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Foto: Eudoxio/Wikipédia

Lugares de memória: Tiradentes e D. Pedro 1° na mesma praça?


Proclamada a República, o local no Rio de Janeiro ganhou seu nome atual, em homenagem ao inconfidente mineiro, e a lembrança do polêmico imperador passou a ter que conviver com a do republicano conjurado

No centro do Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil, milhares de pessoas passam pela Praça Tiradentes, onde há uma grande estátua de dom Pedro 1° montado a cavalo. Oops, como assim? Numa praça chamada Tiradentes, há uma estátua equestre de dom Pedro 1°. Fôssemos um povo mais atento às sutilezas da história, os transeuntes ficariam surpresos. Afinal, o que o neto de quem mandou matar o alferes da Inconfidência que dá o nome à praça está fazendo lá, todo garboso em seu alazão? Se era para colocar uma estátua do intrépido Bragança, “soberano de dois mundos”, por que nomear a praça a partir de Tiradentes?

Bem, o nome da praça se deve a uma certa lenda urbana, cultuada pelos republicanos históricos, de que Tiradentes teria sido enforcado naquele local exato, em 1792, o que se sabe hoje em dia que não é verdade. Antes de receber esse nome, em 1890, já no regime republicano, a praça teve vários nomes: Rossio Grande, Campo de Lampadosa, Praça da Constituição. Aliás, esse nome foi dado em homenagem ao fato de que, em 1821, o então príncipe regente, Pedro de Alcântara, jurou fidelidade à Constituição que estava sendo elaborada em Portugal. Como sabemos, no ano seguinte, o príncipe mandou seus conterrâneos às favas e liderou a separação do Brasil de sua antiga metrópole. Mas, em 1831, depois de brigar com as elites brasileiras representadas no parlamento, foram estas, apoiadas por populares cariocas, que despacharam o imperador para Portugal, acusando-o de déspota. Com efeito, o comportamento de Pedro 1° durante a Assembleia Constituinte, em 1823, ajudou a fixar essa imagem. Apoiado por tropas, o imperador dissolveu a Constituinte e, pouco tempo depois, “outorgou” (ou seja, impôs) uma nova Constituição, mais digna da sua real pessoa. Não pegou nada bem, e, dado o troco, o imperador seguiu para Portugal, deixando seu filho de cinco anos por aqui, o futuro Pedro 2°.

O período que se seguiu foi marcado por uma grande confusão política e social. Liberais que queriam mais autonomia para as províncias (os atuais estados) entraram em choque com os conservadores que defendiam a premência de um poder central sobre os grupos provinciais. A Regência foi assim marcada por conflitos sangrentos em vários locais do Império, sempre pacificados manu militari. O chamado “Golpe da Maioridade” de 1840, apoiado por liberais, mas capitalizado por conservadores, restabeleceu o poder da Coroa e do governo central sobre os grupos provinciais. Quando as duas facções políticas da monarquia brasileira — liberais e conservadores — estavam devidamente acomodadas, um grupo de políticos e artistas ligados à nobreza brasileira resolveu desengavetar uma estátua equestre para homenagear o pai do imperador Pedro 2°. O escultor francês Louis Roche executou o projeto e entregou a estátua, que foi inaugurada em 1862. E não era uma estátua qualquer, mas uma estátua equestre. Na hierarquia da estatuária oficial do século 19, só os grandes heróis nacionais podiam ser imortalizados em cima de um cavalo. Para os heróis menores sobrava, no máximo uma estátua de corpo inteiro, um busto ou um alto-relevo. A cavalo, só para os maiorais! A elite política do Império achava que o fundador da nação merecia a homenagem. Mas a população do Rio de Janeiro não gostou muito da ideia.

Por essas e outras, essa praça é um dos mais interessantes lugares de memória do Brasil dado o paradoxo de colocar, lado a lado, personagens históricos com projetos e ideologias opostas.

Os poucos republicanos, ainda não organizados em movimento, ficaram indignados com a inauguração de uma estátua que homenageava um monarca no lugar sagrado em que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, considerado precursor das lutas republicanas, teria sido enforcado. Os monarquistas da “boa sociedade” tampouco gostaram da estátua, pois para eles o Brasil sobre o qual dom Pedro 1° reinara era muito mais “civilizado” do que sugeriam as alegorias que adornavam o monumento: quatro indígenas sentados sobre alguns animais meio desengonçados (antas, tamanduás, jacarés e tatus). Com as estátuas desses animais, o escultor francês quis simbolizar os quatro grandes rios que integravam o território do império (Madeira, Amazonas, Paraná e São Francisco), porém os críticos acharam que era muita natureza para pouca civilização. Os liberais ficaram mais indignados ainda, pois, como se fosse uma ironia involuntária dos autores do projeto, Manuel Araújo Porto Alegre e João Maximiano Mafra (professores da Academia Imperial de Belas Artes), o augusto imperador de braço erguido, segurava solenemente a Constituição, como se fosse um guardião da liberdade pública.  

No dia da inauguração, entre solenidades e espetáculos cívico-musicais, houve passeatas de protesto e críticas da imprensa ao monumento. Aliás, o debate na imprensa foi bastante acalorado. Até Machado de Assis, na época da inauguração da estátua, publicou uma crônica com um recado ao “historiador do futuro” que, provavelmente, iria “vacilar sobre a expressão de memória que hoje domina a praça do Rossio (...) O que é fato é que a estátua inaugurou-se, o bronze lá se acha no Rossio, como uma pirâmide de uma época civilizada, desafiando a ira dos tempos”.

Em 1890, proclamada a República no Brasil, o lugar ganhou seu nome atual, Praça Tiradentes, e a lembrança do polêmico imperador teve de conviver, para sempre, com a do republicano conjurado. A boemia e a malandragem consagraram o uso daquela praça na vida urbana carioca, indiferentes aos heróis oficiais que lá estavam simbolizados (embora, a se julgar pela crônica, D.Pedro 1° não se sentiria tão mal assim em meio aos malandros...).

Por essas e outras, essa praça é um dos mais interessantes lugares de memória do Brasil dado o paradoxo de colocar, lado a lado, personagens históricos com projetos e ideologias opostas. Lugar de memória, conforme o historiador Pierre Nora, é todo lugar físico e material (uma praça, um prédio, um museu ou um monumento), ato simbólico (uma festa), obra intelectual (um livro, um filme) ou instituição (uma associação de ex-combatentes, por exemplo) que contenha algum aspecto de lembrança ritualizada do passado. Isso mostra que a história, e não apenas a arqueologia, deve ser interpretada a partir das camadas de tempo acumuladas sobre o solo em que pisamos.

Marcos Napolitano é professor titular de História do Brasil Independente e docente-orientador no programa de História Social da USP (Universidade de São Paulo).

 

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