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Foto: Elvis Batiz/Wikimedia Commons

Qual a melhor forma de rotular alimentos ultraprocessados?


Novas evidências mostram que práticas como o uso de ‘semáforo’ na embalagem pode gerar efeitos indesejados. Pesquisas precisam embasar mudanças pretendidas pela Anvisa

Você consegue compreender a composição dos alimentos no atual sistema de rotulagem no Brasil? Pois é: ela é incompreensível não apenas para você, mas para a maioria dos consumidores. Diante disso, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense – do qual faço parte –, junto com cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Universidade de São Paulo, da Universidade de Granada, na Espanha, e de Harvard, nos Estados Unidos, resolveu estudar a rotulagem brasileira e internacional com o intuito de entender melhor quais características dos sistemas propostos informam de forma eficaz os consumidores.

Os produtos ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos e sopas instantâneas, além de serem muito palatáveis, práticos e duráveis, tornam-se ainda mais atrativos com a ajuda da propaganda. A maior exposição da população ao consumo de alimentos ultraprocessados está associada ao estímulo irrestrito de propaganda, e é importante entender a relação entre ferramentas utilizadas pela publicidade e o efeito que têm sobre consumidores, para alertá-los e propor legislações mais adequadas no sentido de proteção da sociedade, uma vez que esses produtos fazem mal à saúde.

A falta de embasamento científico pode abrir margem para a aprovação de modelos de rotulagem que podem acabar implicitamente incentivando a venda de produtos ultraprocessados

Os fatores motivacionais que iniciam, sustentam e direcionam nosso comportamento podem ser implicitamente guiados, sem que percebamos, por pistas do ambiente. Pistas contidas na propaganda publicitária e embalagem de alimentos ultraprocessados, como a imagem de uma pessoa comendo, o design da embalagem ou a utilização de personagens infantis, podem aumentar o desejo de consumo de maneira não consciente. Por isso é relevante agregar conhecimento científico interdisciplinar na elaboração de ações que visem a promoção da alimentação saudável e a inibição do consumo de alimentos não saudáveis.

O tema é especialmente importante para o Brasil, que atualmente avalia uma revisão das normas de rotulagem nutricional de alimentos conduzida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). As propostas de aprimoramento da rotulagem nutricional devem ser acompanhadas de evidências científicas que as embasam. Nesse sentido, ainda é importante ressaltar que vários grupos de pesquisa sediados no Brasil se dedicam a fornecer evidências importantes em diferentes áreas do conhecimento, que visam atender às necessidades práticas e imediatas no âmbito da saúde pública, reduzindo o gasto de tempo e recursos. Informações oriundas desses estudos apoiam os sistemas de rotulagem em forma de advertência, como a proposta apresentada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

Um modelo de rotulagem semelhante é empregado atualmente no Chile, e vários estudos têm apontado a sua eficácia. A falta de embasamento científico pode abrir margem para a aprovação de outros modelos que, além de não favorecerem a população, podem acabar implicitamente incentivando a venda de produtos ultraprocessados pela indústria.

Só para exemplificar, uma das propostas levantadas por diversos países, e já considerada pelo Brasil, é a aplicação de um rótulo na frente da embalagem, em formato de semáforo, indicando a concentração de determinados nutrientes nos produtos, por meio da exibição de códigos de cores vermelha (alto), âmbar (médio) e verde (baixo).

Mas, atualmente, questionamos a eficácia desse modelo. E por quê? Fizemos dois experimentos sobre o efeito das cores desse sistema de rotulagem sobre a resposta emocional dos participantes diante de alimentos ultraprocessados – o primeiro com 78 voluntários, e o segundo com 24 participantes. Eram apresentadas imagens de ultraprocessados precedidas por uma das cores do semáforo nutricional. A resposta emocional às imagens apresentadas era aferida por meio de escalas psicométricas e da resposta cerebral dos participantes, capturada pela técnica de eletroencefalografia.

Os resultados demonstraram que as cores do sistema de rotulagem em forma de semáforo podem gerar um efeito indesejado: os participantes se sentiram mais atraídos pelos produtos doces quando pareados com a cor vermelha. Essa cor pode predispor, sem que o consumidor perceba, uma aproximação a produtos ultraprocessados de sabor doce, por meio de uma associação implícita entre os sentidos da visão e paladar.

Esse efeito é contrário ao desejado. Como o uso do vermelho em sistemas de rotulagem nutricional é muito frequente, esses achados trazem uma nova visão sobre o design de sistemas para a saúde pública.

A cor vermelha pode ter sido associada evolutivamente ao sabor doce como uma forma de facilitar a detecção de frutos maduros em meio à folhagem verde. Essa associação vem sendo explorada pela indústria para definir a cor da embalagem dos seus produtos. A novidade do estudo está em aplicar essa mesma teoria no teste de sistemas de rotulagem a serem implementados pelos setores de saúde pública na embalagem de produtos ultraprocessados.

Como os consumidores não percebem que as suas escolhas podem ser influenciadas por essa associação, são necessárias técnicas capazes de capturar as reações implícitas dos participantes, como a eletroencefalografia. Infelizmente, essas técnicas ainda são muito pouco empregadas em estudos de saúde pública.

Os resultados do nosso grupo acabam de ser publicados em artigo de um periódico considerado de alto impacto, intitulado “Food, Quality and Preference” (Comida, Qualidade e Preferência), do Grupo Elsevier, e podem subsidiar especialistas no assunto, legisladores e a sociedade civil para que, mais uma vez, não incorramos em erros difíceis de serem revertidos.

Isabel David é pesquisadora da Universidade Federal Fluminense, coordenadora de projeto Jovem Cientista do Nosso Estado pela Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro). O projeto recebeu recursos da Fundação do Câncer, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

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