Foto: Mohamed Al-Sayaghi/Reuters

O caos no Iêmen, visto por um assistente humanitário em campo


Os ataques por céu e terra dificultam ação na saúde, em um país que vive sangrenta guerra ignorada por muitos

Alguns dias, quando me preparo para trabalhar aqui em Sana'a, capital do Iêmen, ouço o som dos jatos de combate da coalizão militar liderada pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos sobrevoando a cidade. Enquanto preparo meu café e planejo minha jornada de trabalho, os pilotos estão ocupados com sua própria rotina matinal: cortar o céu acima da minha cabeça e, muitas vezes, soltar as bombas que sacodem o chão sob meus pés.

Desde a escalada do atual conflito em 2015, as instalações de MSF (Médicos Sem Fronteiras) foram atingidas por ataques aéreos várias vezes, com consequências fatais e devastadoras para pacientes, funcionários e comunidades que dependem dos serviços de saúde. A equipe de MSF chegou a ser detida e baleada. Um dispositivo explosivo foi plantado em um de nossos hospitais, e, talvez no ataque mais notório, homens armados entraram em um hospital apoiado por MSF e atiraram em um paciente enquanto ele estava deitado na mesa de operações. Milagrosamente, ele sobreviveu.

Recentemente, tomamos a difícil decisão de fechar um dos nossos projetos na província de Ad Dhale, no sul do Iêmen. A decisão foi tomada depois de uma série de questões de segurança, que culminaram com um ataque direcionado à nossa equipe e outro subsequente ao hospital que apoiamos, vários dias depois.

Longe de serem casos isolados, esses episódios são simplesmente mais exemplos do que enfrentam as populações mais vulneráveis ​​do Iêmen, a quem é negada uma ajuda que salva vidas.

As necessidades médicas em todo o Iêmen

MSF aumentou significativamente o trabalho no Iêmen na escalada do conflito. Até hoje, tratamos cerca de 110 mil pacientes de cólera, fizemos cerca de 60 mil partos e prestamos assistência médica de emergência a mais de 800 mil pacientes. Temos respondido às necessidades da população da melhor maneira possível, mas a lacuna de ajuda médica-humanitária que existe no Iêmen é enorme - mesmo em comparação com outros conflitos aos quais respondemos.

Trabalhando em todo o país - e nos dois lados do conflito - as preocupações médicas que vemos são um resultado direto ou uma consequência desse confronto brutal e negligenciado.

Desde o início dos combates, o sistema de saúde pública no Iêmen entrou em colapso. As instalações médicas públicas têm uma oferta extremamente limitada de medicamentos e os salários da maioria dos profissionais de saúde não são pagos desde agosto de 2016. É difícil compreender a dimensão da crise, mas imagine que o sistema público de saúde não consegue fazer os pagamentos por quase três anos. Dá para imaginar o estado atual da saúde no Iêmen. E este é apenas um dos serviços essenciais, dos quais a população depende para sobreviver, mas que vem sendo arruinado pelo conflito.

Essa deterioração está tendo um impacto devastador na saúde dos 27 milhões de habitantes do Iêmen e é resultado do conflito, do embargo, dos ataques contra instalações médicas e de uma economia empurrada para o precipício - tanto por forças internas como externas.

Como resultado, as consequências do conflito que temos testemunhado em nossos hospitais não são comuns, ainda que sejam relativamente previsíveis numa situação como essa. Estamos observando a volta de doenças mortais que poderiam ser evitadas com vacinas (cólera, sarampo e difteria), uma lacuna monumental nos cuidados maternos e pediátricos, fome aguda e uma necessidade urgente de ampliar a capacidade de atendimentos a pacientes feridos de guerra.

Isso sem considerar a falta de capacidade para tratar adequadamente as doenças crônicas e não transmissíveis, tais como câncer, diabetes e deficiências dos rins, que necessitam de diálise, por exemplo. MSF pode apenas monitorar e buscar oferecer o tratamento possível dentro desse contexto, presente em todo o país.

Embora essa realidade possa ser comparada ​​àquelas que testemunhamos em outras zonas de conflito onde atuamos, o impacto desse confronto é agravado pela desconsideração, na prática, do direito internacional humanitário por todas as partes envolvidas no conflito aqui no Iêmen.

A necessidade de um aumento exponencial da ajuda humanitária

É preciso haver um aumento exponencial de cuidados de saúde primários, independentes e de qualidade no Iêmen. Temos insistido por isso nos últimos três anos, mas ainda não testemunhamos o tipo de melhoria necessária.

O que vemos é que os atores humanitários estão enfrentando obstruções no trabalho em todas as partes e em todos os níveis. Organizações que atuam no Iêmen são frequentemente limitadas por obstáculos "administrativos", na avaliação de locais para oferecer ajuda humanitária a muitas pessoas, em diferentes partes do Iêmen. Isso resulta na incapacidade de monitorar e avaliar adequadamente o impacto dos próprios programas em todo o país.

Todos os dias, MSF também enfrenta esses desafios: na importação de medicamentos que salvam vidas, na garantia de vistos de entrada e saída e na segurança necessária para que as equipes médicas humanitárias possam se movimentar internamente. No entanto, apesar dos riscos, estamos fazendo tudo o que podemos para fornecer ajuda.

Outro dilema enfrentado no Iêmen é que as principais partes no conflito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, EUA e Reino Unido, também são os principais doadores de assistência humanitária por meio das Nações Unidas, reunindo cerca de 71% de toda assistência ofertada em 2018. Bombardeando hospitais com uma mão e escrevendo o cheque para reconstruí-los com a outra acaba por distorcer a percepção – e a segurança – de organizações humanitárias independentes no Iêmen como MSF. Os Estados que não são ligados a este conflito devem aumentar ainda mais o seu financiamento humanitário para responder a esta crise.

Alex Dunne é especialista em assuntos humanitários dos Médicos Sem Fronteiras no Iêmen.

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