Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Como a silvicultura ajuda no combate às mudanças climáticas


As árvores cultivadas são um ativo ambiental e econômico para o Brasil e um caminho sólido para um mundo mais saudável. O país é uma referência global nesse setor, com as plantações mais produtivas do planeta

O desafio das mudanças climáticas foi tema decisivo para duas eleições recentes, na Austrália e na Europa. Na votação para os representantes para o Parlamento Europeu, houve crescimento da bancada verde, com países como a Alemanha onde eles passaram a ser a segunda maior força partidária. Nos Estados Unidos, o pré-candidato à campanha presidencial Joe Biden anunciou uma plataforma que tem o combate climático como um dos focos, prometendo 100% de energia limpa e zero emissões de carbono até 2050. Esse objetivo depende de investimentos de US$ 5 trilhões.

Cada vez mais, fica pactuado em diversos círculos que o mundo precisa tomar medidas drásticas contra as mudanças climáticas. O próprio Brasil já se comprometeu internacionalmente com o Acordo de Paris, Agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas) e Metas de Aichi. Só com o Acordo de Paris, o Brasil deve reduzir emissões dos gases do efeito estufa em 43% frente a 2005; restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares, que podem ser tanto de áreas naturais quanto de áreas cultivadas; incentivar a integração de lavoura, pecuária e florestas em 5 milhões de hectares; zerar o desmatamento ilegal; atingir 45% de energias renováveis na matriz energética, sendo 18% em bioenergia; e expandir o consumo de biocombustíveis.

Mas, como é possível ver pelos valores anunciados pelo norte-americano Joe Biden, e por uma rápida análise dos compromissos brasileiros, esse não é um caminho fácil ou com baixo custo. Segundo estudo da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura com o Instituto Escolhas, só para o Brasil recuperar os 12 milhões de hectares de florestas, tanto naturais quanto cultivadas, serão necessários investimentos entre R$ 31 bilhões e R$ 52 bilhões. E esse é apenas um dos itens do Acordo de Paris.

Em um país como o Brasil, que ainda possui tantos desafios sociais, não é viável deixar esse esforço apenas para o governo. As empresas devem e podem ser fortes aliadas nesse processo, trabalhando com mecanismos públicos que incentivem esses investimentos.

As árvores cultivadas caracterizam-se como um ativo ambiental e econômico para o Brasil e para o mundo e um caminho sólido para o atingimento dessas metas e de um mundo mais saudável. São muitos os benefícios do setor de silvicultura na provisão de serviços ecossistêmicos, como a remoção de carbono e manutenção do clima, habitat para a biodiversidade, regulação do fluxo hídrico, conservação do solo, geração de produtos e energia renovável, entre outros.

Referência global, o Brasil tem as plantações de árvores mais produtivas do mundo. Isto é, considerando o desafio de restaurar e reflorestar, esse segmento é um dos mais aptos a ajudar o Brasil a alcançar esses objetivos.

Com uma receita que representa cerca de 7% do PIB industrial do país, o setor também é um importante gerador de empregos diretos. Em 2018, cresceu quase 1%, para 513 mil empregos, impactando 3,8 milhões de pessoas direta e indiretamente.

Segundo dados da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), entidade responsável pela representação institucional da cadeia produtiva de florestas plantadas, esse segmento cuida de 7,83 milhões de hectares em áreas cultivadas, que respondem por um estoque de 1,7 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente. As árvores cultivadas são matéria-prima para a produção de painéis de madeira, pisos laminados, celulose, papel, carvão vegetal e mais outros 5.000 produtos e subprodutos, que fazem parte do dia a dia. São desde fraldas descartáveis para bebês, papel higiênico e embalagens até novas soluções para substituir produtos de base fóssil.

Referência global, o Brasil tem as plantações de árvores mais produtivas do mundo. Isto é, considerando o desafio de restaurar e reflorestar, esse segmento é um dos mais aptos a ajudar o Brasil a alcançar esses objetivos. Aliás, já contribui com 12 das 20 metas de Aichi sobre biodiversidade e 11 dos 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

Reconhecido por suas práticas de vanguarda na gestão socioambiental, o setor vai além e destina outros 5,6 milhões de hectares para a conservação em APPs (Áreas de Preservação Permanente), de RL (Reserva Legal) e de RPPNs (Reservas Particulares de Patrimônio Natural).

O tema das mudanças climáticas está na essência dessa indústria. Ponta de lança, já percebe o impacto das alterações no clima no crescimento de suas árvores, principalmente o desequilíbrio do regime de chuvas em várias partes do território nacional. Por isso, investe em desenvolvimento de novas mudas mais adaptadas. Além disso, atua ativamente para a construção de uma economia verde, lutando para que o alcance das metas sustentáveis esteja no planejamento estratégico das empresas, do país e dos consumidores.

Paulo Hartung é economista, presidente-executivo da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores) e ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: