Foto: Reuters - 23.06.2013

Os movimentos independentes arejam a política brasileira


Para os poucos partidos ainda vivos ideologicamente, os movimentos são grupos de apoio, coparticipantes de uma jornada em direção a uma política melhor, mais aberta, com mais mobilização e quadros mais qualificados

A última década colocou a sociedade brasileira em um impasse político poucas vezes visto anteriormente. A tensão que até então germinava silenciosamente explodiu quando milhões de pessoas foram às ruas em 2013 e continuaram mobilizadas até o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Os insatisfeitos queriam mudanças, mesmo com pautas destoantes. De fato, poucas coisas uniam manifestantes daquele momento inicial, em 2013, e dos anos posteriores, quando pediam a saída de Dilma. Uma delas, porém, estava clara para quem pudesse ver e ouvir os slogans vindos das ruas: a rejeição ao establishment político nacional, aos seus membros e partidos.

A energia das manifestações realizadas durante o governo Dilma foi canalizada de muitas formas. Suas origens, motivações e consequências vêm sendo estudadas por diferentes vertentes das ciências sociais e já formam uma pequena literatura analítica sobre o tema. Desses momentos e da atenção quase contínua da sociedade aos acontecimentos políticos, começou a nascer parte importante dos novos movimentos políticos, associações cívicas de engajamento, discussão e formação de lideranças. Com orientações ideológicas distintas, os movimentos oferecem a seus membros um espaço de convivência e troca de ideias, de formação e informação — insumos importantes para a atuação política, cuja oferta sempre veio de grupos de interesse, como sindicatos, conselhos de classe ou associações setoriais. Nada disso substitui a importância de bons partidos políticos, instituições essenciais para o bom funcionamento da democracia. Nesse contexto, os ferozes ataques dos políticos aos movimentos perdem de vista um fator fundamental para a discussão: partidos e movimentos não são competidores, mas forças complementares.

A explosão de interesse dos brasileiros em temas políticos despertou o interesse em participar da política. Parte dos interessados, por motivos que mereceriam um artigo próprio, não se sentia contemplada pelos partidos políticos, mas encontrou casa nos movimentos independentes. O movimento no qual milito, o Livres, nasceu de jovens liberais buscando abrigo partidário, onde nossos sonhos para um Brasil de economia aberta e sociedade tolerante fossem acolhidos. Iniciada em 2016, nossa tentativa de refundar o PSL combinava uma plataforma social-liberal consistente e uma proposta inovadora de governança interna. A experiência foi abruptamente interrompida dois anos depois, quando a presidência do partido decidiu abrir suas portas a um político cuja história de apoio a ditadores e torturadores antagonizava com nossos ideais liberais.

A política brasileira, nos disseram, era assim mesmo. Mas nós, como muitos, não iríamos nos acomodar. Com esse histórico, nós compreendemos que o embate das últimas semanas, quando estrelas partidárias direcionaram uma série de acusações aos movimentos políticos, era apenas questão de tempo. A percepção simbólica do poder em um partido é um jogo de soma zero: se alguém o ganha, outro, que o detinha anteriormente, deve perdê-lo. Mas, no caso em questão, essa percepção não poderia estar mais distante da realidade. Para os poucos partidos ainda vivos ideologicamente, os movimentos são grupos de apoio, coparticipantes de uma jornada em direção a uma política melhor, mais aberta, com mais mobilização e quadros mais qualificados.

Mas o Brasil não é fácil de ser explicado. O refrão que amarrava nosso atraso institucional à ausência de engajamento popular na discussão dos temas importantes para a nação, isto é, dos temas políticos, era repetido com certa razão. Uma sociedade democrática forte requer a existência de uma sociedade civil engajada e presente, mas nos acostumamos a acompanhar os acontecimentos a certa distância. Mesmo os políticos repetiam que a participação popular era algo a se almejar, enquanto citavam a vizinha Argentina, com suas manifestações regulares, como exemplo. Hoje, ao verem os movimentos trabalhando com atividades financiadas voluntariamente, sem uso de dinheiro público, a discussão é outra: como se atrevem a ser independentes, a não seguir instruções da burocracia partidária?

A insegurança dos partidos é inexplicável: os movimentos políticos não têm estrutura, recursos ou mesmo a pretensão de substituí-los.

A questão, mais uma vez, está cega ao ponto principal. Apesar de toda a atenção da imprensa, apenas uma pequena parcela dos membros desse tipo de iniciativa cívica acaba se candidatando para um cargo público. A imensa maioria dos participantes do Livres deseja apenas ajudar a avançar nossos princípios, liberais na economia e nos costumes, no debate público. Dos nossos 2.500 associados, apenas 47 se candidataram em 2018. Para eles, um movimento pode oferecer uma plataforma menos contaminada pelo status quo político, bastante impopular entre a população. Entre os brasileiros ouvidos pelo Datafolha, em uma pesquisa publicada em julho deste ano, 58% disseram não confiar nos partidos políticos. São homens e mulheres que veem partidos políticos como institui��ões pouco transparentes e ideologicamente indiscerníveis, responsáveis apenas pelo acesso de candidatos às urnas e pela gestão dos bilhões de recursos públicos dos fundos partidário e eleitoral.

A política brasileira precisa de caras novas, mas o acesso a ela ainda passa por caras velhas. Apesar da inequívoca manifestação da população pela mudança, os velhos comandantes dos partidos preferem que novas práticas na política sejam geradas sob o controle de quem ajudou a gerar as antigas. Desejam que ela venha sob as asas do status quo, de forma lenta, gradual e segura para quem comanda as máquinas partidárias. A adoção de ideais firmes e princípios que guiem sua abordagem em relação à sociedade e às normas que devem regê-la caminhou em passos muito mais lentos.

Mesmo contando com fundações estabelecidas e financiadas com dinheiro do contribuinte para esse fim, os partidos se desligaram da função de prospecção e educação de militantes, de gente comum que se associa para o avanço de um ideal. Tornaram-se siglas sem significado e organizações indiscerníveis para eleitores e eleitos. Enquanto aguardamos que os partidos se reorganizem e tornem-se instituições mais transparentes, menos fisiológicas e mais identificadas com seus militantes, convertendo-se em casas de reflexão política e formulação de soluções para o país, devemos continuar a ver movimentos políticos e outras alternativas de engajamento crescerem.

O sistema partidário permanece com os recursos públicos, com a prerrogativa de apresentar candidatos ao pleito eleitoral e com o monopólio da representação como bancada nas casas legislativas. A insegurança dos partidos é inexplicável: os movimentos políticos não têm estrutura, recursos ou mesmo a pretensão de substituí-los.

Os movimentos políticos apenas cumprem seu papel, prestando serviços ao cidadão brasileiro, como é comum em qualquer sociedade livre, democrática e aberta.

Magno Karl é doutorando em políticas públicas na Wylly Brandt School e diretor de políticas públicas do Livres.

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