Foto: Agência Brasil

O eleitor antipetista e as igrejas evangélicas pentecostais


Análise das preferências eleitorais de grupos religiosos em votações recentes no Brasil indicam possíveis explicações para rejeição ao PT

Parte da sociedade brasileira assistiu atônita ao crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro durantes as eleições de 2018. Tido por muitos como opção inviável devido a suas posições políticas extremas, o candidato sagrou-se vencedor com 46% dos votos válidos no segundo turno. Para alguns, esse resultado seria explicado pelo fato de existir um eleitor identificado com a visão de mundo do candidato eleito, mais do que com suas propostas de governo. O bolsonarista seria uma espécie de antítese do eleitor lulista.

O eleitor antipetista (ou antilulista) parece ser um fenômeno mais tangível. Evidência nesse sentido é a correlação positiva entre a votação de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e a votação dos candidatos do PSDB nas eleições presidenciais entre 2006 e 2014. Em português bom e claro, os eleitores do PSDB no passado, aqueles que votaram contra os candidatos do PT entre 2006 e 2014, tenderam a votar no então candidato do PSL em 2018. Quem é esse eleitor que sempre vota contra o PT nas eleições presidenciais independentemente do candidato que está do outro lado?

Correlação entre a votação do PSDB (2002-2014) e do PSL (2018) nas eleições presidenciais
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral

Enquanto categoria individual, esse eleitor é dificilmente identificável. Mas exercícios com dados agregados costumam enfatizar a maior rejeição aos candidatos petistas entre os grupos com maior renda e escolaridade. A variável religião tende a ser menos lembrada pelos especialistas, embora também seja um importante preditor do voto em sociedades com baixos níveis de secularismo, como é o caso do Brasil. A religião – ou, mais precisamente, suas variações – afeta o modo como os indivíduos fazem escolhas eleitorais.

Por exemplo, os evangélicos pentecostais (de denominações como Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Evangelho Quadrangular), em sua maioria de baixa renda e concentrados em áreas pobres urbanas, representam parte importante da porção do eleitorado que tende a não votar no PT nas eleições presidenciais, a mesma que ajudou a eleger Jair Bolsonaro em 2018. Na outra ponta, os católicos se destacam pelo consistente apoio aos candidatos petistas. Entre os dois grupos, estão situados os evangélicos tradicionais (das igrejas Luterana, Presbiteriana, Metodista, Batista), menos consistentes em suas posições, embora aparentemente menos inclinados ao antipetismo.

É possível dimensionar o nível de rejeição eleitoral ao PT em cada um desses grupos religiosos combinando dados de filiação religiosa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com os dados eleitorais do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Podemos estimar qual a relação entre a proporção de indivíduos filiados a cada uma das religiões mencionadas acima e a votação recebida pelos candidatos do PT, mantidos outros fatores de nível municipal (como taxa de analfabetismo, pobreza e desigualdade) constantes.

Em 2018, por exemplo, o incremento de um ponto percentual no número de evangélicos pentecostais significou, em média, uma redução de cerca de meio ponto percentual nos votos do PT em cada município brasileiro. Resultados similares foram observados em todas as eleições entre 2006 e 2014, o que sugere um padrão consistente de rejeição ao PT nos municípios com maior presença pentecostal. Na outra direção, o crescimento do eleitorado católico esteve associado a mais votos para o PT nas eleições presidenciais de 2006, 2010, 2014 e 2018. As estimativas para o grupo dos evangélicos tradicionais são menos conclusivas, mas, de modo geral, a rejeição eleitoral ao PT não acompanha o crescimento desse segmento evangélico nos municípios brasileiros.

Voto no PT nas eleições presidenciais por filiação religiosa - nível municipal (2006-2018)
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e Tribunal Superior Eleitoral

Uma possível crítica a esses resultados é que as estimativas podem ser afetadas por aquilo que os cientistas sociais costumam chamar de falácia ecológica. Como os resultados são agregados por município, não é possível ter certeza de se a rejeição eleitoral ao PT é explicada pelo comportamento eleitoral dos evangélicos pentecostais. Nesse caso, dados de nível individual são mais confiáveis e permitem calcular a probabilidade de um indivíduo votar no PT de acordo com sua religião. Tais estimativas podem ser obtidas com maior precisão quando outras características de nível individual são consideradas (como idade, sexo, renda, escolaridade, raça e região).

Nas eleições de 2006, a probabilidade de um indivíduo evangélico votar no PT foi 32% menor na comparação com outros grupos religiosos. Entre 2010 e 2018, quando é possível desagregar os resultados por segmento evangélico, temos um quadro mais detalhado que sugere que a rejeição ao PT tende a ser puxada pelos evangélicos pentecostais. Em geral, existe uma associação positiva entre ser evangélico tradicional e o voto no PT, embora esse resultado não seja consistente ao longo das eleições analisadas. Em contraposição, o evangélico pentecostal é o eleitor com a menor probabilidade de apoiar o PT nas urnas. Mantidos outros fatores constantes, a probabilidade de um indivíduo desse grupo votar no PT foi 16% menor em 2010 e 33% menor em 2014. Padrão similar pode ser observado nas eleições de 2018, confirmando a maior aversão dos pentecostais ao petismo.

Voto no PT nas eleições presidenciais por filiação religiosa - nível individual (2006-2018)
Fonte: Latin American Public Opinion Project, Estudo Eleitoral Brasileiro e Datafolha

Os católicos são a maior fonte de votos para os candidatos petistas. Mantidas outras características individuais constantes, a probabilidade de um católico votar no PT foi 43% maior em 2006, 17% em 2010, 38% em 2014 e 41% em 2018. Alguém poderia argumentar que esse é um efeito territorial, dado que a concentração de católicos no Nordeste é acima da média do resto do país, a mesma região onde o PT congrega parte importante do seu apoio eleitoral. No entanto, esses resultados se mantêm mesmo quando controlados por região ou quando estimados com uma amostra sem os eleitores nordestinos.

É provável que o PT seja punido pelos eleitores pentecostais por defender (ou por não se opor a) uma agenda de costumes mais flexível, como a descriminalização das drogas e do aborto e a extensão do direito de matrimônio para casais homoafetivos. No segundo turno das eleições de 2018, Silas Malafaia, pastor presidente da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo e a liderança pentecostal mais midiática do Brasil, postou em suas redes sociais: “HOJE! EM NOME DE JESUS! A verdade vai prevalecer contra a mentira, cinismo, corrupção, destruição dos valores morais, sexualizar crianças, liberação de drogas e outros tantos lixos morais. O BRASIL É DO SENHOR JESUS!”. De fato, as evidências indicam que a opinião do líder pentecostal não é um caso isolado entre os eleitores desse grupo. A probabilidade de um indivíduo pentecostal gostar de petistas e simpatizantes do PT é 21% menor na comparação com outras religiões.

Nível de simpatia pelo petismo por filiação religiosa (2017)
Fonte: Latino Barômetro

Uma explicação alternativa para o antipetismo observado entre os pentecostais é que os esquemas de corrupção como o do Mensalão e o que foi revelado pela Lava Jato ajudaram a sedimentar um sentimento de rejeição ao partido em virtude do maior conservadorismo moral desse grupo. Se a variável “corrupção” explica o antipetismo dos pentecostais nas eleições presidenciais, não deveríamos observar rejeição ao PT em 2002, as eleições que antecederam a chegada do PT à presidência da República. No entanto, os resultados das eleições de 2002 indicam que a rejeição do eleitorado pentecostal aos candidatos do PT antecedeu, sim, os escândalos associados aos governos petistas entre 2003 e 2016.

Voto no PT nas eleições presidenciais por filiação religiosa - eleição placebo (2002)
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e Tribunal Superior Eleitoral

Obviamente, o antipetismo é um fenômeno social mais complexo, que aglutina diferentes grupos sociais. Mas podemos nos perguntar por que indivíduos de baixa renda optam por propostas eleitorais menos inclusivas em um país de elevada desigualdade de renda. A análise do voto do eleitorado pentecostal nos ajuda a responder, ainda que parcialmente, a essa pergunta. A presunção de que pobres deveriam votar por redistribuição ignora os possíveis efeitos da religião sobre as preferências individuais. No caso brasileiro, o pentecostalismo reduz a pressão eleitoral por redistribuição ao fomentar a rejeição aos partidos e candidatos de esquerda entre os eleitores de baixa renda.

Victor Araújo é mestre e doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo e bacharel em ciências sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais. Foi pesquisador visitante no Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada e na Duke University. Atualmente, é pesquisador na University of Zurich na área de economia política e desenvolvimento

Colaborou Lucas Gomes

Nota do gráfico 1: elaborado pelo autor a partir dos dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A unidade de análise é o município (N = 5,565) e a proporção de votos válidos de cada partido (PSDB e PSL) é calculada com base nos dados do segundo turno de cada eleição presidencial.

Nota do gráfico 2: elaborado pelo autor a partir dos dados do Estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do TSE. A unidade de análise é o município (N = 5,565). Os modelos de mínimos quadrados ordinários foram ajustados com erros clusterizados no nível do município. As seguintes covariáveis foram utilizadas: taxa de analfabetismo, taxa de pobreza, renda per capita, índice de desigualdade medido pelo coeficiente de Gini, IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), proporção de beneficiários do Bolsa Família e uma variável que informa a região de cada município.

Nota do gráfico 3: elaborado pelo autor a partir dos dados do Lapop (Latin American Public Opinion Project, 2008, N = 1,497), Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro, 2014, N = 3,049) e Datafolha (2018, N = 3,077). A unidade de análise é o indivíduo. Os modelos de regressão logística foram ajustados com erros padrões robustos, utilizando os seguintes controles: idade, sexo, renda, escolaridade, raça, status ocupacional, percepção da economia, preferência partidária, região, frequência à igreja (com a exceção do modelo para a eleição de 2018 quando esta variável não estava disponível) e uma variável que indica se o indivíduo é um beneficiário do Programa Bolsa Família (com a exceção do modelo para a eleição de 2018 quando esta variável não estava disponível).

Nota do gráfico 4: elaborado pelo autor a partir dos dados do Latino Barômetro (2017). A unidade de análise é o indivíduo (N = 1,532). A seguinte pergunta foi utilizada para mensurar a simpatia ao petismo: "Falando de alguns grupos de pessoas, poderia informar o quanto gosta ou desgosta de Petistas e Simpatizantes do PT?" Agora usamos uma escala de 1 a 10, na qual 1 significa “desgosto muito” e 10 significa “gosto muito”. As categorias de referência utilizadas são 9 e 10. O modelo de regressão logística foi ajustado com erros padrões robustos, utilizando os seguintes controles: idade, sexo, cor, renda, escolaridade, região e nível de religiosidade dos indivíduos.

Nota do gráfico 5: elaborado pelo autor a partir dos dados do Estudo do IBGE e do TSE. A unidade de análise é o município (N = 5,565). Os modelos de mínimos quadrados ordinários foram ajustados com erros clusterizados no nível do município. As seguintes covariáveis foram utilizadas: taxa de analfabetismo, taxa de pobreza, renda per capita, índice de desigualdade medido pelo coeficiente de Gini, IDHM e uma variável que indica a região de cada município.

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