Foto: Finbarr O'Reilly/Reuters

O paradoxo das nossas catástrofes


Em 2018, o ginecologista Denis Mukwege recebeu o Nobel da Paz por sua luta contra o uso da violência de gênero como arma de guerra. A partir de uma fala do médico, este ensaio analisa essa questão e os conflitos no Congo

Que um mundo sem violência sexual e machista, sem discriminação racial e religiosa, está ao nosso alcance, eu já sabia, acreditava e luto nessa batalha. Mas agora entendi por que só uma sociedade justa pode trazer o real sentido para a nossa existência. E foi depois de ouvir um médico congolês que decidiu dedicar sua vida a isso.

“A violência que temos em períodos de conflito é latente em tempos de paz, apenas eclode na guerra. Mas já está lá, nas nossas casas, nas nossas famílias.” Em 15 anos de jornalismo cobrindo violência de gênero, nunca havia feito essa reflexão trazida pelo ginecologista Denis Mukwege, para uma plateia em São Paulo, há alguns dias. Exatamente num momento em que as redes sociais começaram a ser tomadas por imagens da Amazônia pegando fogo, o que tornou inevitável um paralelo entre catástrofes, as ambientais e humanas.

O desafio diário de não naturalizar o machismo — o número de mulheres assassinadas no quinto país mais violento para elas — é ainda maior hoje, diante de comoções instantâneas, amplificadas na internet. Nossas consciências têm sido testadas num nível inédito. Nosso atraso civilizatório passa por isso. A forma como uma sociedade trata suas mulheres, seus privilegiados, fala quase tudo sobre ela.

Em 2018, o Comitê do Nobel da Paz surpreendeu e agraciou duas pessoas que lutam contra o uso da violência como arma de guerra. O Dr. Denis já atendeu mais de 30 mil vítimas de estupros sumários, numa guerra que não está nas nossas manchetes. Estive no Congo em 2010 cobrindo essas atrocidades para um programa de TV e, ouvindo o Dr. Denis falar, pareceu que eu nunca tinha estado lá. Me senti anestesiada de 2010 até aquele exato momento.

Horas antes de embarcar para o Brasil, o ginecologista saía de uma última cirurgia no Hospital Panzi, onde atende mais de dez pacientes todos os dias. As mulheres continuam sendo violentadas coletivamente, na frente dos filhos, dos maridos, de comunidades torturadas, que perdem suas identidades.

É a coisificação da mulher, num nível que ultrapassa o entendimento. Sensação parecida tenho ao noticiar, recorrentemente, homens no Brasil,  onde a covardia é (ainda) muito tolerada, assassinando suas ex-companheiras com tiros, facadas, pauladas, ácido. Esses assassinatos de mulheres que teimam em viver, em ser, aqui também acontecem na frente de filhos que se tornam órfãos diante dos próprios olhos. Não tratamos a violência de gênero com a profundidade exigida. Não nos escandalizamos. Não queremos entender. Porque isso mexe fundo.   

Na época da premiação do Nobel, em 2018, o mundo passou a conhecer um pouco mais dos horrores em andamento nessa ex-colônia francesa conflagrada pela disputa por minérios (de sangue, como são chamados) caros à indústria de eletroeletrônicos e que equipam nossos smartphones. “A responsabilidade é comum porque são conflitos gerados por questões econômicas”, argumentou o médico congolês. E provocou: “vamos repensar nosso consumo, que vitimiza populações? Queremos celulares modernos, e isso tem consequências graves. Não podemos deixar de usar esses aparelhos, mas podemos atenuar”. 

Quando noticiamos os barcos com imigrantes, à deriva, esperando a humanidade de um líder europeu, nos perguntamos do que fogem? E quem causou a dor que os leva para longe de casa?  No caso do Congo e de outros países africanos, a resposta passa por esses mesmos conflitos.

Será que (ainda) compartilhamos da mesma humanidade? Buscamos entender por que, às vezes, nada parece fazer sentido? Vamos falar de masculinidade positiva, e não aceitar mimimi como resposta?

Mais de 6 milhões de pessoas já morreram em conflitos no Congo, desde o início dos anos 1990, com o envolvimento de mais de uma centena de grupos armados. O Dr. Denis se ressente do que chama de negacionismo por parte da comunidade internacional. E eu me pergunto: que mulheres importam, afinal? Quais manchetes nos tocam de verdade? Que post nos envolve, ou apenas alivia nossas consciências, a nossa cobrança por ser participativo e relevante? 

Só mais recentemente, em 2017, o Parlamento Europeu aprovou uma nova regulamentação que visa enquadrar melhor a importação de alguns minérios indispensáveis na indústria, como forma de não contribuir para o financiamento dos conflitos armados em países africanos. Só começa a valer em 2021, depois de três anos de negociação e sob grande pressão dos lobbies industriais. Mas ainda há relatórios engavetados pela ONU que mostram quem são os responsáveis. Nada é divulgado ou cobrado. Nos importamos com essa manchete? 

“Paz, justiça, igualdade de gênero são as palavras-chave para um mundo sem violência. É hora de ouvir as mulheres, integrá-las, em nome da humanidade comum. É hora de repensar esse modelo de patriarcado, o único caminho é a educação e a masculinidade positiva.”

O encontro com o Dr. Denis, num teatro da capital paulista, acabou sendo uma terapia coletiva sobre nossa busca por propósito, caminhos para tornar o mundo um lugar mais justo. E gerou uma catarse coletiva e silenciosa diante do medo da desumanização. Ao final de duas horas, abraçamos alguns atalhos propostos por ele: “cada vez que você chegar ao seu trabalho, se pergunte o que pode fazer de bom para uma pessoa. Isso muda tudo, completamente. Um sorriso. A vida só faz sentido quando a gente vive pelos outros.” 

O Dr. Denis Mukwege tem 61 anos e, em 2013, decidiu morar dentro do hospital, com a esposa e longe dos filhos, para estar mais perto das mulheres que ajuda a renascer. “Acordando ali, perto delas, me fortaleço, reafirmo o sentindo da minha vida.”  Mas também é uma forma de se proteger — ele sobreviveu a seis atentados — e continuar denunciando a negligência por parte da comunidade internacional.

“Faço um apelo aos homens, aos rapazes do Brasil, da América do Sul,  da América do Norte, da Ásia, da África e de outros lugares: em nome de nosso papel social, em nome da nossa responsabilidade, devemos nos tornar aliados fundamentais para a igualdade dos sexos, valorizando nossas contribuições como cidadãos responsáveis, respeitosos dos direitos humanos, das mulheres, das meninas, e ativos na consolidação da paz e da segurança em nossas comunidades.”

E eu deixo aqui a minha conclusão compartilhada com ele: nossa arma contra a banalização do mal é o amor. Mas são tantas perguntas que angustiam…

Será que (ainda) compartilhamos da mesma humanidade? Buscamos entender por que, às vezes, nada parece fazer sentido? Vamos falar de masculinidade positiva, e não aceitar mimimi como resposta? Vamos em busca de manchetes que tratem dos incêndios humanitários e que estão acontecendo diariamente no Brasil, no Congo, em tantas partes do mundo? 

Aline Midlej é jornalista, apresentadora da Globo News em São Paulo.

 

 

 

 

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