Lucas Calil e Dalby Dienstbach

23 Set 2018

‘Bozonaro’, ‘Luladrão’, ‘Cironel’: alcunhas e apelidos criados nas redes têm força na condução dos debates políticos, ultrapassando os próprios espaços da internet

Não se sabe ainda quem vencerá as eleições presidenciais deste ano, mas, qualquer que seja o resultado, o novo presidente será chamado por mil alcunhas e apelidos. As contínuas oscilações no debate público das redes sociais no Brasil, de importância bastante superior à que representaram para as eleições de 2014, estão produzindo em sucessão um sem-número de variações para que apoiadores e críticos se refiram aos presidenciáveis. Por motivos diferentes, manifestam de forma criativa o ponto de vista do eleitorado, que lança mão de estratégias discursivas específicas para se posicionar no espaço abrangente da internet, por intermédio da linguagem.

Desde o início de setembro, múltiplas redes de discussão sobre os candidatos à Presidência, no Twitter, no Facebook e nas demais plataformas, ampliaram a adoção de apelidos sarcásticos para se referir a Jair Bolsonaro. Críticos intensificam a recusa em citá-lo pelo nome de batismo, e perfis pró-Bolsonaro, em resposta, enaltecem qualidades do candidato. Fenômeno semelhante ocorre com Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Fernando Haddad (e Lula) e com os outros candidatos, embora com menor intensidade que em relação a Bolsonaro, até pela diferença de impacto passional (favorável e crítico) que ele suscita, se comparado aos demais candidatos.

 

São dois os elementos principais que orientam essa "retórica de mil nomes": o aspecto político e o aspecto linguístico, ambos articulados para produzir na internet os objetivos discursivos desejados pelos perfis. Do ponto de vista linguístico, os apelidos atribuídos aos presidenciáveis obedecem a alguns princípios, não são aleatórios. Em síntese, são entendidos como metonímias — ou seja, processos de significação nos quais há a integração entre dois ou mais “conceitos” que apresentam relação entre si. Podem representar, por exemplo, a composição entre um fragmento do nome “de batismo” e um valor (de função positiva ou negativa) atrelado a esse fragmento, unindo espaços conceituais de sentido: “Bozonaro”, “Luladrão”, “Cironel”.

Em outra possibilidade, há a completa substituição do nome do candidato por um apelido que, a partir da situação contextual do debate público, permite que o ator político que se deseja mencionar seja identificado. Novamente, com a atribuição de um “efeito de sentido a mais” à referência nominal aos presidenciáveis — o “capitão” ou o “inominável”, usados para descrever Bolsonaro; o “poste”, usado negativamente sobre Fernando Haddad em associação a Lula; o “chuchu”, ligado a Alckmin há anos. Essa estratégia depende da existência de alguma identidade semântica entre nome e apelido, o que pode incluir aspectos como características físicas, atributos comportamentais, informações da vida pessoal dos candidatos, como o lugar de origem, a profissão etc.

 

Ao fazê-lo, o cidadão modifica as discussões sobre os candidatos na rede. Tanto as relações que essas referências evocam quanto os valores que as relações adquirem histórica e culturalmente ao longo dos usos moldam os sentidos que damos aos apelidos. A contínua associação entre o nome de um ator político e a violência, a corrupção, a inexpressividade ou o destempero exerce força na condução dos debates políticos, por vezes ultrapassando os espaços próprios das redes sociais. Com isso, a discussão sobre os candidatos passa a incorporar uma carga semântica mais sofisticada, mais rica e, com certeza, mais forte, quanto ao discurso.

No universo de grupos de discussão das redes, em especial no Twitter, os apelidos produzem diferentes efeitos: de um lado, podem ampliar a formação de bolhas, as chamadas “câmaras de eco”, no debate. Ao evitar mencionar um candidato pelo nome, um conjunto de perfis consegue se manter afastado de seus seguidores (evitando confrontos), restrito a outros perfis que compartilham dos mesmos valores. Há menos intercâmbio de interações entre lado A e lado B. Também apelidos são recursos para que o cidadão possa se fazer manifestado em suas opiniões, com a incorporação de uma crítica ou de um elogio ao ator político, assim como são demonstrações públicas de esperteza e perspicácia — caso o apelido seja incorporado por outros perfis e influenciadores do debate.

Tende a aumentar ainda mais, nas próximas semanas, a batalha de apelidos na web. Na definição dos votos, qualquer estratégia de apoio é bem-vinda, e os candidatos inclusive se apropriam de práticas espontâneas do debate para impulsionar o próprio alcance: foi o que Marina fez ao adotar a hashtag #elasim, contrapondo-se às narrativas dedicadas à negação de Bolsonaro mobilizadas pela hashtag #elenão. Acirra-se a polarização e, com esta, as manifestações passionais do debate, que se afastam da aparente “neutralidade” do uso habitual dos nomes. São mais vozes querendo se posicionar, e com mais impacto, no espaço quase infinito das redes sociais.

Lucas Calil é doutorando em linguística (UFF) e pesquisador da FGV-DAPP.

Dalby Dienstbach é doutor em linguística (UFF) e pesquisador da FGV-DAPP.

Este texto é parte de um projeto de parceria do Nexo com núcleos e institutos acadêmicos que vão analisar semanalmente os seguintes temas durante a campanha eleitoral: a eleição parlamentar, a agenda urbana e social e o comportamento dos eleitores na internet.

A DAPP (Diretoria de Análise de Políticas Públicas) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) publica às segundas-feiras análises sobre o comportamento dos eleitores na internet.

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