Foto: Reuters

Greta Thunberg, seja bem-vinda ao nosso continente


Neste ensaio, Marina Silva dá as boas-vindas à ativista ambiental sueca de 16 anos que chegou a Nova York hoje, após cruzar o Atlântico em um navio de emissões zero de carbono, para participar de uma cúpula climática da ONU

Bem sugestivo o nome dessa menina: em sueco significa pérola; em português é fresta. Nos dois sentidos, seu nome surge apropriado em meio à crise ambiental global, enfrentando o grave problema das mudanças climáticas provocadas pelo aumento da temperatura média do planeta.

Os “adultos" que dirigem o mundo demoram-se nas medidas para evitar o Armagedom ambiental de consequências terríveis, e o que fizeram até agora é inquestionavelmente insuficiente. A menina Greta é uma pérola, com sua preciosa ética do cuidado, seu compromisso em não permitir que o presente se torne um passado que interditou o futuro, pelo seu compromisso que atravessa as gerações e alcança os que ainda não nasceram, por sua coerência revelada em gestos e atos. Por isso mesmo, é também uma pequena fenda por onde jorra a esperança. Que mesmo as rochas mais compactas da arrogante indiferença com as dores do planeta não sejam imunes a essa fresta.

É isso, Greta é uma fresta por onde a vida pode escapar, não no sentido de fuga, mas de liberdade e fruição. E também como uma falha, um hiato, na lei da preservação das espécies: é aterrador constatar que — talvez pela primeira vez na história da humanidade — os seres humanos adultos tenham quebrado o edito natural que os torna responsáveis por proteger as condições de sucessividade da vida e obrigados a tudo fazer para garanti-la. E que sejam as crianças a assumir e evocar essa responsabilidade!

Como chegamos a essa inversão? É evidente que nos tornamos dependentes e codependentes dos confortos e ganhos civilizatórios que desfrutamos mesmo sabendo que, em função deles, estamos destruindo as condições que asseguram a permanência da vida. Ignoramos o fato de que a vida só subsiste à “constância da morte” por ser sucessiva. Cada vez mais dependentes, temos a ilusão de estarmos “no controle” mas, talvez por isso mesmo, incapacitados para abrir mão dos prazeres e confortos que comprometem a continuidade da vida, sem autonomia para renunciar. É possível que já tenhamos transitado da condição de Homo Faber, aquele que fabrica “ele próprio os utensílios indispensáveis à manutenção da vida”,  para a de Homo Dependente, aquele que na busca ilimitada de ganhos e confortos fabrica as condições que destroem a própria vida.

Sempre, em todos os tempos da história, são os adultos que se lançam à frente de suas crianças para protegê-las das ameaças e perigos. Pela primeira vez, são as crianças que estão se jogando à nossa frente, para se protegerem e nos protegerem de nós mesmos.

Quem sabe a jovem menina Greta não seja também a fresta por onde passa a linda borboleta azul que nos conduz ao compromisso do cuidado com nossa azulada casa

Fui criada na companhia de um tio que me ensinava coisas em que a gente acreditava profundamente. Ele dizia que se a gente se perdesse e visse uma borboleta azul, era só a seguir que ela nos levaria para a clareira mais próxima e de lá acharíamos o caminho de casa. Essa borboleta é linda, enorme, quase do tamanho da mão. Nunca vi um azul igual. Que, aliás, é marrom. Os pesquisadores do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) descobriram que ela tem uma engenharia de disposição das escamas das asas que faz com que, na incidência de luz, se tornem azuis.

Depois entendi por que nos levava para casa. Porque gosta de pousar em frutas como banana e mamão maduros, já bicadas pelo passarinho pipira. Quando sente fome, procura a primeira clareira onde haja um roçado de frutas. E, lá perto, certamente haverá uma casa. São coisas que parecem crendice, mas há conhecimento científico associado, obtido pelo mesmo princípio do método acadêmico: observação sistemática dos fenômenos.

Se abríssemos hoje nossa sensibilidade para os ensinamentos da floresta, que infelizmente arde em em fogo, cinza e fumaça, talvez se tornasse mais fácil redefinir o que entendemos por confortos e ganhos de vida. Quem sabe a jovem menina Greta não seja também a fresta por onde passa a linda borboleta azul que nos conduz ao compromisso do cuidado com nossa azulada casa, onde os frutos de nossas decisões sempre nos aguardam em desejável mesa farta.

Por tudo isso, seja muito bem-vinda ao nosso continente, Greta.

#bemvindaGreta

Greta que denuncia as lacunasNa inviolável lei do cuidado.Greta por onde passa a borboleta azul,Que nos ajuda a refazer o caminho.Greta de doce olharQue atravessa a almaQuando fende as água,Em seu navio aladoPara nos visitarE nos alertar.

Seja bem-vinda,Bem-vinda seja.

Marina Silva, 61 anos, foi candidata à Presidência nas últimas eleições, fundadora da Rede Sustentabilidade, ambientalista, ex-senadora (1995-2011) e ex-ministra do Meio Ambiente (2003-2008).

 

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