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Foto: Mariana Garcia/Osesp/Divulgação

O poder das orquestras sinfônicas e a importância da Osesp


Quando Villa-Lobos e Camargo Guarnieri vão à China: a projeção internacional da música clássica brasileira. E a consolidação de um projeto de formação de público e líderes

Orquestras sinfônicas são organismos complexos. Pedem projetos artísticos consistentes, tempo de maturação e recursos humanos altamente especializados, tanto em seu corpo artístico quanto em sua gestão. Mais que isso, devem ser representativas de suas sociedades. Por serem projetos que envolvem gerações, carregam em suas trajetórias o poder de comunicar aos seus públicos, sejam locais ou internacionais, um pouco da história de seu povo, sua identidade e como entendem a arte como um mecanismo de desenvolvimento cultural.

No momento em que escrevemos esse artigo, em fevereiro de 2019, estamos com a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) do outro lado do mundo (ou nosso mundo é que seria do outro lado?), na China, em uma turnê que tem encantado tanto as plateias daqui, como aos nossos músicos. Uma experiência para lá de enriquecedora.

Essa não é apenas mais uma turnê. Para nós tem um significado mais profundo. Há oito anos, quando iniciamos a fase atual da Osesp, com a regente Marin Alsop à frente do grupo, nossa vontade era projetar a orquestra para muito além de nossas fronteiras. A Osesp e a Sala São Paulo são grandes conquistas para a nossa cultura, não somente para os paulistas, mas também para os brasileiros. Nossa intenção era que esse avanço artístico fosse igualmente visto e apreciado pelo mundo todo. Ao longo desses anos, estivemos nas melhores salas europeias e nos mais prestigiosos festivais de música clássica internacionais.

Agora avançamos um pouco mais, dando um passo na direção do mercado asiático. Na esteira de seu impressionante crescimento econômico, a China tem se notabilizado nos últimos anos por um forte desenvolvimento na música clássica. Os números são superlativos. Todas as cidades de porte têm salas de concerto de altíssimo nível, com projetos arquitetônicos únicos e acústicas exemplares – como o National Performing Arts Centre de Pequim, onde a Osesp se apresentou com enorme êxito e a casa totalmente ocupada. Há milhões de estudantes de música, e as escolas de piano e de cordas são exemplares. Não há dúvida de que, em poucos anos, as orquestras chinesas estarão entre as melhores do mundo.

Somente por meio do intercâmbio cultural os povos podem ter maior compreensão das diferenças e das similitudes uns dos outros, possibilitando uma convivência mais harmônica

Além do ensino, há uma curiosidade genuína dos chineses sobre as instituições estrangeiras. Por onde passamos, pôde-se observar um verdadeiro desfile de orquestras internacionais de primeiro nível. Das austríacas e germânicas, passando pelas inglesas, até as norte-americanas, as melhores do mundo estão regularmente excursionando pela China.

Nos dá uma enorme satisfação a oportunidade de sermos a primeira orquestra profissional sul-americana a fazer esse circuito. Mais significativa ainda é a chance de mostrarmos a música brasileira e das Américas para essas plateias. Não basta que haja comércio crescente entre os países, é necessário que haja entendimento de questões mais profundas. Somente por meio do intercâmbio cultural os povos podem ter maior compreensão das diferenças e das similitudes uns dos outros, possibilitando uma convivência mais harmônica. Esse papel não cabe ao mercado, mas às instituições culturais. Acreditamos que é essa troca de experiências que permite aproximar as pessoas e ajudar na construção de novas sociedades, mais tolerantes. Apresentar Villa-Lobos e Camargo Guarnieri aos chineses é mais do que ampliar nosso mercado: é aproximar os dois lados geograficamente opostos do globo por meio de manifestações artísticas próprias do espírito humano.

Nesse sentido, é um privilégio, por exemplo, abrirmos o Festival de Artes de Hong Kong. Aqui se percebe o desejo de troca e abertura para novas experiências. Fizemos um ensaio aberto em que se uniram os músicos da Osesp e estudantes de ensino médio chineses, praticantes de música orquestral. Foi impressionante a vibração de ambos os lados: músicos profissionais revigorados pela energia dos jovens talentos chineses e esses, por sua vez, admirados pelo carinho e pela generosidade de músicos experientes. Esse tipo de laboratório, que pode e deve acontecer sempre e em todos os lugares, tem o condão de promover uma nova sociedade – integrada e mais porosa –, que desejamos para as futuras gerações. A arte, colocada em prática em momentos como esse, tem muito mais efetividade do que páginas infindáveis de tratados internacionais.

Ao completarmos esse ciclo de oito anos, Marin passará a ser regente de honra da Osesp, entregando ao público paulista e brasileiro uma instituição mais sólida e sustentável, como projetado e esperado. Sobretudo, compartilhando temporadas memoráveis na Sala São Paulo, gravações de obras completas, ciclos de compositores brasileiros e internacionais, e retomando a proximidade dos nossos músicos com projetos de formação profissional, tanto no Festival de Inverno de Campos do Jordão, quanto na Academia de Música da Osesp. Isso sem falar nas centenas de concertos gratuitos, para a formação de plateias. Nosso sentimento é de que os resultados recompensaram todos os esforços. Buscando a qualidade musical, e inspirados por ela, a Osesp manteve seu rumo, superando as crises econômicas e elevando a participação da sociedade no apoio aos seus projetos.

Uma questão adicional que se coloca nesse cenário é a formação de líderes no campo da música clássica. Maestros, além da competência musical, são os naturais porta-vozes das orquestras e das instituições musicais perante a sociedade. O regente deve ter legitimidade para conduzir a orquestra na sublime “arte metafísica de recriação” – nos dizeres do saudoso Eleazar de Carvalho –, mas também para criar uma visão de futuro da música clássica. O trabalho de Marin é intenso nesse aspecto, tanto no Brasil como internacionalmente. Aqui em Hong Kong, nosso ensaio aberto incluiu uma sessão de coaching de regentes. Fomos testemunhas do impacto que a melhoria na qualidade da liderança provoca no resultado final dos músicos. Pensando nessa necessidade, a Academia de Música da Osesp passou a incorporar uma classe de regência que, sob a supervisão de Marin Alsop, é uma avenida pela qual passarão as novas gerações de regentes no Brasil. Treinamento intensivo, musical e intelectual, é o objetivo desse projeto. 

Com todas essas conquistas, demos mais um passo determinante na construção institucional que deu origem à Fundação Osesp. Hoje, a afinação entre nossas áreas artísticas e de gestão são os ativos que nos garantem buscar novos patamares. Queremos que a sociedade se aproprie de forma definitiva dessas conquistas, e que a Osesp e a Sala São Paulo (que em 2019 comemora 20 anos) sejam cada dia mais parte da vida de cada um dos seus espectadores: sua casa e seu remanso. Um lugar de ampla fruição cultural e participação dos cidadãos, local e global, como sempre pensamos que devam ser as manifestações artísticas.

 

Marin Alsop é diretora musical da Osesp e da Orquestra Sinfônica de Baltimore. Diretora do programa de regência orquestral do Peabody Conservatory.

Marcelo Lopes é diretor executivo da Fundação Osesp. Músico, advogado e economista. Especialista em administração pública e mestre em direito pela Fundação Getúlio Vargas.

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