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Foto: Hudson Pontes da Silva/Wikimedia Commons

Salvando o Cerrado: como enfrentar as mudanças climáticas


A desestabilização desse complexo ecossistema pode levar a um ciclo irreversível de degradação que afeta não apenas o Cerrado e uma região vital para a produção de alimentos, mas também biomas vizinhos, incluindo a Amazônia e o Pantanal

Até o final de julho de 2019, já tínhamos usado todos os recursos renováveis que nosso planeta pode nos fornecer em um ano. Estamos consumindo 1,7 planetas por ano, e a taxa de esgotamento de recursos está aumentando a cada ano. Grande parte do problema é a forma como estamos usando nossa terra; a taxa de desmatamento e de conversão do habitat natural está contribuindo para o rápido declínio da biodiversidade e para o aquecimento global crescente.

O Relatório Especial do IPCC sobre Mudanças Climáticas e Terra, aprovado em agosto, em Genebra, explora a relação entre clima e terra. Ele destaca que os compromissos já estabelecidos para reduzir nossa pegada ecológica global (incluindo desmatamento e conversão do habitat natural), como a Declaração de Nova York sobre Florestas, as Metas de Aichi e o Acordo de Paris, estão falhando. Usamos nossa terra de maneira cada vez menos sustentável, principalmente quanto à maneira como produzimos alimentos. O desmatamento global está crescendo de forma constante. Pelo menos um terço das terras do planeta é usado para produção de alimentos. Nosso sistema alimentar global é responsável por cerca de um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa do mundo. O relatório faz recomendações claras sobre como reverter essa tendência e alterar a maneira como os alimentos são produzidos, comercializados e consumidos, para tornar possível um futuro com aquecimento global limitado a 1,5 graus Celsius.

A desestabilização desse complexo ecossistema pode levar a um ciclo irreversível de degradação que afeta não apenas o Cerrado e uma região vital para a produção de alimentos, mas também biomas vizinhos, incluindo a Amazônia e o Pantanal

Embora os impactos sobre as florestas sejam amplamente discutidos, mais da metade de toda a destruição de habitats ocorre fora das florestas, nos campos e savanas, que representam até 40% das terras do planeta. Metade das principais savanas (Cerrado) e campos (pradarias norte-americanas) já foi perdida, e a maior parte do que resta está sendo degradada e muito menos de 10% está legalmente protegida. Isso representa aproximadamente metade da quantidade de florestas protegidas, apesar do fato de que assim como as florestas, os campos e savanas estão entre as últimas zonas de vida selvagem remanescentes, e que sustentam uma biodiversidade extremamente rica, original e ameaçada. Os últimos grandes bandos de animais selvagens, milhares de espécies endêmicas de plantas, e até árvores são encontrados apenas em campos e savanas.

Campos e savanas exercem outros papéis extremamente importantes, como a captação de água para a maioria dos mais volumosos rios do mundo. Seu papel essencial na mitigação dos impactos das mudanças climáticas é amplamente ignorado. O carbono total armazenado por campos e savanas é estimado em 470 Gt (isto é, um quinto do carbono total contido na vegetação terrestre e solos superficiais do planeta) — uma média de 150-200 toneladas de carbono por hectare. A restauração de campos nos permite extrair carbono da atmosfera mais rapidamente do que a restauração de florestas; e com mais segurança, pois o carbono é armazenado no subsolo, ficando protegido de secas e incêndios.

O Cerrado brasileiro, nossa savana mais antiga e biodiversa, é quase do tamanho da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha juntos. Ele abriga 5% de todas as espécies da Terra, das quais 40% são únicas. O Cerrado é também uma bacia hidrográfica imensa, fornecendo 40% de toda a água doce do Brasil e abastecendo o Pantanal. Seus solos profundos atuam como uma esponja gigante, absorvendo e estocando água suficiente na estação chuvosa para distribui-la para milhões de nascentes durante todo o ano, mesmo durante o auge da estação seca. Isso é possível devido ao fato de suas árvores e arbustos possuírem folhas grandes e raízes muito profundas, duas vezes maiores que as partes visíveis das plantas, permitindo que a água penetre profundamente no solo — daí a referência ao Cerrado como sendo “a floresta de cabeça para baixo”. O Cerrado é, portanto, também um estoque de carbono de vital importância, totalizando cerca de 13,7 bilhões de toneladas, com dois terços escondidas no solo e em raízes profundas. Por último, mas não menos importante, o Cerrado é o lar de centenas de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Mas a região também é um dos maiores e mais ativos polos agrícolas do mundo, sendo que as principais atividades são criação de gado e o cultivo de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Metade do Cerrado já foi devastada para expansão agrícola e o restante está sob ameaça iminente. Em média, a área devastada chega a um milhão de hectares por ano. Isso equivale a eliminar uma área do tamanho da cidade de Nova York por mês. Apenas 8% do Cerrado é oficialmente protegido — menos de 3% fica sob proteção integral — e os proprietários de terras são obrigados a conservar apenas 20% de suas terras, uma regra que infelizmente deixa de ser aplicada em muitas regiões.

Os conflitos de terra se multiplicam, frequentemente com violência e, nesse ritmo, o Cerrado está ameaçado de extinção maciça de espécies de plantas. Essa destruição também dificulta a capacidade dos solos e da vegetação de captar e armazenar água e de sequestrar carbono. Desmatar o Cerrado significa liberar 250 milhões de toneladas de carbono por ano, correspondendo às emissões anuais de 53 milhões de carros. Devido a mudanças na temperatura do solo e na evaporação, a conversão maciça do Cerrado também afeta diretamente o regime local de chuvas, impactando a produção agrícola com crescente frequência. A desestabilização desse complexo ecossistema pode levar a um ciclo irreversível de degradação que afeta não apenas o Cerrado e uma região vital para a produção de alimentos, mas também biomas vizinhos, incluindo a Amazônia e o Pantanal — tudo isso contribuindo para o aquecimento global acelerado e condições climáticas extremas, que gerarão impactos econômicos e humanos graves.

Apesar deste quadro, ainda é possível salvar o Cerrado. Há terras degradadas suficientes na região para triplicar a produção de soja e, consequentemente, atender à demanda global de soja e carne prevista para os próximos 50 anos, sem que seja preciso devastar mais um hectare. Por meio de uma agricultura mais sustentável, essas terras podem ser restauradas, incorporando a produção de soja e carne livre de conversão sem comprometer a segurança alimentar e desenvolvimento social e econômico do país.

E estamos fazendo avanços reais. O WWF e seus parceiros estão engajando toda a cadeia de suprimentos de soja, desde empresas consumidoras a comerciantes e produtores brasileiros, em um esforço voluntário em todo o setor para impedir a destruição de habitats.

Em 2017, ajudamos a lançar o Manifesto do Cerrado. Trata-se de um apelo aos produtores, varejistas e comerciantes de soja para que se comprometam a produzir com zero conversão ou desmatamento do habitat do Cerrado. Mais de 130 empresas e instituições financeiras globais ouviram esse chamado e apoiaram o Manifesto formalmente, incluindo nomes familiares como Tesco, Marks & Spencer, McDonald’s e Unilever. Agora, o WWF e seus parceiros estão engajando ativamente essas empresas, a indústria brasileira e os produtores brasileiros para transformar esses compromissos em realidade.

Com o apoio do Projeto Colaboração para Florestas e Agricultura, financiado pela Fundação Gordon e Betty Moore, estamos ajudando a identificar ações efetivas que possam “limpar” as cadeias de suprimentos. Esse esforço também está se espalhando para a região do Gran Chaco, outro bioma altamente ameaçado na Argentina e no Paraguai, por meio de um melhor gerenciamento da cadeia de suprimentos de carne bovina.

Estamos ajudando os produtores a melhorar o manejo de pastagens cultivadas, e a converter parte das pastagens em áreas de cultivo para restaurar solos degradados, reduzir o uso de fertilizantes e fixar o carbono no subsolo. Além disso, cooperamos com instituições financeiras e com o mercado de varejo para oferecer crédito favorável e outros incentivos financeiros concretos aos produtores que concordarem com a expansão em terras degradadas em vez de Cerrado nativo.

Por fim, estão sendo desenvolvidas ferramentas para garantir transparência e aderência aos compromissos das empresas. O Accountability Framework fornece princípios, definições e diretrizes claras para a implementação de cadeias de suprimentos éticas e para a disseminação da produção sem conversão como requisito básico para todos os produtos agrícolas e florestais. Isso significa tornar a expansão da produção para os últimos habitats naturais remanescentes (e em áreas de comunidades indígenas e tradicionais) social, política e financeiramente inaceitável.

Trabalhando com agricultores, empresas, financiadores e governos podemos salvar o Cerrado. Estamos no caminho para uma paisagem mais resiliente, produtiva, inclusiva e sustentável, assegurando a sobrevivência de dezenas de culturas locais, milhares de espécies e serviços ecossistêmicos essenciais e impedindo que bilhões de toneladas de carbono sejam liberados na atmosfera.

Mas parar a maior fronteira de destruição de habitats do mundo seria apenas um passo inicial no longo caminho em prol de um futuro abaixo de 1,5 ºC, no qual biodiversidade, segurança alimentar, direitos humanos e bem-estar se unem em sinergia. Ao aprendermos com essa experiência, podemos testar e adaptar soluções concretas para restaurar e proteger campos, savanas e outros ecossistemas ameaçados em todo o mundo, como parte de um Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas.

Jean-Francois Timmers é líder global de soja da organização WWF

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