Foto: Flávio de Barros

Tensões de Euclides da Cunha, dilemas do Brasil hoje


O ensaio sobre o autor homenageado na Flip 2019 discute como, apesar de encampar teorias hoje vistas como racistas e etnocêntricas, a obra euclidiana segue como potente denúncia de mazelas que ainda assolam o Brasil

Em novembro de 2018, quando a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)  anunciou que sua edição de 2019 homenagearia Euclides da Cunha, dois usuários se marcaram no post de uma revista acadêmica no Facebook sobre a notícia. Um, brincando, escreveu “Fora, Cunha!”, em alusão às mobilizações de 2015 e 2016 contra o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB). O outro, que compartilhava a rejeição à escolha de Euclides como autor homenageado, explicou: o escritor, que cobriu a Guerra de Canudos (1896-1897), no semiárido baiano, teria sido responsável pela criação de uma imagem negativa dos sertanejos e dos nordestinos.

Mais recentemente, uma voz célebre também criticou Euclides. Na primeira entrevista que concedeu após ser preso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva relatou assistir a videoaulas na prisão, dentre as quais destacou uma que teria mostrado “as mentiras que Euclides da Cunha contou sobre Canudos”.

São justas essas percepções sobre o autor de “Os Sertões”, consagrado como um dos maiores intérpretes nacionais? Antes de um exame mais detido sobre a complexa produção euclidiana, pode-se responder pelo avesso.

É perfeitamente possível considerar Euclides não como um detrator das populações interioranas brasileiras, mas como um dos autores a consolidá-las como vasto objeto de reflexão social. Ele teria sido pioneiro ao denunciar as agruras vividas pelas gentes sertanejas e a registrar, de maneira épica e densa, seus costumes, suas fisionomias, sua bravura — retrato sintetizado na emblemática frase “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Ora, tal matriz discursiva está longe de ser depreciativa. Ela goza de considerável enraizamento no imaginário social brasileiro, sendo frequentemente evocada para enaltecer a história de vida dos milhões de nordestinos que migraram para o Centro-Sul, ao longo do século 20, como o próprio Lula, nascido na pernambucana Garanhuns.

Não surpreende que, em abril de 2018, na véspera da entrega de Lula à Justiça, a presidente do PT Gleisi Hoffmann tenha pinçado justamente um trecho de “Os Sertões” para exaltar no Twitter a biografia do ex-sindicalista: “O sertanejo fez-se homem, quase sem ter sido criança (...) É um condenado à vida (...) Fez-se forte, esperto, resignado e prático”.

É curioso esse desencontro entre a visão negativa que Lula manifestou sobre a obra de Euclides e o uso desta para decantar o ex-presidente. O descompasso revela como o pensamento euclidiano resiste a simplificações, o que também se vê na sua relação com Canudos.

Fervoroso partidário da República, Euclides viu com maus olhos as notícias da agitação, então reputada como monarquista, em Canudos. Acreditava que o arraial do beato Antônio Conselheiro simbolizava um retrocesso aos tempos modernos, por representar um Brasil supersticioso e arcaico. Contudo, em 1897 o jornalista foi cobrir a fase final da Guerra de Canudos e o que viu deu um nó em sua cabeça.

Euclides escancara a ferida de como, em nome da “civilização” ou do desenvolvimento, tem se praticado e legitimado a barbárie no Brasil, desde tempos imemoriais.

A brutal violência contra os habitantes da comunidade rural de Belo Monte, composta de ex-escravizados, agricultores sem-terra e devotos de Antônio Vicente Mendes Maciel (o Conselheiro), calou fundo em Euclides. A ação do Exército fora um verdadeiro crime e caberia ao autor denunciá-lo, como o fez em “Os Sertões”. Decapitados, humilhados e desterrados, os anônimos de Canudos passaram a significar para Euclides um Brasil tão real quanto desconhecido pelas elites políticas. Um Brasil “real” que, desamparado, só emergiu como questão para o Brasil “oficial” quando fora identificado como pretensa ameaça ao Estado republicano.

A corajosa virada crítica de Euclides não quer dizer, no entanto, que ele tenha passado a vestir a camisa dos conselheiristas. O rústico misticismo de Canudos representava uma profunda alteridade para o materialista Euclides (que até viria a mostrar simpatia pelo pensamento de Marx). O autor viu a comunidade com espanto e admiração, fascínio e repulsa. Estranhou profundamente certo coletivismo de bens e aquilo que chama de “amor livre” em Belo Monte.

Não era um hippie. Era seguidor de teorias hoje decrépitas, como o evolucionismo, o determinismo geográfico e o racial, próprias do final do século 19 e há muito criticadas, com toda a razão, como etnocêntricas e racistas. Por exemplo, Euclides via a população de Canudos como uma “raça retrógrada” teleologicamente fadada ao desaparecimento, processo subitamente acelerado pelo massacre militar.

Isso não significa que devamos ser anacrônicos e recusar de todo a obra euclidiana. Não se trata de “passar pano” ou jogá-la na vala comum da desculpa do “homem de sua época”. Mas de notar como as ambíguas tensões de Euclides jogam luz a renitentes dilemas brasileiros, ainda nada superados. Ao contrário do que podem sugerir suas temerianas mesóclises, a sua obra não está nada embolorada.

Euclides escancara a ferida de como, em nome da “civilização” ou do desenvolvimento, tem se praticado e legitimado a barbárie no Brasil, desde tempos imemoriais. Ironia da história: o nome Belo Monte, mais de cem anos depois da devastação de Canudos, está hoje associado à usina hidrelétrica no Xingu, a “mais brutal obra desde a redemocratização brasileira”, nas palavras da jornalista Eliane Brum. Desde 2011, Belo Monte tem causado o despejo de milhares de indígenas e ribeirinhos bem como colocado em xeque a manutenção da biodiversidade da região paraense.

Mesmo que fosse entusiasta da técnica como instrumento para desenvolver e integrar o país, o engenheiro Euclides era bem ciente dos efeitos sociais dramáticos e deletérios que grandes obras podiam acarretar. Defendia a criação de uma ferrovia Transacreana, mas advertia sobre o risco de semelhante empreitada redundar na ruína e na aniquilação dos povos tradicionais. No artigo “Olhemos para os sertões”, questiona: “Não será temeridade abrir ferrovias nas entradas dos sertões, antes que firmemos com as populações rarefeitas que os habitam uma intimidade garantidora dos nossos destinos nacionais?”. Eis a história da Transamazônica.

Como nota Nicolau Sevcenko, ele “concebia todas as populações do interior como os sedimentos básicos da nação”. Prova disso é que expôs de maneira precursora o suplício dos seringueiros em meio ao ápice da economia da borracha na Amazônia, relatando suas condições de trabalho análogas à escravidão. A relevância da denúncia é hoje realçada num momento em que temos um ministro do Meio Ambiente que parece desprezar Chico Mendes.

Aliás, a política ambiental do atual governo, agarrando-se ao velho sofisma da preservação do ambiente como suposto óbice ao crescimento econômico, se desenha como uma “fazedora de desertos”, na expressão euclidiana. Muito antes de a questão ecológica ganhar a relevância contemporânea, ele já criticava o uso sistemático das queimadas no Brasil e o caráter predatório da cafeicultura e do extrativismo seringueiro.

Portanto, quem vier a ler Euclides irá perceber que, lamentavelmente, muito de sua obra permanece atual. Quem for à cata de elementos para rejeitá-la e bradar “Fora, Cunha”, pode muito bem acabar encontrando argumentos para encampar o “Fora, Bolsonaro”.

José Bento Camassa é mestrando em história social pela USP (Universidade de São Paulo), com pesquisa (com bolsa Fapesp) sobre os escritos de Euclides da Cunha sobre a Amazônia.

 

 

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