Foto: Carstor/Wikimedia Commons

A nova condição do rap: entre mercado e luta antirracista


Mudança de status e de temas tratados pelo gênero musical no século 21 não se restringe a um aspecto geracional de seus artistas

"A sala de concertos mais bonita do Brasil. Um disco falando de amor. A plateia lotada por nós. Obrigada pelos ingressos esgotados em dez minutos".

Emicida, 8 de novembro de 2019

A citação acima foi extraída de um post do rapper Emicida em suas redes sociais, a respeito da venda de ingressos para o show que ele faz no Teatro Municipal de São Paulo, neste 27 de novembro de 2019, como parte da programação do mês da consciência negra promovida pela Secretaria de Cultura. Com preços entre R$ 20 e R$ 50, os ingressos já acabaram rapidamente. Fiquei na fila do Municipal e consegui um lugar, não muito favorável, apenas para o show das 16h. Na minha frente, um homem negro, na faixa dos 40 anos, me disse que essa seria a sua oportunidade para conhecer o teatro.

Quando o rap surgiu na década de 1980, foi visto na cidade de São Paulo como sinônimo de mau gosto e estigmatizado: “coisa de bandido”, “coisa de favelado”, “isso não é música”, “violento” etc. Falar em rap – além dos citados marcadores racistas e classistas – era direcionar-se à periferia (no sentido geográfico) e, no máximo, ao centro da cidade; uma cultura restrita dos “manos”, com códigos próprios e específicos.

Hoje, podemos observar maior presença de rappers, homens e mulheres, lançando publicações em grandes livrarias, fazendo shows em espaços como os do Sesc, no Teatro Municipal, em eventos de moda consagrados como a São Paulo Fashion Week, em turnês internacionais e programas televisivos das grandes redes. É notório como, em menos de 15 anos, o rap e a “cultura periférica” a ele associada passaram a ser consumidos por uma elite universitária e de classe média, e assim essa cultura também se deslocou para espaços frequentados por esses grupos sociais.

Dito isso, o que esse novo espaço social e simbólico do rap nos revela sobre a sociedade brasileira do tempo presente? Com essa pergunta, avalio as mudanças nessa cultura musical afro-diaspórica e, igualmente, percebo como elas vêm acompanhadas de alterações maiores, cujas implicações ultrapassam as novas dinâmicas do gênero.

Tais mudanças podem ser sintetizadas à luz do que denomino como “a nova condição do rap”: uma categoria explicativa das transformações verificadas nas esferas da produção, circulação e recepção do rap, que busca apreender a dinâmica desse processo não apenas no tocante à especificidade de uma “nova geração” de rappers (aqueles que aparecem em cena a partir da segunda década do século 21). Também os rappers que surgiram nos anos 1990, ainda atuantes, se inserem nesse contexto. A discussão, portanto, não se restringe a um aspecto geracional.

Por um lado, presencia-se a continuidade da forte luta antirracista no universo do rap, mas, por outro lado, tendências de crítica cada vez mais rarefeita ao capitalismo

Alguns exemplos dessa nova condição do rap se encontram na inclusão de cursos sobre o gênero musical nas universidades, na inserção do disco “Sobrevivendo no Inferno” (Racionais MC’s) na lista de obras literárias do vestibular da Unicamp, no recente interesse do mercado cultural brasileiro por artistas negros – situação vinculada não apenas ao campo do rap, mas a outras produções culturais e intelectuais produzidas por esse grupo social. Esse processo também é evidenciado por novos títulos de editoras comerciais como a Companhia das Letras, que publicou o livro “Sobrevivendo no Inferno”, que reproduz em termos literários as letras do disco do Racionais MC’s; as obras da ativista negra brasileira de maior renome atualmente, Djamila Ribeiro, como “Quem tem medo do Feminismo Negro?” e “Pequeno Manual Antirracista”; e o livro do rapper Emicida “Amoras”, direcionado ao público infantil.

Nessa perspectiva, a nova condição do rap aponta para as tensões, associações, contradições e ambiguidades entre mercado e luta antirracista, trazendo pistas ao entendimento contemporâneo de duas categorias sociológicas importantes: raça e classe.

Daí provém, também, o acalorado debate público pela visibilidade desses artistas e agentes que, até então, atuavam majoritariamente em coletivos e circulavam em suas comunidades. Isso coloca em outro status a discussão sobre raça e racismo no Brasil, além de implicar em novas subjetividades sobre negritude e sobre o que é ser negro. Não sem contradições, essas subjetividades vinculadas com a nova condição do rap explicam, em partes, a opção e a possibilidade de alguns artistas de não rimarem apenas a dor, o ódio, as desigualdades sociais e raciais, mas reivindicarem também o direito à festa, ao amor e ao consumo. O disco “Amarelo” de Emicida é um exemplo. Podemos lembrar que, em 2016, Mano Brown lançou o álbum “Boogie Naipe”, também falando de amor e com referências à cultura dos bailes blacks dos anos 1970. Criolo, em seus shows, sempre ressalta a importância do amor como uma via à “salvação”. Rincon Sapiência, em uma de suas letras, afirma: “pretos e pretas estão se amando”.

Se para o rap dos anos 1990 a inserção no sistema da indústria cultural apresentava alguns limites, que restringiam sua circulação a rádios piratas e comunitárias, além de dificultarem imensamente sua produção, o novo status do gênero coloca-se como chave explicativa para um fenômeno ainda em curso, que busca compreender quais as consequências da popularização do rap para a experiência contemporânea de negros e negras no mercado cultural e quais as implicações disso para a luta antirracista. Pois está se modificando tanto o vínculo dos rappers com o mercado quanto do mercado com os rappers.

Isso contribui para refletir sobre os limites e os avanços dos debates sobre raça e racismo quando mediados pelo mercado. A ambiguidade desse processo é ressaltada pois, por um lado, presencia-se a continuidade da forte luta antirracista no universo do rap, mas, por outro lado, tendências de crítica cada vez mais rarefeita ao capitalismo.

Daniela Vieira é doutora em sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Pós doutoranda, com fomento da Fapesp, pela mesma instituição. Autora do livro: "Não vá se perder por aí: a trajetória dos Mutantes" (Annablume/Fapesp, 2010).

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