Foto: Reuters

Bolsonaro em Israel e as incertezas da política externa brasileira


A aproximação com o governo de Benjamin Netanyahu é ponto central da estratégia do presidente, mas as reações são controversas até mesmo entre seus apoiadores

Bolsonaro chega neste domingo (31) para Israel. Na bagagem, sua principal (e mais polêmica) promessa de campanha em política externa: transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Por que a aproximação com Israel tornou-se um dos pontos mais centrais da estratégia de Bolsonaro? E por que esse movimento vem gerando tanta controvérsia?

A primeira razão que explica o fascínio do presidente por Israel é o antipetismo. Há uma narrativa comum de que os governos do PT foram anti-israelenses e pró-palestinos. De fato, houve tensões entre Brasil e Israel no fim do governo Lula (2003-2010) e, sobretudo, ao longo do governo Dilma Rousseff (2011-2016) – ainda que as razões tenham sido menos ideológicas do que se sugere.

Em todo caso, quem não se lembra do porta-voz israelense que chamou o Brasil de “anão diplomático” após uma crítica do governo Dilma à ação militar em Gaza, em 2014? Naquele episódio, Bolsonaro, então deputado federal, chegou a escrever uma carta à embaixada israelense, pedindo desculpas em nome do povo brasileiro. Aproveitou para comparar o terrorismo do Hamas com a atuação das guerrilhas de esquerda durante a ditadura militar.

Desde então, Bolsonaro investiu na construção de um Israel simbólico, associado a valores conservadores e religiosos, em oposição ao que se associava ao petismo. Se, nas manifestações de esquerda, sempre foi comum encontrarem-se bandeiras palestinas, o então deputado fez questão de colocar a bandeira de Israel em todas as suas carreatas, em sua trajetória rumo à presidência.

Parte dessa estratégia também se relaciona com o chamado sionismo cristão. Entre muitos evangélicos, sobretudo os adeptos do neopentecostalismo, há o entendimento de que o reconhecimento de Jerusalém como capital “una e indivisível” de Israel faz parte de uma profecia bíblica, o prenúncio do retorno de Jesus Cristo para salvar a humanidade. Por isso, manter boas relações com Israel é garantir as bênçãos ao Brasil.

Há, ademais, uma razão tangível, que se traduz na questão tecnológica. De técnicas de dessalinização para o semiárido nordestino às tecnologias de defesa e segurança pública, Bolsonaro usou a perspectiva de parceria com Israel para endereçar temas eleitorais importantes e mostrar suas credenciais no campo da cooperação internacional.

Tanto o sionismo cristão como a cooperação tecnológica foram explorados na ida de Bolsonaro e seus filhos a Israel, em maio de 2016. A missão parlamentar centrou-se em reuniões com o governo na área de tecnologia e foi marcada pelo batismo de Bolsonaro no rio Jordão, realizado pelo pastor Everaldo. Não surpreende que uma das primeiras vezes que o capitão manifestou publicamente seu interesse em sair candidato à Presidência tenha sido em Jerusalém.

Por fim, existem razões identitárias, que ficaram mais claras com a consolidação do grupo olavista à frente da política externa. Aproximar-se de Israel significa mimetizar a política externa do presidente americano Donald Trump – o único homem, segundo o chanceler Ernesto Araújo, que pode salvar o Ocidente da degradação moral imposta pelo chamado “globalismo”. No plano transcendental, Israel representa a busca do resgate da civilização judaico-cristã, cujos pilares são Deus, a família e a nação.

O desejo de transferir a embaixada para Jerusalém, contudo, foi recebido de maneira ambígua, mesmo entre apoiadores do presidente. Militares, em particular, preocupam-se com os efeitos políticos gerados pela decisão. Há alguns meses, o vice-presidente, Hamilton Mourão, apontou para os riscos de uma entrada brasileira na rota do terrorismo internacional em função das disputas religiosas em torno da cidade santa.

Existe, igualmente, o incômodo com o abandono de posições históricas da diplomacia brasileira, como a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino, e com a mudança unilateral do status de Jerusalém, contrariando diversos dispositivos das Nações Unidas sobre o tema.

Dentro e fora do país, há muitos interesses contraditórios em jogo. Diante da polêmica da embaixada, o próprio governo estuda a possibilidade da criação de um escritório de representação em Jerusalém

Liberais-econômicos, liderados por Paulo Guedes, e ruralistas, representados pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, estão receosos quanto aos impactos econômicos dessa guinada. Representantes de Palestina, Egito, Catar e Arábia Saudita, além da Liga Árabe e da Organização para a Cooperação Islâmica, já se manifestaram contra a sinalização do presidente. Estão em jogo, sobretudo, as exportações de carne e frango halal, setor em que o Brasil é líder e que gera superávits bilionários para o país.

Ainda que Israel nunca tenha colocado a transferência da embaixada como pré-condição para o estreitamento das relações bilaterais, Bibi, como é conhecido o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, não deixaria passar essa oportunidade. O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel é um ponto central de sua política exterior, o que explica os esforços feitos pelo premiê para convencer países amigos a seguir os passos de Donald Trump, que transferiu a embaixada norte-americana em maio do ano passado.

Para selar o compromisso de Bolsonaro, Netanyahu teceu elogios a ele no Twitter, veio à cerimônia de posse e prontamente enviou ajuda humanitária a Brumadinho. Às vésperas de uma difícil eleição parlamentar, o anúncio da transferência da embaixada brasileira poderá vir como um alento político.

Em meio a uma disputa por ocupação de espaços políticos, olavistas e evangélicos terão a oportunidade de consolidar sua agenda internacional com a questão de Jerusalém. Globalmente, é fundamental que o governo ajude seus parceiros ideológicos Netanyahu e Trump. Afinal, eles são fiadores de uma estratégia externa do Brasil que certamente se esvairá caso a oposição chegue ao poder em Israel e nos Estados Unidos.

Por isso mesmo, é difícil dizer qual será o resultado da viagem. Dentro e fora do país, há muitos interesses contraditórios em jogo. Diante da polêmica da embaixada, o próprio governo estuda a possibilidade da criação de um escritório de representação em Jerusalém – uma solução intermediária, simbólica, mas que não atende às necessidades imediatas dos aliados do presidente. A única certeza é que, como de praxe neste governo, até o inimaginável pode acontecer.

 

Guilherme Casarões é cientista político, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e colaborador do Instituto Brasil-Israel.

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