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Foto: Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação/Reprodução

Wanderley Guilherme dos Santos: modelo de intelectual público


Professor pioneiro da ciência política no Brasil formou gerações de cientistas sociais e, por meio de sua pesquisa, cunhou conceitos que são essenciais à compreensão de nossos tempos

Ao relembrar a obra e o percurso intelectual do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos – morto no dia 25 de outubro no Rio de Janeiro, vítima de uma pneumonia – a imprensa tem por costume referir-se à sua “profecia” sobre o golpe de 1964, “Quem dará o Golpe no Brasil?”, publicada em 1962. O “panfleto” (como Wanderley o chamava), que integrou a coleção Cadernos do Povo Brasileiro, editada pelo Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), vai muito além da intuição profética atribuída ao autor. O texto é um exemplo notável de análise da relação entre as opções dos atores políticos e a crescente impossibilidade de uma saída da crise por via institucional. O golpe, na leitura de Wanderley, seria resultado da incapacidade das incipientes e frágeis instituições democráticas de 1946 em encontrar uma solução para a contradição cada vez maior entre setores das elites dominantes e a ampliação das demandas populares por cidadania. O golpe levaria Wanderley e os demais colegas à aposentadoria compulsória com o imediato fechamento do Iseb pelo regime militar.

Após dois anos de dificuldades, Wanderley passou a integrar o projeto de Cândido Mendes para recriar uma versão feita à imagem e semelhança do extinto Iseb, incorporando, porém, o instrumental científico-metodológico das ciências sociais norte-americanas. Destinado a formar intelectuais públicos – conforme a antiga tradição – que dali por diante legitimassem cientificamente sua atuação, nasceu o antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, o Iuperj. Com o apoio da Fundação Ford para a criação de pesquisas científicas e programas de pós-graduação em ciências sociais no Brasil, Wanderley partiria em 1967 para Stanford. Quatro anos depois, ele retornaria para assumir a direção do Iuperj e dar início a seu mais importante legado intelectual e institucional: formar diversas gerações de cientistas sociais e participar das mais importantes iniciativas de ampliação e consolidação de pesquisa e pós-graduação no Brasil, como a criação da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), fundada em 1977 numa articulação liderada por ele e Fernando Henrique Cardoso.

A obra de Wanderley, espalhada em cerca de 40 livros e dezenas de outros artigos, percorre uma diversidade de temas e problemas centrais para a construção da ciência política brasileira. Ainda no período do Iseb, Wanderley iniciaria sua célebre pesquisa sobre o pensamento político brasileiro – “A imaginação política brasileira” –, mapeando as diferentes tradições e interpretações sobre a realidade nacional e suas concepções de Estado, de desenvolvimento, de instituições políticas e outros temas centrais de nossa formação. Nesses estudos, voltados inicialmente à compreensão das origens do pensamento nacionalista, já se anunciava o problema central de sua obra: a interpretação da acidentada trajetória brasileira rumo à construção de uma sociedade democrática.

Ele conseguiu a proeza de, ao mesmo tempo, ser um dos últimos “intérpretes do Brasil” de cunho ensaístico e o primeiro de seus cientistas políticos, no sentido moderno da expressão.

Wanderley ousou pensar alto, dialogando diretamente, em seus textos, com os grandes expoentes da ciência social estrangeira, de modo científico e crítico, sem qualquer complexo de inferioridade – coisa rara na academia latino-americana. Nesse sentido, uma das maiores façanhas de Wanderley foi conseguir equilibrar a análise científica, descritiva, com a defesa da democracia, normativa. Convicto de que não era possível democracia sem Estado de direito, ele era um advogado consistente do liberalismo político identificado com o sistema representativo e partidário, condenando modelos de democracia plebiscitária. Por outro lado, coerente com suas convicções progressistas, Wanderley acreditava que a democracia precisava ser alargada e que só um regime de corte social-democrata poderia reduzir as desigualdades sociais que limitavam a sua potência. O governo tinha nisso um papel fundamental, e por isso ele sempre se manteve fiel a uma orientação nacionalista que rejeitava, como elitista, a versão hegemônica do liberalismo, que pregava o Estado mínimo.

O tema da democracia e das condições de sua existência levou Wanderley a uma busca por novos instrumentos teóricos e empíricos. Muitos de seus textos tornaram-se centrais para a interpretação da experiência democrática. Em 1979, em “Cidadania e Justiça”, explorou a relação complexa entre a conquista dos direitos sociais e o papel central do Estado na construção de um modelo de “cidadania regulada”. Poucos anos depois, em “1964: anatomia da crise” (republicada em versão revista e aumentada com o título “O cálculo do conflito”), Wanderley inventou o conceito de paralisia decisória para entender como o sistema político da República de 1946 tornou-se incapaz de responder a um cenário crescente de fragmentação e radicalização política.

No contexto de expansão da ideia neoliberal do mercado como centro da vida social, Wanderley publicou “Paradoxos do Liberalismo” (1988), um esforço teórico para entender a interação entre política, Estado e mercado na construção da democracia. Quatro anos depois, em “Razões da Desordem”, ele estudava a persistente incapacidade brasileira em conciliar estabilidade política, consolidação democrática e ampliação da cidadania. O mesmo tema reaparece em 2006, em “O ex-Leviatã brasileiro: do voto disperso ao clientelismo concentrado”, dessa vez focando sua análise no processo de transformação das capacidades de ação do Estado brasileiro e em desmentir de forma cabal as teses que associavam o tamanho do Estado ao seu caráter supostamente patrimonial. Em seu último livro, “A democracia impedida: o Brasil no século 21” (2017), Wanderley analisou as razões da instabilidade política e as circunstâncias que levaram à cassação do mandato de Dilma Rousseff, inventando desta vez o conceito de “golpe parlamentar”, que, a exemplo dos outros, tornou-se moeda corrente não só na academia, como também na opinião pública. Nesse sentido, ele conseguiu a proeza de, ao mesmo tempo, ser um dos últimos “intérpretes do Brasil” de cunho ensaístico e o primeiro de seus cientistas políticos, no sentido moderno da expressão.

A carreira intelectual de Wanderley Guilherme foi, assim, marcada por uma rebeldia contra as ideias prontas, pelo rigor científico e pelo compromisso com a democracia. Incomodavam-no profundamente as teses e interpretações acadêmicas consolidadas, tornadas lugares-comuns, e a incapacidade crescente das ciências sociais em compreender as mudanças contemporâneas. Seu gênio nunca lhe permitiu acomodar-se, obrigando-o a se posicionar sempre na vanguarda, desenvolvendo teorias que entendessem a totalidade do processo social e que lhe permitissem, posteriormente, aplicações mais tópicas para fenômenos mais localizados.

Seu último curso ministrado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, denominado “Introdução ao século 21”, buscava entender a crise da democracia contemporânea a partir do que ele chamou de “fim da sociedade industrial”, que daria origem a uma “sociedade intransitiva”, novo conceito por ele cunhado para descrever o mundo social do futuro. Ele examinava uma literatura que explorava não só a ciência política, mas campos e temas diversos, como a engenharia robótica, a demografia, o estudo das transformações históricas nos modos de produção, a informática e a sociedade da informação.

Wanderley, que vivia intensamente sua atividade intelectual, lecionou até a véspera de sua morte. Ele deixou três filhos, três netos, dezenas de amigos e centenas de alunos. Embora também tenha deixado a ciência política brasileira sem seu maior e mais importante desbravador, legou-nos, em compensação, o exemplo de um intelectual que buscou como ninguém compreender as dificuldades teóricas e empíricas da democracia brasileira, sem nela jamais perder sua fé, mesmo em seus momentos mais sombrios. Exemplo a ser seguido pelas gerações atuais.

Christian Edward Cyril Lynch é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Paulo Henrique Cassimiro é pós-doutor em ciência política da Universidade de São Paulo.

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