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Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A liberdade é conectar com o outro: isso se chama inclusão


Valor humano é diferente de valor social. Este varia com os fatos e as perspectivas. Aquele, não – é perene e independe de habilidades motoras, físicas, intelectuais

Está com pena do Coringa? Mobilizado pela deficiência biopsicossocial do personagem Arthur Fleck? Saiu do cinema enraivecido? Tudo isso pode. Mas nada disso é inclusão. Lágrimas sentidas raramente têm poder transformador.

Mesmo no século 21, insistimos em viver no modo avião, sem estabelecer conexão com os outros. O modo avião é a anti-inclusão. Enquanto as lágrimas rolam e as sociedades se questionam sobre seus mesmos porquês, a humanidade descansa em sua incompetência atávica: não consegue dar conta das infinitamente múltiplas e radicais formas de se existir da espécie humana.

Inclusão é um conceito que trata da ética do indivíduo com sua própria espécie. Estranhamente, somos uma espécie que, além de não se reconhecer como é, não se ama (embora as pessoas estejam cada vez mais apaixonadas por si mesmas). Para o bem e para o mal, em todos os tempos, há quem queira aprimorar algum aspecto intrínseco à espécie humana. Por aventura ou poder, ou por qualquer outra razão, gostamos de mexer na nossa própria constituição. Mas fica aqui um aviso: não há ajuste que retire ou acrescente valor humano a seres humanos.

Todas as pessoas têm o mesmo valor humano. Valor humano é diferente de valor social. O valor social varia com os fatos e as perspectivas. O valor humano, não. Segue perene. Nada acrescenta valor humano a humanos. Isso é válido para uma superacuidade visual, musculatura de força titânica ou um intelecto genial. Do mesmo modo, nada retira valor humano de humanos – como perder a visão, o movimento das pernas ou o controle dos esfíncteres. O Coringa tem o mesmo valor humano que o Batman.

Famintos, ironicamente somos nós mesmos uma mesa farta e infinita do alimento que buscamos, o valor humano

Essa equidade é um princípio sem começo, nem fim. Vem na forma de um combo, lacrado, com conteúdo libertador e frustrante ao mesmo tempo. A liberdade vem do alívio. A frustração, também. Do alívio de se perceber o óbvio: que crianças com altas habilidades têm o mesmo valor humano que crianças com deficiência intelectual, por exemplo. Isso é óbvio, mas soa como revolucionário. Culpa do modo avião. Imaginem a confusão do dia em que os governos acreditarem que todos têm o mesmo valor humano. Nada ficará das leis, políticas e orçamentos públicos como existem hoje. Tudo a descobrir.

Famílias que têm filhos com deficiência ficarão menos sós. Deixarão de ser consideradas azaradas, porque nelas nasceram crianças que simbolizariam os deslizes de uma natureza chamada de sã. Passariam a vibrar em total pertencimento. Crianças em situação de pobreza não mais ganharão gratuidade em escolas privadas dependendo de suas notas. Se toda criança têm o mesmo valor, facilitar seu acesso à educação independe da velocidade que têm para aprender. Desmoronam-se as competições. No seu lugar, vem o vazio.

Após séculos lutando para saber quem de nós têm mais valor humano, será delicadíssimo abandonar essa gincana no meio ou imaginá-la sem vencedores e perdedores. Há misterioso prazer em dar uma nota ao valor de cada participante do jogo. E há extremo prazer em conquistar uma nota mais alta, mesmo que seja para perdê-la em seguida. A corrida não tem fim.

Todas as pessoas sofrem, mas nem todas sabem que sofrem. Felizmente, há filmes com Coringas. Na dor pelo Coringa, cabem todas as dores de uma humanidade combalida por mais valor. Na indignação pelo que sofre o personagem e pelo mal que causa, cabe o falso consolo de não se ser tão violado ou violador assim. A luta é tão exaustiva, que não a percebemos mais. Famintos, ironicamente somos nós mesmos uma mesa farta e infinita do alimento que buscamos, o valor humano.

Como apaziguar a espécie? Dizendo que está tudo bem em ela ser como é. Que o vazio vai passar. Que vai ser bom nunca mais ter que escolher entre pessoas que ouvem ou não ouvem, andam ou não andam, têm um intelecto veloz ou não, enxergam ou não enxergam. Que a equidade humana não é um problema. Que vai ser bom ter conexão. Que vai ser bom sair da prisão. Que a gincana do valor humano desigual é uma prisão. Que liberdade humana é sair do modo avião, da desconexão. E que tudo isso tem o nome de inclusão. Praticar inclusão é se dedicar a um roteiro de expansão da consciência para dar conta da humanidade como ela é, não mais como nós gostaríamos que fosse.

Claudia Werneck é jornalista, escritora e ativista política, autora de dezenas de livros sobre inclusão e direitos humanos, idealizadora da ONG Escola de Gente - Comunicação em Inclusão.

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