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Foto: Bruno Kelly/Reuters

O agronegócio não precisa do desmatamento para prosperar


No século 21, não faz sentido discurso de que o desenvolvimento deve se dar às custas das florestas. Ideia passa longe do interesse nacional: atende apenas à geração de lucros indevidos

"A opinião pública do mundo parecia-me uma arma legítima de usar em uma questão que era da humanidade toda e não somente nossa. Para adquirir aquela arma fui a Lisboa, a Madri, a Paris, a Londres, a Milão, ia agora a Roma, e se a escravidão tivesse tardado ainda a desaparecer, teria ido a Washington, a Nova York, a Buenos Aires, a Santiago, a toda parte onde uma simpatia nova por nossa causa pudesse aparecer, trazendo-lhe o prestígio da civilização. Se havia falta de patriotismo em procurar criar no exterior uma opinião que nos chegasse depois espontaneamente com a grande voz da humanidade, não posso negar que fui um grande culpado".

 

No livro de memórias "Minha Formação", no capítulo "Passagem pelo Vaticano", Joaquim Nabuco conta sobre seu encontro com o papa Leão 13, em meados de 1888, a quem fora pedir que intercedesse pelo movimento abolicionista brasileiro junto à princesa Isabel. Quando anunciou à corte, no Rio de Janeiro, que iria a Roma com tal propósito, um escândalo se formou, com a acusação de que tramava contra o interesse nacional. Os acusadores: a imprensa e os fazendeiros, duas das principais forças políticas do país à época. O argumento: com a libertação dos escravos, a agricultura, naquele momento a principal força da economia brasileira, seria paralisada – um crime contra a pátria.

 

É diante dessa argumentação que surge a resposta de Nabuco, citada no trecho que abre este artigo. Ele relata que, patriota, se sentiu tocado num primeiro momento pela denúncia. Entretanto, se o interesse nacional residida em explorar a escravidão, era obrigado a se declarar culpado do que o acusavam.

 

O relato, datado de mais de um século, tem um paralelo com o momento que vivemos no país, em que àqueles que se contrapõem ao desmatamento é destinado o título de inimigo da pátria ou da soberania nacional. E a alegação continua a mesma – se não houver desmatamento, o país para – frente a inúmeros dados, estudos e informações que confirmam exatamente o contrário. A exemplo do relatório "Qual o impacto do desmatamento zero no Brasil?", publicado pelo Instituto Escolhas em 2017, no qual mostramos que preservar as florestas não prejudica a economia e não impacta o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, tão pouco faltará terras para que o país continue a expandir sua produção.

 

É hora de reafirmar que o interesse nacional e nossa economia não dependem do desmatamento, assim como no passado se teve coragem de fazer contra a escravidão, mesmo que de forma tardia e com tantos custos à humanidade. 

O estudo aponta ainda que um pequeno incremento da produtividade da pecuária anularia qualquer possível efeito negativo de uma política de desmatamento zero. E essa é apenas uma contribuição entre tantas outras evidências, com bases sólidas e científicas, que corroboram a tese de que, há muito, o desmatamento deixou de ser necessário para a produção. Assim, é curioso que nos dias atuais ainda haja espaço no debate público para o argumento de que o Brasil dependa do desmatamento para fazer sua economia avançar.

 

O mesmo raciocínio se enquadra para aqueles que se valem de críticas, para comentar o anunciado boicote de algumas corporações estrangeiras à indústria brasileira de couro. Vamos partir do princípio que no jogo das relações internacionais o que existe antes de tudo são relações de interesse. Seja comercial ou geopolítica, todo mundo visa preferencialmente defender aquilo que lhe é conveniente. Então, todos podemos concordar que esse jogo não é movido apenas por objetivos e valores da mais alta relevância.

 

Mesmo assim, não nos cabe menosprezar e desmerecer que temos nossos próprios pecados – e que muitas vezes eles poderão ser apontados pelos outros, ainda que com o dedo sujo. O que assistimos é como se o Brasil de hoje tentasse afirmar sua soberania e impor uma agenda ao mundo, em pleno século 21, justificando-se num passado de erros.

 

O país precisa assumir de vez que o desmatamento não é mais uma vantagem, inclusive porque ele não é mais preciso. O residual desse argumento está naqueles que ainda usam essa ideia para proteger seus interesses privados, avançando sobre a última  grande área de floresta tropical do mundo. A indústria da invasão de terras públicas na Amazônia é uma realidade que se faz cada vez mais presente . E decisões oficiais dos últimos anos, como as medidas provisórias dos governos  Lula e Temer que legalizaram ocupações de áreas de mais de 100 milhões de hectares na região, tamanho superior a muitos países da Europa, acabam  por  estimular esse processo.

 

Portanto, quando se fala em desmatamento na Amazônia o que está em pauta não é a produção, mas sim a ocupação irregular de terras públicas. E o discurso de que o desenvolvimento do agro depende do desmatamento está longe de almejar qualquer interesse nacional. Serve apenas para proteger quem avança sobre patrimônio público para convertê-lo em lucros privados.

 

A agricultura e o agronegócio brasileiros dependem de tecnologia e investimento em novas modalidades de crédito. Dependem de se pensar a questão climática e como ela vai afetar a produtividade. Dependem do que já foi feito lá atrás, quando a Embrapa enviou uma legião de técnicos para estudar fora do país, o que permitiu saltos extraordinários em pesquisa e produtividade.

 

A agricultura e o agronegócio brasileiros não dependem de grilagem e de criminosos. Os players sérios, e que de fato fazem a diferença na balança comercial e na economia do país, sabem bem disso, mas serão os primeiros prejudicados se não estabelecerem essa separação do joio do trigo.

 

Dessa forma, é hora de reafirmar que o interesse nacional e nossa economia não dependem do desmatamento, assim como no passado se teve coragem de fazer contra a escravidão, mesmo que de forma tardia e com tantos custos à humanidade. 

Sérgio Leitão, advogado, é fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas, que desenvolve estudos e análises sobre economia e meio ambiente para viabilizar o desenvolvimento sustentável. 

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