Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Como deputados de primeiro mandato podem inovar de fato?


A atuação de parlamentares nos próximos quatro anos determinará quem, de fato, representa a renovação política

Nas eleições gerais de 2018, a bandeira da renovação fez diferença nas urnas. Não à toa, tivemos "renovações" recordes no parlamento federal e em algumas assembleias estaduais. Entretanto, o que vemos, na maioria dos casos, são novas caras para velhas práticas, pois renovação sem inovação política é repetição.

Os novos parlamentares têm uma oportunidade única de inovar, mas para isso é preciso exercitar a imaginação e ousar o vislumbre de um outro jeito de fazer política. Esse movimento pode transformar radicalmente o contexto e criar exemplos a serem seguidos.

Algo semelhante aconteceu bem perto, no México, e se tornou uma referência para quem quer fazer política de maneira diferente. É o caso de Pedro Kumamoto, primeiro deputado distrital independente eleito no país e  que utiliza a proximidade e a coletividade como linguagem. Por meio de ferramentas de transparência, justifica aos eleitores cada um dos seus votos e abre mão de 70% do seu salário para ser distribuído a projetos de formação cidadã. Para completar, seu gabinete é um grande hub de encontro da sociedade civil, "sem muros", que aproxima a política da vida das pessoas. Cumpre assim o seu mote de campanha: "Los Muros Si Caen". No ano passado, pleiteou cargo no Senado, teve quase 600 mil votos, mas não foi eleito.

No Brasil, o questionamento do status quo na política – na estética, na forma e no conteúdo – não é necessariamente inédito, mas é um movimento sem retorno. Em Minas Gerais, Cida Falabella e Áurea Carolina (PSOL-MG), eleitas como vereadoras em 2016, derrubaram paredes e juntaram equipes no mesmo espaço para formar a Gabinetona. Assim, reduziram custos e potencializaram recursos. A exemplo de Kumamoto, destinam 30% da verba do gabinete a iniciativas culturais da cidade. Áurea, eleita deputada federal em 2018, deve agora repetir essas experimentações em Brasília.

Os millennials – e seus ativismos – começam a chegar ao poder com outras referências e um novo imaginário sobre a política institucional

Em 2019, novos mandatos como o da Marina Helou (Rede-SP), Felipe Rigoni (PSB-ES), Vinicius Poit (Novo-SP), Tiago Mitraud (Novo-MG), Bancada Ativista (PSOL-SP) e Tabata Amaral (PDT-SP) abriram processos seletivos para recrutar a equipe do gabinete, convocando a sociedade civil a adentrar a máquina política, para transformar, por dentro, as instituições. E as inovações vão além.

Tabata planeja ter um gabinete itinerante, que visitará os municípios com uma agenda para a pedagogização sobre participação política. E seguindo o modelo da Gabinetona, pretende otimizar verbas parlamentares ao criar um espaço de trabalho conjunto com o também deputado federal Rigoni e o senador Alessandro Vieira (Rede-SE), todos do movimento Acredito, do qual ela é uma das idealizadoras. Criarão também vagas específicas, como de cientista de dados, que atenderá ao gabinete compartilhado. Já o deputado Vinicius Poit planeja transformar o gabinete em coworking, além de estruturar um planejamento estratégico do mandato nos moldes que costumamos ver em processos de inovação do setor privado.

Os millennials – e seus ativismos – começam a chegar ao poder com outras referências e um novo imaginário sobre a política institucional. Carregam também consigo novas ferramentas que permitem maior fluidez na comunicação junto à sociedade. E uma visão que vai além do palanque, das reuniões a portas fechadas e do compadrio político.

Agora, muitos dos representantes potenciais dessa renovação precisam ter um papel de "ponte" entre o jeito antigo de fazer política e a nova cultura que propõem, de maneira transversal à agenda partidária. É um processo de transição e os desafios são enormes.

Nas posições que ocupam, precisam incentivar o diálogo entre pares e consolidar, em frentes, o que não conseguiriam fazer sozinhos em um primeiro mandato. De alguma forma, têm a missão de contaminar o Congresso com outro código de conduta e, literalmente, constranger aqueles contrários à transparência, abertura e participação. São inovações necessárias, ainda mais num cenário político instável como é o atual. São as práticas, aliadas ao conteúdo, que fortalecerão a democracia e determinarão quem se consolidará como renovação política.

Luciana Minami e Beatriz Pedreira são pesquisadoras do Instituto Update, organização que desenvolve inteligência e tecnologia para inovação política na América Latina.

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