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Foto: Wikimedia Commons

Neve e sangue: o acirramento da questão indígena na Argentina


Violência e preconceito marcam o passado e o presente da Patagônia, região vista frequentemente como paradisíaca. História sul-americana de massacre de populações originárias permanece viva

Ao jogar “Patagônia” na internet, deparamos com inúmeros anúncios turísticos. O extremo sul americano fascina: um paraíso glacial, “intocado” e pacífico. Basta girar a bússola para a Amazônia para desconfiarmos dessa visão idílica, vide Chico Mendes, Dorothy Stang e Eldorado do Carajás.

Na ponta do Cone Sul, a Patagônia também é palco de duros confrontos sociais, relacionados à questão indígena. Em 2017, a morte do artesão Santiago Maldonado teve na Argentina repercussão comparável à da execução de Marielle Franco por aqui.

Embora não tivesse origem indígena, Maldonado se solidarizava com a causa das populações originárias na Argentina. Ele participava de um ato em apoio a uma ocupação de indígenas mapuche em um latifúndio patagônico, quando desapareceu em meio à repressão ao protesto. Desde então, surgiram fortes suspeitas sobre o envolvimento de agentes federais na morte de Maldonado, cujo corpo foi encontrado em um rio próximo à ocupação.

A morte mobilizou grandes protestos e repercutiu internacionalmente. Contudo, para usar uma metáfora bem patagônica, o caso é apenas a ponta do iceberg das tensões raciais na história argentina, em geral pouco conhecida no Brasil.

Desde a colonização, a Patagônia foi considerada uma região inóspita e sem atrativos econômicos, de modo que permaneceu distanciada da administração central. Após a independência argentina, em 1816, a área seguiu apartada como uma “fronteira interna” no extremo sul.

A situação só mudou nos anos 1870. Com o Exército mais fortalecido, o Estado argentino passou a cobiçar a Patagônia, movido pelo desejo de expansão agropecuária e de contenção de investidas militares indígenas nas proximidades da “fronteira interna”.

Nesse sentido, as sociedades indígenas locais foram vistas como signos de uma suposta “barbárie” que deveria ser combatida para “civilizar” o país. As regiões austrais foram encaradas como desiertos, espaços desprovidos de população e cultura europeias.

Assim, ocorreu a “Conquista do Deserto”, série de ofensivas militares nas décadas de 1870 e 1880 que incorporou a Patagônia e partes dos Pampas para o território argentino. Foram mortos ou capturados mais de 10 mil indígenas pelo Exército, num processo considerado como etnocídio ou genocídio por grande parte dos estudiosos.

A tensão na Patagônia não se resume aos últimos anos. Remonta a pontos extremamente sensíveis na história argentina, com os quais o país se vê novamente às voltas

A violência também teve caráter simbólico. Firmou-se no imaginário uma invisibilização das populações indígenas na Argentina. Também se consolidou a falsa noção de esta ser uma nação totalmente europeizada, percepção para a qual contribuiu a chegada de milhões de imigrantes europeus entre 1880 e 1914.

Em janeiro de 2018, o próprio presidente Mauricio Macri vocalizou essa visão europeizante. Ao defender um acordo comercial com a União Europeia, comentou que “na América do Sul, somos todos descendentes de europeus”. A gafe, feita mesmo após o caso Maldonado, é sintomática da marginalização dos indígenas no país.

Os direitos indígenas só começaram a ser timidamente albergados pelo Estado argentino no primeiro Peronismo (1945-1955). No plano cultural, porém, o racismo persistiu firme, com a denominação pejorativa “cabecitas negras”, dada por antiperonistas a trabalhadores de origem indígena ou africana que apoiavam Perón. Na gíria bonaerense, ainda hoje a expressão “quilombo” é sinônimo de “bagunça” e “confusão”.

Até poucas décadas atrás, a Conquista do Deserto seguia como objeto de celebrações ufanistas, como na Ditadura Militar argentina (1976-1983). Foi justamente na redemocratização que se fortaleceu a crítica à Conquista, associando-se as dezenas de milhares de desaparecidos políticos na ditadura às ações perpetradas contra os indígenas no século 19.

Prevista na Constituição desde 1994, a demarcação de terras indígenas tem sido realizada desde a lei 26.160 de 2006. Muitos indígenas, no entanto, têm criticado a morosidade e as possíveis irregularidades desse processo.

Na esteira do caso Maldonado, foi aprovada em novembro de 2017 a prorrogação do prazo de tal lei, mas esse clima durou pouco. Semanas depois, houve mais uma morte indígena na Patagônia, em decorrência de ação policial: a do mapuche Rafael Nahuel, que participava de uma ocupação em Río Negro.

Em 2018, o acirramento da questão indígena continuou, extrapolando a Argentina. No Chile, a morte do jovem mapuche Camilo Catrillanca, em decorrência de disparo de policiais, em novembro de 2018, reacendeu os conflitos entre a população indígena e o Estado. Catrillanca era de La Araucanía, região chilena reivindicada como parte de um território ancestral e transandino mapuche. Facundo Jones Huala, líder mapuche argentino, havia incendiado um prédio rural nessa província em 2013 e em  setembro de 2018 foi extraditado para o Chile em razão do crime.

Esse cenário tenso tem reavivado o tema do passado indígena na Argentina. Há poucos anos, houve medidas simbólicas de reparação por parte do Estado, como a retirada da figura de Julio Roca (presidente que liderou a Conquista do Deserto) das notas de cem pesos.

Todavia, desde 2017, as visões preconceituosas em relação aos indígenas da Patagônia se avolumaram. Segundo a jornalista Sylvia Colombo, voltou-se a escutar entre a elite portenha expressões como “é preciso pacificar o sul” e “o sul segue habitado pela barbárie”, em termos similares aos do século 19.

O governo argentino tem inclusive caracterizado, de forma controversa, alguns grupos mapuche como “terroristas”. Os mapuche são tradicionalmente estereotipados como “chilenos” que teriam “invadido” a Argentina, por parcela da opinião pública do país.

A tensão na Patagônia, portanto, não se resume aos últimos anos. Remonta a pontos extremamente sensíveis na história argentina, com os quais o país se vê novamente às voltas.

Por isso, antes de relacionar a região ao turístico friozinho de Bariloche, tenha em mente: a Patagônia ferve e não é de hoje.

 

José Bento Camassa é formado em história pela USP e mestrando em história social pela mesma universidade, com pesquisa sobre o relato de viagem do jornalista Roberto Payró para a Patagônia no século 19.

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