Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O inimigo número um do chanceler brasileiro Ernesto Araújo


As escolhas do novo chefe das Relações Exteriores soam como gritos de um porvir que seria cômico se não fosse trágico para o que somos e queremos ser

O maior inimigo do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo não é o globalismo que destruiria comunidades nacionais e tiraria Deus da história proibindo “a independência do pensamento e a substância das ideias", tal como o chanceler definiu recentemente. Tampouco é o marxismo cultural, termo que, dada sua imprecisão, nada quer dizer num debate acadêmico e político sério. Nas entrelinhas de seus controversos pronunciamentos, um adversário emerge mais claramente: a identidade nacional brasileira e suas diversas variações desde os anos 1930, quando nosso Estado foi finalmente consolidado sob a égide varguista e corporativista, enfatizando a herança não europeia, sobretudo africana, sem, porém, combater as desigualdades raciais.

Há nos estudos de relações internacionais um debate mal resolvido entre identidade nacional e identidade internacional de um país. Desde então, com variações relativamente irrelevantes, considera-se haver, sim, uma ligação entre a composição étnico-religiosa histórica de um país e sua identidade na sociedade internacional. Sob essa lógica, o Brasil — de maioria cristã declarada, mas efetivamente sincrético e não branco na acepção do Atlântico Norte — não seria um país ocidental stricto sensu. Não seria, portanto, um membro do núcleo duro da sociedade internacional formada a partir da expansão europeia logo após o fim da Idade Média. Daí a busca por alianças com países do Sul que precede mesmo os anos do governo Lula (2003-2010).

Independentemente de como nos veem, no entanto, o Brasil ocidental (seja lá o que isso signifique) pretendido pelo bolsonarismo não tem lastro histórico mesmo na política externa. Ademais, com a separação entre Igreja e Estado sob a República, Deus sempre ficou nas entrelinhas das políticas públicas e, salutarmente, passou longe da política externa salvo omissão grave dos historiadores que se debruçaram com afinco sobre os arquivos da casa de Rio Branco.

Contra a linha histórica que ele diz ser definida por Deus, Araújo — assim como as alas mais conservadoras do governo — ambiciona o retorno a uma identidade nacional pré-freyreana, ou seja, antes das ideias que ficaram associadas a Gilberto Freyre. Em suma, o ideal de sincretismo encarnado na malfadada expressão “democracia racial”. Não à toa o ministro citou em seu discurso de posse o romancista José de Alencar, cujas obras claramente buscavam no indígena harmonizado com o colonizador as raízes de nossa nacionalidade, sem considerar o legado africano.

Fazer no discurso de posse apenas uma breve referência à África, citando vagamente que “nossos irmãos do outro lado do Atlântico” estão construindo um continente “pujante e livre”, e não detalhar parte de nossa herança que provém daquele continente é ignorar, na prática, os elementos de negritude que são parte intrínseca do Brasil. Com isso, não é exagero dizer que Araújo relegou a segundo plano em sua concepção de nacionalidade aqueles que, forçados, construíram nossa riqueza e, portanto, a nação que o presidente prometeu defender até com o próprio sangue. Isso é por acaso reconectar-se com os anseios do povo, como o ministro afirmou fazer?

Araújo quer um país que represente o eleitorado que, contrariando a máxima “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, confunde a fé privada com a política pública, querendo impor suas vontades aos demais

Interessantemente, Araújo não citou entre suas recomendações de leitura Castro Alves—o poeta dos escravizados. Tampouco se lembrou de nosso escritor maior, Machado de Assis, ou mesmo dos modernistas que desbravaram a poesia escondida no Brasil profundo, notadamente Guimarães Rosa. Por que recitar Ave Maria em tupi, mas não em iorubá? Por que citar Raul Seixas e Renato Russo, dois transgressores já mortos, e ignorar tropicalistas que — goste-se ou não — encarnam nossa cultura, como Caetano Veloso e Gilberto Gil?

As escolhas de Araújo, uma vez escrutinadas, soam como gritos de um porvir que seria cômico se não fosse trágico para o que somos e queremos ser.

Quer ele o meu Brasil, um Brasil das famílias mestiças cujos irmãos têm cores e fenótipos diferentes? Não. Araújo parece preferir o Brasil quatrocentão dos sobrenomes ibéricos longos e pomposos que, até duas décadas atrás, praticamente detinham o monopólio da carreira diplomática. Um Brasil talvez predominantemente branco, sequer mouro, tal como parte daqueles que, para o bem ou o mal, nos formaram mas também nunca foram parte integral do Ocidente (Araújo nunca deve ter passado pela porta de uma universidade de ponta do mundo anglo-saxão, onde história ibérica é tradicionalmente estudada à parte de história europeia!).

Quer ele o Brasil de meus filhos, formado por imigrantes além dos portugueses, incluindo aqueles que aqui encontraram acolhida da fome e miséria do fim do século 19 no Mediterrâneo? Não, Araújo quer um Brasil para os brasileiros esquecendo-se que nossa essência é ser uma síntese do mundo, na melhor tradição antropofágica do modernista Oswald de Andrade — para não citar o Macunaíma de outro Andrade, o Mário (talvez fosse ele marxista/petista avant-garde ao criar o herói sem caráter!).

Quer ele o Brasil dos eleitores que se opuseram a Bolsonaro? Não, Araújo quer um país que represente o eleitorado que, contrariando a máxima “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, confunde a fé privada com a política pública, querendo impor suas vontades aos demais. Nesses tempos estranhos, é necessário dizer que, quando isso ocorre, não há democracia e tampouco uma política externa de fato voltada às necessidades de desenvolvimento da população. Desenvolvimento, aliás, “esquecido” pelo presidente e seu chanceler nos discursos de posse!

Lamentavelmente, nenhum dos Brasis que citei acima entra na equação de Araújo. Afinal, o ministro afirma sem pudores que “Bolsonaro não foi eleito apenas para aceitar o Brasil tal como o encontrou e deixá-lo como está”. Se não nos aceitamos como somos, tornamo-nos caricaturas não de um suposto globalismo, mas de um nacionalismo sem lastro histórico.

A manter este estado de coisas, resta terminar citando “Navio Negreiro”, de Castro Alves: “Andrada! Arranca esse pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta dos teus mares!”. É o que o mundo nos reserva a julgar tamanha ideologização da política externa e da nossa identidade nacional.

 

Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em relações internacionais pela Universidade Oxford, mestre em estudos latinos-americanos pela Universidade da Califórnia em Berkeley e professor visitante no Instituto de Relações Internacionais da USP.

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