Ir direto ao conteúdo
Foto: Bruno Kelly/Reuters

Qual é — e qual deveria ser — o tamanho do Brasil no mundo?


Ideia de um “país grande” vem de longe. Mas intelectuais e instituições ainda não ofereceram um projeto de nação atualizado aos desafios contemporâneos

“Geisel fez aquela política do Brasil Grande, a Dilma faz um programa de Brasil Grande. Não deu certo com ele, não voltou a dar certo, nunca vai dar certo”

José Alexandre Scheinkman
economista

A inserção do Brasil no time das grandes nações que decidem os destinos do mundo sempre foi uma obsessão de quem pensa o futuro do país. Mesmo em tempos de autoestima comprometida pelo pessimismo reinante, é bom informar que existe quem se preocupa com o que vai nos acontecer um dia depois de amanhã. E fazem isso tanto no plano individual, na qualidade de intelectuais, como no âmbito dos órgãos de estado. É salutar saber o que andam pensando sobre as nossas vidas e quais são os planos que idealizam para que o país alcance a projeção do seu poder na arena internacional.

Por aqui, o pensar no futuro sempre se traduziu na busca por eliminar as chamadas assimetrias, econômicas, militares, educacionais, que separam o Brasil dos países desenvolvidos, como é o caso dos Estados Unidos, dos integrantes da União Europeia, bem como China e Rússia. Todos eles são dotados de poderio econômico e militar para fazerem valer seus interesses (a China com mais poder econômico do que militar, a Rússia com mais poder militar do que econômico).

A necessidade da eliminação dessas assimetrias sempre se alimentou do que Oliveiros S. Ferreira chamou da “noção de equilíbrio regendo as relações internacionais”, base da política da balança de poder, a qual o país precisava buscar para se afirmar como soberano de fato e de direito.  Primeiro, perante Portugal, para consolidar a independência, depois, em face da Inglaterra, senhora dos mares e do comércio internacional, e, por fim, diante dos Estados Unidos, o último grande império.

Para tanto, o que se vem fazendo desde o período colonial na tentativa de superar essas assimetrias é construir projetos que permitam ao Brasil fazer valer no jogo das disputas entre as nações o peso do seu território e da sua imensa base de recursos naturais, elementos clássicos que, ao lado do populacional, impulsionam até hoje o processo de desenvolvimento do país.

Como aponta Miriam Dolhnikoff: “no decorrer dos dois últimos séculos, diversos intelectuais atuaram na cena política brasileira, munidos de um projeto nacional, empenhados em apresentar soluções à modernização do país. Esses projetos, usualmente formulados segundo os parâmetros das doutrinas então vigentes na Europa ou nos Estados Unidos, aparecem como o produto de um saber pouco acessível à maioria da população e destinados a salvar o país da barbárie”.

A historiografia brasileira mostra que esses projetos de desenvolvimento não só eram pouco acessíveis à maioria da população, como muitas vezes exprimiam visões de país profundamente divergentes, o que levava muitos deles a contrariar interesses econômicos fortemente arraigados. Na verdade, o conteúdo desses projetos revelava um verdadeiro caldo de percepções e diagnósticos contraditórios acerca do modo como o país poderia alavancar o seu processo de desenvolvimento, que não raro estavam longe de serem aceitos como a base comum para a construção de um projeto nacional.

Exemplo disso é que, em 1823, um ano depois de declarada a independência, José Bonifácio apresentou à Assembleia Constituinte um projeto de emancipação da escravatura que só veio a ocorrer em 1888, 65 anos depois. O patriarca da independência dizia que o Brasil não precisava da escravidão, que ele chamava de comércio de carne humana, “para aumento da sua agricultura e povoação”. Justamente o contrário do que diziam os representantes dos fazendeiros incrustados no Parlamento da época (mostrando que a bancada ruralista é tão antiga quanto o Brasil), que alegavam que o país pararia sem o braço escravo a lhe mover as engrenagens.

De lá para cá seguimos na disputa renhida entre intelectuais, grupos de pressão e instituições que procuram ditar os projetos que irão conduzir o Brasil ao pódio de uma nação pujante. Houve, nesse meio-tempo, um notável alargamento do leque de temas sobre os quais incidem as divergências, tais como: grau de intervenção do Estado na economia, realização de uma reforma agrária para distribuir terra, exploração do petróleo sob o regime de monopólio estatal etc.

O Brasil precisa aprender com sua história, seus erros e tentar idealizar seus projetos de desenvolvimento de maneira a garantir que não chegue mais uma vez atrasado no futuro que os demais países já alcançaram

Até aí não haveria nenhum problema, visto que não há nada de mais em querer um país mais bem educado, com todo mundo empregado, transporte público de qualidade e índices escandinavos de segurança. O questionamento se inicia quando se propaga o dogma de que só há uma via para se fugir da barbárie, que passa exatamente pela idealização de um Brasil grande que nos redima de um passado de inferioridade, ancorado em projetos econômicos que provocam alto impacto ambiental e social e que teimam em repetir os erros do passado.

Esse messianismo não é novo e nem original. O lema do “Brasil Grande” já havia sido entoado pelos governos militares a partir de 1964 quando vivemos o milagre econômico, que impulsionou a abertura de estradas na Amazônia e a construção de usinas hidrelétricas e atômicas, tecnologia símbolo de poder à época.

Porém, já chegou o tempo dos nossos intelectuais atualizarem os instrumentos de bordo com que predizem o futuro do país. No cenário atual, eles precisam identificar os fatos portadores de futuro que podem ajudar o Brasil a se posicionar no contexto de uma economia que precisa se reinventar para funcionar de forma radicalmente diferente. E aí é preciso que respondamos a uma série de perguntas, como as que o empresário José Majolo levantou. Onde seremos bons? O Brasil vai ter o seu Vale do Silício? Vai competir com a Índia em informática? Teremos fôlego para encarar a disputa com a China pela indústria pesada, que fica cada vez mais desigual dado o poderio econômico do gigante asiático? Se não vai ser nada disso, vamos fazer o que então? Ainda faz sentido o ideário de um país autárquico, que por ser grande, rico em recursos naturais, com grande população, quer produzir tudo localmente?

Esses são os questionamentos que precisamos endereçar aos intelectuais e instituições que pensam o nosso destino em um mundo com novos atores de peso no cenário mundial, como é o caso de China, Índia, sem contar a concorrência tradicional da Europa e dos Estados Unidos. O Brasil precisa aprender com sua história, seus erros e tentar idealizar seus projetos de desenvolvimento de maneira a garantir que não chegue mais uma vez atrasado no futuro que os demais países já alcançaram.

Se não é para reincidir nos pecados de sempre, afinal é preciso ter a esperança de não cometermos os mesmos erros do passado, precisamos nos questionar: em que o Brasil será grande?

 

Sergio Leitão é advogado e  diretor do Instituto Escolhas

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: