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Foto: TV Cultura

Sobre Tabata Amaral, feminismos e significantes vazios


Na televisão, deputada federal rejeitou o rótulo da ‘nova política’. Ao mesmo tempo, deixou representantes do movimento das mulheres apreensivas

Na segunda-feira (16), a deputada federal Tabata Amaral (atualmente no PDT, em busca de uma nova legenda) esteve no programa Roda Viva e teve a oportunidade de apresentar ao país suas posições ao vivo, na TV aberta. Faço questão de chamá-la assim, com a formalidade que o cargo e quem o ocupa merece, porque fico feliz em poder fazê-lo. A deputada é uma liderança que me inspira respeito e as críticas que faço são isso: manifestações de interesse e respeito.

A deputada de 25 anos representa São Paulo no Parlamento e chegou lá com uma votação bastante expressiva. Inicialmente, reivindicava o título de representante da nova política. Mas Brasília já a ensinou muita coisa. Uma delas diz respeito ao termo: a deputada hoje sabe que o “novo” não é necessariamente bom. Como canta Gilberto Gil, a novidade pode ser apenas um desperdício de sonho. Diante dos abusos que muitos de seus pares se permitem esticando até rasgar a noção do novo, a deputada parece ter compreendido o perigo dos significantes vazios.

A politóloga Chantal Mouffe e seu parceiro mais frequente, o politólogo argentino Ernesto Laclau, são autores das reflexões que pautam o debate contemporâneo sobre populismo. Juntos, assinam vasta produção sobre os perigos dos significantes vazios, elementos discursivos cuja potência reside na capacidade de carregar consigo múltiplos significados a ponto de perder seu sentido inicial. Significantes vazios são um recurso de poder atraente porque infinitos interesses podem convergir em torno deles. A adesão de muitos é certa. Mas o que lhes garante encantamento também lhes faz temerários. Os elementos discursivos em questão se tornam, eventualmente, noções vagas que gozam de grande legitimidade e podem ser empregadas a serviço de qualquer projeto político.

Para Mouffe e Laclau, a democracia hoje é um significante vazio. A deputada parece ter descoberto que a noção do novo também o é. No Roda Viva, vimos a deputada rejeitar os termos “nova política” e reivindicar um novo título, o de liderança da “boa política”.

No mesmo Roda Viva, a deputada respondeu brevemente questões sobre direitos reprodutivos, mulheres no poder e feminismo, deixando feministas bastante apreensivas.

Não podemos desistir umas das outras e nos contentar com alianças rasas. Isso nos faz vulneráveis, sob ameaça ainda maior do que a de ver os feminismos esvaziados de sentido virando moeda de troca da velha política - ou da má política

Sobre o marco legal que nos garante pouquíssimos direitos reprodutivos, a deputada disse entender que “a legislação sobre aborto é suficiente”. Ela não negou conhecer que o aborto já é escolha segura para as que têm recursos, mas é feito na ilegalidade e sem segurança pela maioria de nós e por isso mutila e mata mulheres pobres. A deputada disse se preocupar com as vidas dessas mulheres, mas se preocupar mais com a "vida do feto". Imediatamente, feministas brasileiras de todos os cantos do país foram para as redes sociais compartilhar a frustração de ver uma liderança que se autodeclara feminista de centro-esquerda se dizer satisfeita com a legislação vigente.

A deputada diz reiteradas vezes que defende o diálogo e sempre pode ser convencida quando apresentada a argumentos e evidências. Não é necessário defender a inconstitucionalidade da criminalização do aborto e a ampliação dos direitos reprodutivos para ser feminista. Essa régua não existe, a de mais ou menos feminista. O ponto é outro. A deputada se define como feminista, se preocupa com o tema, com as mortes das que optam pela prática clandestina sem recursos, e diz que pode ser convencida. Da minha parte e de outras como eu, sentimos falta da deputada nas muitas conversas que temos sobre isso, onde acreditamos estar produzindo discurso e dados bastante convincentes.

A respeito da vontade, da qual compartilho, de ver mais mulheres no poder, a deputada disse querer avançar arregimentando mulheres por meio de um movimento que batizou de Vamos Juntas. Sabemos poucos detalhes sobre a ideia.

Eu e a deputada não estamos sós, mulheres brasileiras de esquerda e direita declaram lutar pela causa. A bancada feminina e feminista do PSOL na Câmara dos Deputados, por exemplo, debate desde o dia 1 do presente mandato maneiras de garantir o ingresso, a permanência e o êxito de mulheres no Executivo e no Legislativo. Do outro lado do espectro político-partidário, a também deputada por São Paulo Joice Hasselmann, do PSL, disse publicamente em diversas ocasiões querer capitanear a entrada de uma legião de mulheres na política. Contudo, o consenso para aí. Divergimos, esquerda e direita, sobre como promover a entrada de mulheres na política, cotas e o uso do fundo partidário estão em jogo e o debate sobre o laranjal do PSL fez o tema ainda mais explosivo.

Mais uma vez, as feministas online, ainda durante a exibição do Roda Viva, dividiram certa aflição. Preocupa não ter detalhes para avaliar o Vamos Juntas, não saber quem no debate público brasileiro inspira a deputada que citou como referência apenas literatura estrangeira. O receio vai crescendo exponencialmente.

Enfim, a deputada disse algo sobre feminismo digno de nota: "me preocupam essas caixinhas que a gente tem hoje. Que para ser de esquerda eu tenho de seguir toda uma cartilha que alguém escreveu 200 anos atrás. Que para ser feminista eu tenho de seguir uma coisa que uma elite escreveu alguns anos atrás". Essas frases fizeram tremer a mim e a muitas como eu.

Existem interpretações distintas do que a deputada quis dizer ao rejeitar a imposição de um feminismo hegemônico. Só posso dizer com certeza que a deputada tem infinitas possibilidades. Não esperamos que subscreva ao que francesas do século 19 disseram sobre igualdade de gênero. Nenhuma de nós quer ver a deputada forçada a rezar pela cartilha de feministas liberais do 1% norte-americano como Hillary Clinton e Sheryl Sandberg. Tampouco desejamos que ela concorde integralmente com mulheres como eu, feministas brancas, cientes dos nossos muitos privilégios e do nosso lugar de fala. Mas certamente nos deixaria aliviadas saber que a deputada, ao se declarar feminista, o faz tendo em mente que existem narrativas feministas decoloniais, antirracistas, produzidas desde as periferias do país. Vozes que o mundo já escuta e a deputada parece ignorar.

Há o feminismo brasileiro negro, o feminismo brasileiro popular, rural, trans, o feminismo radical, o feminismo lésbico, o católico, o evangélico… não existe feminismo, existem feminismos. E feministas dessas denominações e de tantas outras, dado que felizmente não existe lista exaustiva que dê conta dos feminismos todos, estão aqui. Ao lado da deputada no Parlamento, junto a ela compondo sua base, interessadas nela nas redes. É nossa vez de dizer: estamos sempre abertas ao diálogo e sempre podemos ser convencidas quando confrontadas com argumentos e evidências.

Recentemente, em artigo para a Folha de São Paulo, dissemos eu e Antônia Pellegrino que a frustração da esquerda frente ao voto da deputada sobre a reforma da Previdência era de responsabilidade da esquerda e não da deputada. Essa bolha, onde sei que resido, projetou expectativas irreais que ela alimentou apenas parcialmente, a desilusão era questão de tempo. Mas isso foi antes. Passado esse momento, a deputada parece ter amadurecido. Dá sinais de ser capaz de domar com competência as expectativas que cria, as que lhe convém. Compreendeu que a noção do novo era um significante vazio e abandonou-a. Falta agora despertar para outro risco: o feminismo também pode ser um significante vazio. Pode igualmente ser esticado para que caiba nele tudo até rasgar.

O uso incauto e errático das narrativas feministas é arriscado. A atual conjuntura, que soma governantes hostis e negligentes e o sucesso de um discurso feminista liberal que vende, mas não transforma, faz tudo ser mais delicado. A ameaça dos significantes vazios está posta. Precisamos todas tomar parte num esforço coletivo criterioso permanente de escolha do que é inegociável para nós. Sob pena de sermos jogadas na vala comum de onde a deputada sabiamente escapou ao deixar a nova política para trás. Com uma distinção crítica: não podemos nos dar o luxo de deixar os feminismos para trás.

A deputada é vítima frequente da violência política de gênero. É desautorizada, desqualificada e desrespeitada diariamente sendo atacada não pelo que fez ou faz, mas por ser quem é, como é. Por ser mulher. A prova cabal é essa: a deputada, no Roda Viva, passou longo tempo tendo de responder questões sobre seu companheiro, o papel que ele desempenhou em sua campanha e a remuneração que recebeu por isso. O tema tomou, inclusive, muito mais tempo do que tudo que mencionei acima. Isso tudo num Brasil em que o presidente da República carrega os filhos à tiracolo e deseja que um represente todas e todos nós em Washington. A deputada tem minha inteira solidariedade, sou só sororidade nesse caso.

É também verdade que temos, eu e a deputada, os mesmos inimigos poderosos, é meu desejo ajudá-la no front em que está. Mas abdicar do bom debate público, interditar discussões vitais a respeito de quem somos e queremos ser por termos muito em comum e estarmos do mesmo lado em tantas lutas seria capitular de vez. Não podemos desistir umas das outras e nos contentar com alianças rasas. Isso nos faz vulneráveis, sob ameaça ainda maior do que a de ver os feminismos esvaziados de sentido virando moeda de troca da velha política – ou da má política.

Manoela Miklos é doutora em relações internacionais, especialista em direitos humanos, ativista feminista e idealizadora do movimento #AgoraÉQueSãoElas.

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