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Um olhar sobre o debate de segurança pública nas redes


Brasileiros estão preocupados com tiroteios, homicídios e violência de gênero, mostra análise de 43 mil tweets da FGV-DAPP; esquerda e direita não dividem pauta de consenso

Em meio às incertezas que marcam a campanha eleitoral deste ano, já é possível apontar algumas tendências consolidadas. E uma delas é, sem dúvida, o papel central que a segurança pública ocupa hoje nas preocupações dos brasileiros — e que, portanto, deverá estar na agenda do próximo governo. Análise recente da FGV-DAPP no Nexo mostrava que o tema, junto com corrupção e economia, dominava o debate sobre políticas públicas e eleições no começo de agosto. Mas quais têm sido as demandas expressas pelos cidadãos dentro deste grande tema que é a segurança pública e as diversas violências que acometem seu cotidiano?

Uma análise de cerca de 43 mil interações de usuários com os presidenciáveis no Twitter nos últimos três meses, de 24 de maio a 22 de agosto, revela que três temas foram os principais motivadores de engajamento no período: “tiroteio”, reflexo de rotina cada vez mais frequente, sobretudo nas grandes cidades; “homicídios”, cuja tendência de crescimento na taxa por 100 mil habitantes por ano se manifesta na sensação de insegurança e medo dos brasileiros; e “violência de gênero”, que mobiliza público crescente no debate sobre suas causas e efeitos.

Por outro lado, percebe-se o impacto que o debate eleitoral vem tendo nas discussões sobre segurança. A apresentação dos programas de governo pelas candidaturas registradas no início de agosto, e a repercussão gerada pela cobertura da imprensa nesse sentido, motivaram um aumento das menções à categoria “debate geral”, que aborda questões genéricas baseadas nos planos de governo dos candidatos, e à “priorização de recursos”, que reúne manifestações sobre a necessidade de melhores escolhas na alocação dos escassos recursos do setor.

 

As interações no período analisado tiveram como principal impulsionador Jair Bolsonaro, cujos seguidores responderam por mais da metade do engajamento observado, sobretudo nos temas “tiroteio” e “debate geral” — este último inclui, entre outras, as propostas do candidato de reforma da Lei de Execução Penal e flexibilização do desarmamento. João Amoêdo, o segundo nesse quesito, motivou aproximadamente 18% das interações, principalmente devido à ênfase ao debate sobre “priorização de recursos” e à crítica à corrupção. Guilherme Boulos, o terceiro (com 11%), liderou mobilização na esquerda em temas como homicídios e violência de gênero.

 

O recorte das interações dentro de cada tema reforça a consolidação das agendas nos campos da direita e da esquerda. A temática de “tiroteio”, mais uma vez, é praticamente dominada pelos seguidores de Bolsonaro, bem como “debate geral”, indicando o predomínio que as propostas do campo conservador têm obtido no debate sobre segurança. A discussão sobre homicídios é dominada, por sua vez, por seguidores de Boulos e Lula (então pré-candidato). A temática de “violência de gênero” é dividida entre o candidato do PSOL e Bolsonaro, reflexo da polarização que tem marcado essa discussão. A candidata Marina Silva, que teve destaque no tema após os primeiros debates, não aparece em evidência devido ao desempenho fraco do seu perfil na rede. Por fim, o debate sobre “priorização de recursos” tem em Amoêdo seu protagonista (entre as interações no Twitter no período analisado, vale sempre ressaltar).

 

As interações entre os seguidores dos então pré-candidatos à Presidência revela, portanto, um predomínio de temas vinculados à percepção de segurança dos cidadãos. Os casos, sobretudo de tiroteio, homicídio e violência contra a mulher, são um retrato fiel da realidade de medo e insegurança que uma parcela crescente da população brasileira vivencia. No último mês, observa-se um aumento do debate em torno das propostas expressas pelos candidatos em seus programas oficiais de governo — e de sua repercussão no noticiário e no debate de forma geral. No entanto, essa discussão ainda é bastante marcada pela oposição entre as perspectivas dos campos da direita (em maior volume) e da esquerda, sem indícios de uma convergência em torno de uma pauta de consenso.

Danielle Sanches é doutora em história das ciências (EHESS e Fiocruz) e pesquisadora na FGV-DAPP.

Andressa Contarato é estatística e pós-graduanda em finanças (UFF) e pesquisadora da FGV-DAPP.

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