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Robôs e desinformação nas redes: o que já se sabe nas eleições 2018


Diferentes casos apontam para um complexo panorama, influenciado por um cenário político polarizado e fragilizado no que diz respeito à confiança nas instituições democráticas

Na era da pós-verdade, pouco se sabe ainda sobre o impacto real da desinformação nas escolhas políticas, e se podem, por si só, alçar ou minar nomes aos postos mais altos do Executivo. Mas o fato é que chegamos às eleições 2018 no Brasil com uma bagagem de experiências eleitorais, das Américas ao Oriente, no que concerne às interferências ilegítimas no debate público.

Tida como a mais polarizada em décadas, a eleição presidencial deste ano percebe-se, até o momento, como um pleito em que a presença de contas automatizadas, os chamados robôs, nutre-se da divisão do debate nas redes. Nas últimas três semanas, a FGV-DAPP observou que o percentual de interações (retuítes) motivadas por robôs nas discussões sobre os presidenciáveis manteve-se acima dos 10%, e o volume absoluto destes tem aumentado consecutivamente, alcançando um total de 3.258 contas no último levantamento — a despeito dos esforços que a própria plataforma vem empreendendo.

 

 

Um olhar mais detalhado mostra ainda que estas interferências promovidas por robôs ocorrem muitas vezes de forma articulada e sincronizada, a partir de botnets (redes de robôs). Ainda no período de pré-campanha, ao menos três redes de robôs foram responsáveis por publicar em uma semana 1.589 tuítes. As mensagens buscavam, de forma geral, impulsionar e/ou desmobilizar candidaturas, principalmente nos núcleos de maior polarização: Jair Bolsonaro-Lula/Haddad.

Já em momentos de debates mais orgânicos, como a mobilização da hashtag #elenão — nascida no movimento feminista contrário a Jair Bolsonaro e depois ampliada em menções de apoiadores e de artistas em oposição —, verifica-se tendência oposta. Entre 12 e 24 de setembro, enquanto mais de 73 mil usuários retuitaram sobre a temática, apenas 164 contas automatizadas fizeram o mesmo, representando 0,22% do debate.

Mas se ainda não se notou uma distribuição automatizada e em massa de notícias falsas, a desinformação ao longo da corrida eleitoral esteve presente por outros caminhos, seja em redes fechadas, como o Whatsapp, ou mais abertas. Na semana do ataque a faca contra Bolsonaro, o maior núcleo de interação no debate (64,4% do total de perfis orgânicos), e também o de maior organicidade (com apenas 0,9% das interações automatizadas), uniu-se em torno da oposição ao candidato e parte dos perfis manifestou suspeitas sobre a veracidade do episódio, entre elas a de que o próprio candidato teria planejado o ataque contra si.

Nos últimos dias, notícias de que a revista Veja teria recebido R$ 600 milhões para difamar Jair Bolsonaro tiveram grande repercussão nas redes. Desde o dia 24 de setembro, quando o boato começou a circular, foram identificados 16 links sobre o caso que mobilizaram 117,6 mil interações no Facebook e Twitter, nenhum deles de veículos da imprensa tradicional.

Análise da FGV-DAPP em parceira com a agência de fact-checking Lupa mostra ainda que ao menos três notícias falsas estiveram entre os links com maior engajamento nas redes sociais em debates que vão da imigração à segurança pública. O levantamento tem objetivo de mensurar o alcance da desinformação em determinados debates — projetos de checagem como Fato ou Fake, Comprova e Truco, assim como as agências Lupa e Aos Fatos, têm monitorado e investigado uma série de informações enganosas ao longo da campanha.

Na repercussão do primeiro debate presidencial, transmitido pela Band, uma notícia de que o Twitter teria removido hashtags de apoio a Bolsonaro teve quase 13 mil interações no Facebook, figurando entre os dez principais links. No Twitter, foram 32 mil referências à suposta “derrubada”.

 

Situação semelhante foi verificada pelo Digital Forensic Research Lab, do Atlantic Council, parceiro da FGV-DAPP na Sala de Democracia Digital #observa2018, nas discussões sobre corrupção. Entre as 20 notícias sobre o tema com maior engajamento no Facebook e Twitter ao longo dos últimos seis meses, quatro eram imprecisas, e dentre as quatro mais populares, três apresentavam dados incorretos, atraindo mais engajamento nas redes sociais do que links de fontes confiáveis.

Os diferentes casos apontam para um complexo panorama, profundamente influenciado por um cenário político altamente polarizado e fragilizado no que diz respeito à confiança da população nas instituições democráticas. A concentração de desinformação nos grupos de maior polarização reforça o isolamento ideológico. Narrativas criadas a partir de notícias falsas e a amplificação ilegítima, por meio do engajamento de bots, intensificam a discussão polarizada e dificultam o crescimento da diversidade orgânica que poderia subverter a discussão dual, observada desde 2014.

O avanço da desinformação, impulsionado seja por indivíduos ou robôs, envolvendo lucro ou não em sua produção, impõe desafios para a sociedade. E tal qual a multiplicidade de nuances desse fenômeno é a variedade de estratégias necessárias para contê-lo. A bagagem, ao final das eleições 2018, terá mais peso para indicar respostas.

Thais Lobo é jornalista com MBA em marketing digital e pesquisadora da FGV-DAPP.

Danilo Carvalho é publicitário, programador e pesquisador da FGV-DAPP.

 

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto grafou de forma incorreta a hashtag #elenão. A informação foi corrigida às 12h05 de 1º de outubro de 2108.

 

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