do sul dos EUA, com a segregação, é que ela compreende finalmente o que é ser negra. Hannah Arendt mostra isso, em “Origens do totalitarismo”, ao dizer que “internos se identificavam com as categorias que lhes eram imputadas, como se elas fossem o último vestígio autêntico de sua pessoa jurídica. Não é de se admirar que, em 1933, um comunista saísse dos campos mais comunista do que antes, um judeu mais judeu”.

Sergio Schargel é mestrando em literatura pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e mestrando em ciência política pela Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Tanto sua pesquisa quanto sua produção artística são focadas na relação entre literatura e política.

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