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Foto: Divulgação

Por que a banda Los Hermanos leva multidões aos estádios


Reunido em nova turnê pelo país em 2019, o grupo, essencialmente indie e universitário, mostra que atravessou o tempo, renovou seu público e manteve-se firme no mercado, deixando um legado estético

No dia 4 de maio de 2019, 42 mil pessoas foram ao estádio do Maracanã assistir à apresentação do Los Hermanos no Rio de Janeiro. A banda de Marcelo Camelo, Bruno Medina, Rodrigo Amarante e Rodrigo Barba realizou o que somente Ivete Sangalo, Roberto Carlos e Sandy e Júnior haviam feito: conquistar o Maracanã sozinhos.

O grupo, cujo último álbum foi lançado em 2005, e que está em hiato oficial desde 2007, viaja o Brasil em turnê. Fez shows na Fonte Nova, em Salvador, e no Mané Garrincha, no Distrito Federal. Cumpriu datas em espaços enormes nas capitais Fortaleza, Recife, Vitória, João Pessoa, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Trata-se de feito notável para uma banda de fora do circuito industrial da música, que viveu no Maracanã um “sonho para contar aos netos”, como comentou Camelo ao final do show.

Alheios ao mainstream desde que “Anna Júlia”, do primeiro álbum, de 1999, (produzido por Rick Bonadio) conquistou sucesso avassalador, os Hermanos foram ao estádio carioca encontrar seu público, famoso pela devoção com que entoa o discurso de Amarante e Camelo.

Apaixonados, os fãs do grupo não cantam apenas o coro dos sucessos televisivos e radiofônicos da banda. Cantam tudo, o tempo todo. Cantam 25 “hits” numa apresentação de pouco mais de duas horas. E, assim, ficam de mãos dadas com o grupo durante toda a travessia, nas estrofes, refrãos e até nos temas instrumentais defendidos pelo naipe de metais (formado por Pai Bubu no trompete, Mauro Zacharias no trombone e Índio no sax) que acompanha a banda desde sempre.

Comparecer a um show do Los Hermanos é testemunhar um acontecimento cultural marcante. É verificar como uma música essencialmente indie e universitária atravessou o tempo, renovou seu público e manteve-se firme no mercado, movimentando sozinha muito dinheiro, alcançando sucesso nacional e deixando um legado estético. A existência de artistas jovens e férteis como Rubel (a atração de abertura em Minas Gerais e São Paulo) e Tim Bernardes (a atração de abertura no Rio de Janeiro e Paraná) mostra como o Los Hermanos marcou também uma safra de compositores, cujos trabalhos têm nítido diálogo com a banda. 

O elemento central desse acontecimento é obviamente a música. Em termos de composição, o projeto estético do grupo é o resultado de um rico encontro entre dois compositores, Amarante e Camelo, hoje quarentões. Suas vozes autorais são distintas, porém complementares. Camelo é mais delicado e suave, apesar de atacar com disposição os vocais nos momentos punks de algumas canções. Amarante é mais febril e inquieto, apesar de, por vezes, fabricar baladas embriagadas de melancolia. Um sabe ser o coadjuvante do outro. São a vitrine do grupo nas performances ao vivo. São eles que ocupam a frente do palco e falam com o público.

Da reunião entre essas duas sensibilidades, e da intervenção dos teclados de Bruno Medina, nasceu uma sonoridade harmônica e melódica única no cenário da música popular contemporânea do Brasil. Um sonoridade que tem ecos líricos e existenciais de Belchior e Chico Buarque, sugestões orquestrais de Weezer e Squirrel Nut Zipper, e alguma identificação remota com a cena alternativa do final dos anos 1990 do Rio de Janeiro, em que figuravam nomes como Acabou La Tequila, Carne de Segunda e Mulheres Que Dizem Sim. Assim, na música dos Hermanos há bolero, samba, salsa e hardcore. Canções aceleradas como “A flor” e “Pierrot” animaram no sábado a mesma plateia que cantara “Anna Júlia” sem constrangimento ou se emocionara com a frágil “De onde vem a calma”.

Em todos os casos, contudo, sob as frases e temas dos instrumentos harmônicos e melódicos, está fincado o marcante sotaque rock da bateria de Rodrigo Barba. É ele, com sua mão pesada de quem toca samba sem ser exatamente um “baterista de samba”, que conduz o cordão para que o bloco do Los Hermanos consiga desenvolver sua autoria. O disco “Bloco do Eu Sozinho”, de 2001, é um exemplo dessa conversa musical, em que o universo imagético e sonoro do carnaval, o vigor do rock e um clima de fanfarra circense atualizam-se no século 21.

‘O amor já desvendou nosso lugar’

Embalada por esse material sonoro, está uma poesia sensível e lapidada, que parece ser um dos maiores trunfos da comunicação proposta pela banda. Amarante e Camelo sabem esculpir letras em sintonia com os afetos de seu público. Sua escrita consegue amarrar uma relação estreita entre a canção e a gramática dos sentimentos, fazendo com que suas músicas possam ser cantadas de peito aberto. A partir de suas inteligências artísticas, os compositores transformam emoções em estado bruto em timbres e signos carregados de expressividade. No final das contas, o que o Los Hermanos faz é se arriscar a falar de amor.

Na música popular, o amor é um assunto banalizado, a cafonice está sempre à espreita. Cantar o amor com verdade e desembaraço é raro. Nesse sentido, os Hermanos se oferecem ao risco, como tinham prometido fazer ao batizar, em 2003, seu terceiro disco de “Ventura”. Encaram a tarefa de tratar de tema tão desgastado e, ao mesmo tempo, grandioso. Daí vem a implicância de que são, por vezes, objeto. Mas daí também vem a intensidade das canções que se conectam com uma audiência disposta a se expor e declamar aquelas palavras com volume alto e energia. Sem melodrama, a banda afasta-se dos clichês das lovesongs e ajuda seus fãs a desentalarem frases de amor da garganta. Especialmente dos homens, que, de certa forma, protagonizam os corais que emergem do público, cantando em uníssono sobre desencontros e alegrias.

Muitos casais se conheceram em shows da banda e não faltam relatos de histórias de amor embaladas pela música do grupo. No dia 4 de maio, “Conversa de botas batidas”, uma canção sobre um casal que aposta no amor até o fim derradeiro, proporcionou um momento coletivo de exaltação e intimidade. Em “Sentimental”, o Maracanã reverberou a calma da melodia angustiada de Amarante. Os celulares, que normalmente atrapalham, compuseram um vistoso quadro em que brilhava uma comunidade estrelada. No descampado da noite, numa arena aberta, o céu cobria o som que saía do palco e chegava nítido nos ouvidos e corações da plateia.

omo forma de amor, a amizade é também um dos elementos que constituem o fenômeno Los Hermanos. Desde os rituais de composição dos discos, em que os quatro membros da banda se isolavam em sítios da serra do Rio de Janeiro para compartilhar o tempo e criar, até o “irmãos” no nome do grupo. Originalmente, a banda se constituiu a partir da amizade de Camelo com Barba, Medina e Amarante, e não exatamente por conta de afinidades musicais. Com backgrounds artísticos distintos, os Hermanos são resultado da soma de individualidades reunidas pela amizade e na diferença. Depois de lançarem o quarto e último disco, “4”, em 2005, preferiram suspender os trabalhos por tempo indeterminado.

No show do Maracanã, no único problema técnico da noite, quando o som da guitarra de Camelo desapareceu, Rodrigo assumiu o microfone entre uma música e outra e agradeceu a Marcelo por ter lhe convidado para fazer parte de sua banda, quando ainda eram jovens de vinte e poucos anos na PUC do Rio. Foi por conta do companheirismo gerado por aquele convite que eles agora estavam ali, lado a lado. Tocando para uma multidão que, de alguma forma, se identifica com a aura de afeição do encontro entre os dois.

Aproximadamente 200 mil pessoas terão compartilhado dessa irmandade musical e afetiva, nos 11 shows da turnê de 2019. Na apresentação do Rio, ao encerrarem seu ritual de elogio à música, os Hermanos pareciam felizes por tocar em sua cidade natal. Perante pelo menos duas gerações distintas de fãs, agradeceram à multidão e às mais de 200 pessoas da produção que fizeram aquilo acontecer. Num espetáculo equilibrado, com um cenário sóbrio, sem surpresas ou ousadias, o público viu o grupo numa performance competente.

Depois de florescerem pelas mãos da indústria e serem gravados até por George Harrison, os Hermanos romperam com o modelo então vigente de gerenciamento de carreira e apostaram na força original de seu enunciado artístico. Criaram uma música sentimental, moderna, urbana e brasileira. Assim, seguem sendo um dos episódios mais singulares da música nacional recente, independentemente de se gostar ou não do seu trabalho. O que o Los Hermanos é capaz de promover em torno de si só reafirma a potência mágica que a música tem, de gerar, com suas imagens e sensações, extraordinários e duradouros laços de afeto sincero entre um artista, suas canções e seus fãs.

Gabriel Gutierrez é jornalista e pesquisador. Mestre em ciência política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro). Pesquisador do Centro de Arte e Cidade da Uerj (Universidade do Estado do Rio de janeiro). Professor da Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso).

 

 

 

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