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Foto: Saulo Cruz/Agência Câmara

Religião e política: o país não é laico nem dos evangélicos


Este ensaio analisa a relação política dos evangélicos com Bolsonaro. O texto é o oitavo de uma série sobre o governo federal em 2019 — e é parte de uma parceria entre o ‘Nexo’ e a Associação Brasileira de Ciência Política

Não se pode compreender a presença e desenvoltura política dos evangélicos no Brasil sem relação direta com a trajetória e as vicissitudes da democratização no país. De um lado, os atores religiosos — o que querem, o que dizem e o que fazem — acompanham as condições em que o processo tem transcorrido, para o bem e para o mal. De outro lado, esse perfil indica que não há um projeto previamente traçado, único e inalterável, uma marcha triunfante do conservadorismo religioso transmutada em conservadorismo político. O Brasil de hoje não estava anunciado nas eleições de 1982, quando os evangélicos elegeram 12 representantes à Câmara Federal, ou de 1986, quando os pentecostais estouraram pela primeira vez, sendo 18 dos 32 parlamentares evangélicos eleitos.

O Brasil não é laico, embora a constituição assegure a separação jurídico-política entre Igreja e Estado desde 1891. Igreja e Estado, literalmente, somente mudando esse entendimento nas últimas décadas, pós-constituição de 1988, para religiões e Estado. O Brasil é pluralista em matéria de religião, e prevalece — com sinais preocupantes de regressão — a separação jurídica entre religião e Estado, mas sua cultura pública e as instituições estatais são fortemente permeadas pela religião. Isso não seria em si nem motivo para preocupação nem indicativo de violação do marco constitucional. Liberdade religiosa com liberdade de associação e expressão necessariamente implicam a possibilidade de mobilização pública das religiões. Basta que certos temas ou conjunturas críticas açulem a consciência ou as relações internas nas comunidades de fé. E isso temos tido de sobra, desde a transição à democracia.

Foquemos no governo Bolsonaro. Desde o surgimento de sua candidatura, surfando na onda de antipetismo e na incompetência política do bloco que derrubou a presidente Dilma Rousseff e se agrupou no governo de Michel Temer, um setor da liderança evangélica, que poderíamos chamar de elite pastoral e parlamentar, encontrou em Bolsonaro seu ponto de convergência. E não somente deu substantivo suporte à candidatura, mas articulou claramente um discurso de direita política e religiosa com visibilidade nunca vista. A direita evangélica, majoritariamente representada há anos no parlamento, em função de sua estratégia institucional de atuação política — ou seja, apoio oficial da liderança das principais igrejas evangélicas do país, todas pentecostais, e acompanhamento profissionalizado dos mandatos por conselhos políticos mantidos pelas igrejas — chegou assim ao ápice de sua evidência.

Mesmo essa direita evangélica é incapaz de dar direção ao governo, recebendo mais acenos simbólicos do que posições de efetivo poder.

No entanto, a retórica inflamada, o antipetismo visceral e o explícito endosso a uma articulação de pauta moralista com neoliberalismo radical deu voz a segmentos profundamente reacionários do campo evangélico, e também suscitou reações de uma centro-esquerda e esquerda evangélicas. Mais recentemente, parece surgir um certo descolamento dos moderados que aderiram à onda bolsonarista e o núcleo duro da extrema-direita evangélica. O governo começa a dar fortes mostras de que não tem projeto nacional de longo alcance, não sabe e não quer dialogar com as diferentes forças políticas representadas no Congresso e a pluralidade ideológica dos executivos estaduais (com forte influência sobre as bancadas na Câmara e no Senado) e só anuncia medidas profundamente impopulares. A repercussão internacional piora sistematicamente. E a performance governamental concreta — em termos econômicos, sociais e gerenciais — é patética e francamente regressiva.

Nesse cenário, a pluralidade interna do campo evangélico somente se acentua. Nunca deixou de existir, embora tenha sido eclipsada pela forte visibilidade e sucesso eleitoral dos conservadores e pela cobertura mal feita e maldosa da grande mídia, resultando no surgimento de um ator supostamente homogêneo, “os evangélicos”, que não tem qualquer respaldo na realidade. Os protestantes brasileiros — igrejas históricas, pentecostais e uma miríade de independentes, sejam microdenominações, sejam comunidades avulsas — nunca foram uniformes em matéria doutrinária, de modelo organizacional, de posições políticas, de orientações morais. É certo que há uma formação mais ou menos identificável, que atravessa as fronteiras institucionais. Mas não são agrupamentos estáveis, blocos alinhados.

Em matéria de política, pode-se identificar uma dupla orientação predominante: pragmatismo (geralmente expresso como governismo) e foco em pautas referentes à heteronormatividade sexual e patriarcal. Mas as convergências atuais em termos de outros temas são resultantes dos embates sobre reconhecimento legal e governamental de identidades minoritárias (entre as quais os próprios evangélicos), sobre justiça social e sobre participação no âmbito das políticas públicas. Embates que multiplicaram os atores e ampliaram a agenda das transformações muito além da ortodoxia vigente nas igrejas, ensejando a articulação de posições reativas cada vez mais amparadas em modelos e exemplos internacionais de direita religiosa.

Os primeiros seis meses do governo Bolsonaro expõem o máximo de força já alcançado pela direita evangélica e a crescente possibilidade de nomeá-la como tal, demarcando-a da maioria moderada (moral e politicamente) e dos setores mais articulados a posições de esquerda (na sociedade civil ou nos partidos políticos). Também revelam que mesmo essa direita evangélica é incapaz de dar direção ao governo, recebendo mais acenos simbólicos do que posições de efetivo poder. Não age sozinha, não pode o quanto diz poder e talvez esteja votada a se manter como último esteio de um governo incompetente e impopular, se não o abandonar como já fez com todos os últimos presidentes a quem apoiou.

Joanildo Burity é cientista político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor dos programas de pós-graduação em sociologia e em ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

 

 

 

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