Foto: Pablo Sanhueza/Reuters

Como é o clima das ruas de Santiago em meio aos protestos


Revolta contra políticas econômicas que fazem de tudo mercadoria no Chile motivam os maiores protestos da história desde a ditadura

Em um país conhecido por produzir poetas mundialmente famosos, como Gabriela Mistral e Pablo Neruda, não é de espantar que seus protestos assumam uma aura lírica. Enquanto se caminha por Santiago, sentindo o cheiro do gás lacrimogêneo, é possível ouvir desde canções clássicas de Violeta Parra e Victor Jara até músicas de artistas mais atuais – e igualmente engajados – como Ana Tijoux. A tradição de cantar sobre os variados problemas sociais não é novidade para os chilenos. Já a potência das manifestações de outubro de 2019, sim. Desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), não se via um grau de insatisfação tão intenso como o que ocorre por estes dias nos protestos da nação andina.

As manifestações contra o aumento da tarifa do metrô começaram timidamente no início de outubro por meio das chamadas evasiones masivas, isto é, a recusa de pagar as passagens, pulando as catracas de controle das estações de metrô. O que chama a atenção no movimento é que ele foi deflagrado por estudantes secundaristas, que não tiveram os preços de suas passagens alterados. Essa informação ajuda a compreender uma característica essencial dos protestos que tomaram o país: protagonizados principalmente por jovens, as reivindicações não têm como principal foco as pautas educacionais ou culturais, como é recorrente nesses casos, e sim um incômodo generalizado com as políticas econômicas chilenas liberais e neoliberais. Violeta Parra, de maneira profética, já cantava há mais de 50 anos, em “Me gustan los estudiantes”, um elogio à empatia e à atuação dos estudantes em causas que afligem a sociedade.

Com os protestos nas estações ganhando mais fôlego a partir do dia 14 de outubro, o governo de direita do presidente Sebastián Piñera não surpreendeu e passou a reprimir as manifestações com significativo número de carabineros (como a polícia chilena é conhecida). Ao mesmo tempo, utilizou-se do discurso de criminalização do movimento. A ironia é que Piñera e aliados são acusados de sonegarem impostos por meio de suas empresas e até propriedades privadas desde a década de 1990, o que, no Chile, também é conhecido como evasiones – no caso, de impuestos. Não tardou para que a oposição e as redes sociais apontassem a contradição, com discursos categóricos no parlamento contra o presidente e a divulgação de diversos memes e hashtags, como #caraderaja (cara de pau em espanhol). A criminalização dos protestos se somou a outros pronunciamentos de membros do governo – como o do ministro da Economia, Juan Andrés Fontaine, que já havia afirmado que a alta da tarifa do metrô beneficiaria o trabalhador que madrugasse e pegasse o transporte bem mais cedo, já que ele pagaria menos (em Santiago há diferenças de preços no metrô de acordo com o horário).

Na sexta, dia 18, os protestos se radicalizaram, tomando todo o país ao longo do final de semana. Barricadas com fogo, pichações, ataques a bancos, supermercados e farmácias – alguns seguidos de incêndios – e, principalmente, os imensos cacerolazos (“panelaços”) varreram o país como uma onda. Piñera suspendeu o aumento das passagens ao mesmo tempo em que decretava estado de emergência. Porém, o estrago já estava feito: os chilenos tomaram as ruas com inúmeras reivindicações contra o alto custo de vida – especialmente quanto ao aumento das tarifas de bens como energia, medicamentos e água, que no Chile é privatizada –, o endividamento estudantil e o sistema previdenciário, que paga aposentadorias irrisórias e está nas mãos das AFP (Administradoras de Fondos de Pensiones), a maioria pertencente a grupos multinacionais estrangeiros.

Em comum, todas as demandas têm relação com as reformas estabelecidas durante a ditadura de Pinochet, da qual Piñera, sua família e aliados são os principais herdeiros políticos. Como já alertavam Parra e Jara em seus versos contra a repressão violenta de manifestantes, Piñera decretou toque de recolher, colocando o Exército nas ruas, situação que não ocorria desde a ditadura. Com o discurso de garantir a ordem, resguardar a propriedade privada e a segurança do cidadão, o número de mortos chegou a 18 em uma semana de conflitos.

Desorientado com a força das manifestações, o presidente chegou a declarar que o país se encontra em guerra contra um inimigo poderoso. Mas a declaração mais ridicularizada ficou por conta da primeira-dama Cecilia Morel, que, em áudio vazado, comparou os protestos a uma invasão alienígena e lamentou ter de cortar seus privilégios.

Após cinco dias em que os protestos só se intensificaram, o presidente percebeu que o uso de dispositivos autoritários não estava surtindo efeito em uma geração que não carrega a memória sombria da ditadura e que utiliza a internet de maneira eficaz para fazer denúncias das graves violações contra os direitos humanos que vêm ocorrendo, principalmente durante os toques de recolher. Desse modo, Piñera mudou o tom do discurso, pediu desculpas e anunciou, na terça, dia 22, um pacote de medidas, incluindo uma complementação da renda mínima do trabalhador, a redução das tarifas de luz e um seguro para a compra de medicamentos. Concomitantemente, o Congresso também busca aprovar uma série de mudanças na legislação, entre elas, a redução de seus próprios salários e a diminuição das jornadas de trabalho.

As vozes das ruas foram claras e já avaliaram o pacote de medidas de Piñera como insuficiente. Aumentam os pedidos pela renúncia de Piñera, que são seguidos por ameaças de processos constitucionais contra o presidente pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

As sucessivas políticas liberais e neoliberais, pouco alteradas pelos governos de centro-esquerda e defendidas enfaticamente pelos governos de direita, parecem ter chegado a um ponto de inflexão na sociedade chilena, sobrecarregada por um discurso que define tudo como bem de consumo.

Se Piñera não propuser mudanças constitucionais, todas suas promessas serão recebidas com o sarcasmo dos versos de Parra, que canta "Miren cómo sonríen los presidentes cuando le hacen promesas al inocente" (“Vejam como sorriem os presidentes quando fazem promessas ao inocente”). Os protestos – cada vez mais respaldados pela sociedade, que demonstra incredulidade também com a maneira como a mídia tradicional os retrata – continuam sem arrefecer em todo o país, principalmente sob o sol das tardes quentes de Santiago.

Luan Aiuá Vasconcelos Fernandes é professor na rede pública municipal de São Paulo, mestre em História e Culturas Políticas pela UFMG e doutorando em História Social pela USP. Pesquisa atualmente a ditadura militar chilena e sua relação com as universidades.

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