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Foto: Ricardo Beliel/Reprodução

Uma história do Maracanã: memória e vestígio de uma cidade


Após o bota-abaixo para a Copa do Mundo de 2014, torcedores começam a recuperar velhos pertencimentos e modos de torcer no mais importante estádio brasileiro

“Amigos, não tenham dúvidas: ontem, toda a cidade parou. Digo parou e não exagero: cada habitante da Guanabara não fez senão esta coisa ululante — torcer!”, escreveu Nelson Rodrigues na crônica da lendária final entre Flamengo e Vasco pelo Campeonato Carioca de 1974. Na tarde do dia 22 de dezembro daquele ano, o Maracanã recebera 165.358 pagantes para o clássico. “Antes do meio-dia, os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas”, contava o cronista, como desse à posteridade o testemunho de uma experiência sobrenatural.

Homens e mulheres repisam o passado margeando a vida e a fantasia. A memória coletiva — escreveu o historiador italiano Franco Cardini — tece e retece aquilo que o tempo cancela. É obra de mistificação, redefinição e reinvenção. O documentário “Memória da Arquibancada: Histórias do Maracanã” revisita, pelos rastros da palavra contada, o velho Estádio Mário Filho — o colosso erguido como símbolo do gigantismo nacional para a Copa do Mundo de 1950. Nas memórias de torcedores e jornalistas — sobretudo as vividas entre anos 1970 e 1980 —, corre o tempo de um Rio em ebulição em domingo de clássico.

Nas bilheterias abarrotadas, a epopeia para conseguir o ingresso no papel barato. Dali, amontoados, torcedores rivais rumavam para subirem juntos as rampas em zigue-zague até as arquibancadas. De lado a lado, provocações gritadas no vocabulário da rua carioca. Empurra daqui, segura dali, um quiprocó que quase nunca dava em nada.

Dentro do estádio, cruzavam-se as esquinas da cidade. Rodas de altinha, carteado, dominó, vendedores de laranja, mate e quinquilharias. Batuques, balões e macumbas, jogos de aposta e cantorias faziam o tempo correr antes da entrada em êxtase das torcidas, com fogos e chuva de papel higiênico. À beira do fosso que os separavam do campo, homens e mulheres se equilibravam sobre barras de ferro pra tentar ver algo mais do que a cabeça dos jogadores. Nas gerais — assim, no plural, como já foi uso se dizer — se abrigavam os populares, pagando um cruzeiro ou pulando o muro do estádio, performáticos e carnavalescos. Sabia-se do perrengue das superlotações e do risco de algum saco de urina, jogado da arquibancada, vir explodir na sua cabeça. Parecia haver, contudo, um acordo tácito, feito o sufoco estivesse de algum modo previsto no contrato torcida-estádio.

Então, veio o novo. Sobre os escombros do velho gigante, ergueu-se a arena projetada para a Copa do Mundo de 2014. O caderno de encargos da Fifa não era de titubear: “Todos os espectadores devem ficar sentados”, sentenciava o documento, cuidadoso com a terminologia de mercado — “espectador” tem 394 aparições no texto; “torcedor”, 32. Ali se detalhavam os espaços entre cadeiras, os ângulos de visão, as temperaturas adequadas para os novos estádios.

A descrição do velho estádio e da nova arena exige o cuidado de não cairmos na pura romantização ingênua ou interessada

Em entrevista ao jornal O Globo após o evento-teste da Copa das Confederações, em 2013, o então presidente do Consórcio Maracanã S/A enumerava sua lista de vedações projetadas para o futuro do Mário Filho: mastros de bandeiras, bumbos, torcedores em pé, gente sem camisa. Ele contava ter assistido na semana anterior às finais de tênis de Wimbledon. “Quando um inglês lê ‘não recomendável’, entende que não deve usar aquele tipo de roupa”, explicava.

O novo Maracanã se ajustava ao tempo da cidade que se pretendia moderna, como se os ecos das “picaretas regeneradoras” do poeta Olavo Bilac voltassem a ressoar o Rio up-to-date do prefeito Pereira Passos do começo do século 20. Se o espírito da metrópole “civilizada” dos 1900 exigira novas avenidas, nova gente e novos hábitos, a cidade agora requeria outra arquibancada. O Maracanã vivia o seu bota-abaixo.

O ingresso de papel precário deu lugar ao cartão que acompanha as oscilações de mercado e segue o cálculo da oferta x demanda. O torcedor do Flamengo que foi de arquibancada à fase semifinal da Taça Libertadores da América de 1981 desembolsou, contada a inflação, pouco mais de R$ 18; em 2019, ele ou ela pagaria o preço médio de R$ 128. Com câmeras e guardas, já não se pula mais o muro. O torcedor pobre migrou para a TV. A catarse coletiva do gol passou a ser encenada para a câmera frontal de um celular, sempre à mão para alimentar o feed de alguma rede social.

A descrição do velho estádio e da nova arena exige o cuidado de não cairmos na pura romantização ingênua ou interessada. O desconforto e a insegurança não eram assim tão desimportantes e o território caótico poderia ser muitas vezes hostil, o que desaconselhava uma diversidade maior de público, com crianças ou mulheres às voltas com assédio e outras violências. Seria do mesmo modo ingênuo ou interessado supor que a alternativa do bota-abaixo fosse a única para repensar o estádio.

O tempo e as pessoas tratam de ressignificar os espaços, no entanto. O imediato Maracanã pós-2013, com seus lugares marcados e DJs animadores de torcida, decaiu em pouco. Assiste-se hoje aos jogos quase sempre em pé, por vezes sobre as cadeiras. Bandeirões e baterias voltam às arquibancadas. A pressão por ingressos mais baratos tem, aqui e ali, algum resultado. A desarenização é processo em curso, como se viu no movimento que levou os torcedores do Náutico a abandonarem a Arena Pernambuco para reocuparem o antigo Estádio dos Aflitos.

No Rio, fala-se agora na “volta da Geral”, como trata projeto de lei sancionado em outubro de 2019 pelo governo do estado. É tentador pensar que, com a retirada das cadeiras às margens do campo, reaparecerá o finado setor popular, tal como aquele que existiu até 2005. É tão tentador quanto improvável — e não somente pelas delicadas questões estruturais. Lugar da pilhéria e da festa, a velha Geral era remanescência de uma cidade que talvez já não mais exista.

Será preciso conhecer os códigos de comportamento do novo espaço. Não faria sentido falar em geral com stewards à espreita barrando a roda de altinha. O que parece indiscutível, no entanto, é a capacidade das gentes de reinventar os espaços de controle — a esculhambação criativa de que fala o historiador Luiz Antonio Simas. O direito ao estádio, como escreveu o geógrafo Gilmar Mascarenhas, é hoje capítulo do direito à cidade. Cidade sempre irrequieta na dialética insolúvel entre a norma e a insubmissão, entre a regra e o desbunde.

Luís Costa é jornalista e doutorando em história social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor de “Bota o Retrato do Velho Outra Vez: a Campanha Presidencial de 1950 na Imprensa do Rio de Janeiro” (Paco, 2016), um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Comunicação. Dirigiu o documentário “Memória da Arquibancada: Histórias do Maracanã” (2019), disponível no YouTube.

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