Foto: Adriano Machado/Reuters

Os presidentes e a escalada irracional dos compromissos


Ao indicar seu filho para a embaixada do Brasil nos EUA, Bolsonaro desagradou aliados, eleitores e foi alvo de piadas dos opositores. Este ensaio busca explicar por que ainda assim ele mantém essa decisão

Os últimos três presidentes tomaram decisões que parecem a aplicação perfeita do viés da escalada irracional do compromisso. Decisões políticas têm consequências jurídicas e sociais que devem ser consideradas. O problema de tomar decisões ruins e manter-se nelas (apesar das consequências) não é um problema especificamente brasileiro e nem político, mas sim humano. É a vontade irascível de esperar que o amanhã seja diferente do hoje, mesmo que não haja nada que nos faça acreditar nisso. Entretanto, num mundo cada vez mais rápido, líquido e dinâmico, a espera pelo amanhã pode ser fatal.

É irracional que você se comprometa com uma possível melhora no amanhã sem que existam evidências disso, mas não é improvável. Em regra, quando o comportamento leva a consequências negativas, o indivíduo, em vez de mudar seu comportamento, distorce cognitivamente as consequências negativas para buscar resultados mais valiosos. Trata-se de uma modalidade corriqueira de autoengano chamada de “escalada irracional do comprometimento”.

No Brasil, uma das mais catastróficas decisões políticas foi o malfadado Plano Collor ou Plano Brasil Novo. O plano tinha por objetivo diminuir a inflação e consistia em bloquear os depósitos feitos em contas bancárias, de modo a aplicar a verba restante de forma compulsória. Apenas seria possível sacar 50 mil cruzados novos depositados nos bancos. Os valores adicionais ficariam bloqueados, sendo autorizados novos saques a partir de um complexo calendário de liberação. Atualizando-se pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) o valor seria em torno de R$ 1.386,33. O plano iniciou a derrocada do presidente — concluída com denúncias seriíssimas de corrupção — e pode ser usado como exemplo de decisão política catastrófica. Collor não recuou da decisão em tempo hábil e acabou trucidado por ela.

A hipótese é fácil de compreender e provavelmente o leitor já caiu no viés comportamental da escalada irracional do compromisso. Se um indivíduo toma uma decisão ruim e de tal decisão advêm diversas consequências danosas, há uma alta probabilidade de que ele vá tentar manter a decisão apegando-se à esperança de momentos melhores, mesmo que não haja nenhum indício de que as circunstâncias hão de mudar. Na área de investimentos, o viés é particularmente interessante, pois prejudica cotidianamente os investidores e especuladores em suas análises.

Não existem motivos razoáveis para que o governo mantenha a indicação. Além de uma acusação desnecessária de nepotismo, o Itamaraty conta com quadros brilhantes e, em diversos casos, com quadros de opositores aos governos anteriores

Barry Staw narra um experimento com 240 graduandos de administração da Universidade de Illinois, que se se ofereceram para participar de um estudo sobre solução de problemas financeiros. Ao longo do experimento os participantes tiveram que tomar diversas decisões sobre como investir o dinheiro de uma empresa, no papel de seu executivo. As consequências da decisão foram experimentalmente manipuladas através da atribuição binária e aleatória de informações para os diversos participantes. Um grupo recebeu dados sobre os resultados positivos de uma determinada decisão e os outros receberam a informação de que ela tinha performado mal. O estudo concluiu que os indivíduos investiram uma quantidade substancialmente maior de recursos na expectativa de que os resultados fossem diferentes quando foram pessoalmente responsáveis ​​pelas consequências negativas. Curiosamente nós estamos mais dispostos a mudar de decisão quando outros participam do processo decisório e quando a responsabilidade não é inteiramente pessoal, mas dificilmente fazemos o contrário.

Não obstante a análise anterior ter tido como objeto investidores que deveriam alocar recursos, trata-se de caso análogo às decisões dos políticos em geral. Considerando que na política os candidatos e gestores possuem alta responsabilidade individual por suas escolhas, o viés comportamental da escalada irracional do compromisso torna-se uma verdadeira manifestação da condição humana. Políticos são sempre condenados ou exaltados por decisões e a necessidade visceral de estar certo assombra o dia a dia da vida política.

Últimos presidentes

Existem diversos exemplos recentes na política brasileira. Três deles são particularmente interessantes.

O primeiro foi executado pela então presidente Dilma Rousseff quando realizou o represamento dos preços da gasolina. Apenas uma das diversas consequências dessa decisão “gerou perdas de cerca de R$ 40 bilhões para os produtores de etanol de 2011 a 2014”. A consequência imediata foi que “diversas empresas optaram por atrasar pagamentos de impostos; outras retardaram a renovação das lavouras de cana-de-açúcar, diminuindo a oferta de cana”, de modo que os impactos começaram a se perpetuar como uma cadeia veloz no setor produtivo brasileiro. Até a entrada de Pedro Parente, um novo presidente da Petrobras indicado por Michel Temer, a política continuou. Dilma não parece ter aceitado que errou no início da cadeia de decisões.

O segundo exemplo bem expressivo foi o do presidente Michel Temer. A greve dos caminhoneiros, que durou 11 dias em maio, trouxe conhecidos efeitos para a economia brasileira em 2018. Em síntese, o movimento gerou escassez de produtos no comércio, resultou na paralisação da indústria e causou prejuízos ao agronegócio. Até mesmo as aulas em colégios e universidades foram suspensas. Enquanto o PIB cresceu 1,8% de janeiro a abril, de maio a dezembro o crescimento foi de apenas 0,8%. A queda foi drástica e a melhor hipótese é de que a greve teve participação importante nisso. A avaliação de muitas agências de notícia foi de que a paralisação “vinha sendo discutida entre caminhoneiros desde o início de maio, mas o governo não chamou representantes para negociar antecipadamente”. Depois que a greve começou, a resposta foi ainda pior. “Nos dois primeiros dias da greve, a resposta de representantes do governo à crise foi de que o Planalto não cederia a uma chantagem”. O congresso começou a divulgar que interviria na questão e o presidente acabou mudando de ideia. O início confuso com a divulgação da informação de que o governo não aceitaria uma “chantagem” parece ser uma manifestação clara da escalada irracional do compromisso, pois o compromisso assumido anteriormente de não negociar foi mantido, mesmo que as circunstâncias estivessem mudando drasticamente. O desgaste político de Temer foi terrível.

Bolsonaro e a embaixada dos EUA

Por fim, o atual presidente parece acometido do mesmo viés. Ao indicar seu filho para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, o presidente Bolsonaro desagradou aliados, eleitores e foi alvo de piadas dos opositores. Notícias recentes demonstram uma movimentação política para barrar a decisão no Senado e a chance de ocorrer uma derrota política do governo é grande.

Curiosamente, a indicação causa uma polêmica desnecessária. No desenrolar de uma discussão difícil sobre a constitucionalidade da reforma da Previdência, da provável oposição que a reforma tributária e a reforma administrativa causarão, o governo parece ter atraído para si uma tensão inesperada. Ainda pior, não existem motivos razoáveis para que o governo mantenha a indicação. Além de uma acusação desnecessária de nepotismo, o Itamaraty conta com quadros brilhantes e, em diversos casos, com quadros de opositores aos governos anteriores. O presidente não está obrigado a indicar alguém desses quadros, mas não seria mais recomendável? Por que ele pensa em mantê-la? Provavelmente pelo viés da escalada irracional do comprometimento. Uma vez tendo se comprometido com uma decisão, os políticos começam a queimar capital político sem que haja necessidade, pois esperam que a decisão passe a frutificar resultados positivos. Muitos morrem abraçados às suas convicções. Ainda que Bolsonaro decida rever sua decisão, a escolha polêmica ficará marcada durante todo o seu mandato e será usada contra ele numa provável tentativa de reeleição. Há sempre uma esperança de que uma decisão ruim se torne uma decisão boa, pois assim o político recuperaria o capital político perdido. Isso quase nunca acontece.

A política não deixa de ser uma forma cotidiana de lutar contra as nossas próprias paixões. Ainda que de ideologias diferentes, todos os presidentes anteriores eram humanos e lidavam com os seus demônios. Somos e seremos sempre humanos, demasiado humanos. Natureza da qual dificilmente fugimos. É o eterno compartilhar dos defeitos com a humanidade que nos cerca. Parafraseando Shakespeare em “Macbeth”, afundados na lama, nós vivemos na esperança de que nossas decisões de amanhã sejam melhores do que as de hoje, até que o dia a dia se escoe de mansinho; até que chegue, por fim, a última sílaba do livro da memória.

Matheus Farinhas de Oliveira é professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).

 

 

 

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