Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Como João de Deus tenta nos silenciar e desacreditar


Ao denunciar abusos sexuais que sofri, tornei-me alvo de uma estratégia de 'gaslighting', em que vítimas são intimidadas

Meu nome é Zahira Lieneke Mous, tenho 35 anos e fui a primeira mulher a falar publicamente sobre ser abusada sexualmente por João Teixeira de Faria, conhecido mundialmente como João de Deus. Com a minha exposição pública, eu subitamente me tornei o rosto do movimento #metoo no Brasil. Neste ensaio, gostaria de abordar o “gaslighting”, que é a estratégia que está sendo usada para silenciar as vítimas.

No dia 7 de dezembro de 2018, o talk show da TV Globo Conversa com Bial transmitiu a edição na qual quebrei o silêncio em relação ao abuso sexual que João cometeu. Depois da exibição do programa, o número de mulheres que também o denunciaram rapidamente chegou às centenas. Mas estar na linha de frente traz outro conjunto de desafios. A profusão de testemunhos foi rapidamente seguida por intimidação das vítimas e gaslighting, especificamente dirigido a mim.

Então, o que é o gaslighting? O gaslighting é uma forma de abuso psicológico para favorecer a posição do abusador, distorcendo ou omitindo informações, fazendo com que as vítimas duvidem de sua própria memória, percepção e sanidade. Seus objetivos são intimidar, manipular e silenciar a vítima. O termo é derivado de uma peça teatral de 1938 chamada “Gas Light”, na qual a trama descreve um marido que tenta convencer sua esposa e outros de que ela é louca, manipulando pequenos elementos de seu entorno e, posteriormente, insistindo que ela estava errada ou que se lembra das coisas incorretamente.

A razão pela qual fui a público com a minha história é porque fiquei sabendo que João também havia abusado sexualmente de outras mulheres. Eu me envolvi em ações em prol da justiça social para meninas e mulheres por quase duas décadas. Assim, quando percebi que não fui a única afetada, o fogo em mim para proteger as outras e falar sobre o assunto foi aceso.

No dia seguinte em que João foi preso preventivamente, seu advogado Alberto Toron realizou uma coletiva de imprensa na qual fez falsas alegações sobre minha vida. Eu sou coreógrafa, dançarina, educadora de dança e escritora, e conduzi projetos para trazer cura por meio da dança por muitos anos em diferentes lugares do mundo, inclusive no Brasil. Sou membro do Conselho Internacional de Dança da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e trabalhei com ONGs respeitadas. Eu estava instantaneamente ciente de que a difamação projetada em mim era uma estratégia de intimidação. A difamação é ilegal; portanto, comecei uma ação contra isso. Eu não serei silenciada novamente.

João Teixeira de Faria, seus defensores e muitos de seus seguidores tentaram me fazer parecer uma criminosa e tentaram desacreditar minha história com uma narrativa inventada

O silenciamento das vítimas por meio de gaslighting acontece em vários níveis. Antes de mais nada, o perpetrador manipula suas vítimas — daí o longo silêncio mantido pela maioria. Ele começa fazendo você se sentir especial e única. E no caso de João, ele estava cometendo abusos sob o disfarce de “cura energética” e “alinhamento de chakra”. Enquanto ele me forçava a masturbá-lo, me disse para sentir alegria, sorrir e não me sentir triste. E ele disse a muitas vítimas que não falassem nada do que havia acontecido e, em seguida, dava pedras preciosas como forma de exigir silêncio. João, na minha opinião, é um mestre manipulador e usou sua posição, rede de influências, riqueza e habilidades repetidamente para seu próprio benefício. E em sua entrevista à Veja, João está tentando se fazer parecer uma vítima. É outra forma de manipulação: tentar inverter os papéis. O homem abusou de meninas e mulheres entre 8 e 67 anos nos últimos 45 anos. Ele não é uma vítima. Ele é um abusador.

Em segundo lugar, a intimidação continua por meio das pessoas mais próximas e dos protetores do agressor. Nesse caso, temos como exemplo alguns relatos de vítimas que narraram ter sofrido ameaças por parte dos funcionários da Casa, visando a impedi-las de realizarem as denúncias (inclusive Sandro Teixeira, filho de João). Outro exemplo pode ser verificado a partir das alegações por parte da defesa de João de Deus que são difamatórias (como as feitas por Alberto Toron). Temos ainda o posicionamento de negar o que dizem pessoas que, de acordo com as notícias veiculadas pela mídia, podem estar diretamente relacionadas aos crimes cometidos por João de Deus. É o  caso de sua esposa em relação às armas ilegais que eram mantidas em sua casa. É o caso também da negação constante do abuso sofrido pela própria filha do médium, com o argumento de que ela é “louca e mentiu” sobre o que aconteceu quando ainda era uma menina.

E em terceiro lugar, há seguidores, discípulos ou fãs do agressor que dizem que o seu amado mestre “nunca poderia ter feito algo assim, porque eles mesmos não foram abusados”. Essas pessoas me enviaram mensagens de ódio e ameaças.

O que eu posso perceber agora é que houve um silenciamento sistêmico de mulheres. Durante todos esses anos, pensei que era a única. Mantive o segredo para mim mesma, pois achei que milhares de pessoas estavam recebendo a cura desse homem. João Teixeira de Faria, seus defensores e muitos de seus seguidores tentaram me fazer parecer uma criminosa e tentaram desacreditar minha história com uma narrativa inventada. Por extensão, isso pode ter sido uma tentativa de intimidar outras mulheres e silenciá-las.

Sinto que é importante que eu continue lutando pelo que é certo, para que a justiça seja feita não apenas no caso de João, por ser um perpetrador de abuso sexual (e potenciais outros crimes), mas para erradicar a violência contra mulheres. Chega de silêncio. Chega de violência.

Zahira Lieneke Mous é coreógrafa, produtora cultural, dançarina, educadora e escritora.

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