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Foto: Francisco Osorio/Flickr/Creative Commons

Por que os brasileiros que vivem em Berlim votaram diferente?


Ideias sobre como a capital alemã não entrou na onda em favor de Jair Bolsonaro e ficou mais próxima do Ceará do que de São Paulo ou Brasília

Em 2018, mais de 500 mil eleitores estavam aptos a votar para presidente e os mais de 25 mil brasileiros registrados na Alemanha foram convocados a exercer o seu dever democrático. Durante todo o domingo, em 7 de outubro, a movimentação foi intensa nas embaixadas, consulados e outros locais de votação pelo mundo.

Antes de acabar a votação em Berlim, grupos de WhatsApp divulgavam os resultados das urnas em outros países. Cidades do Japão, China, Austrália e Nova Zelândia, já faziam o prelúdio do que viria acontecer no país. A votação, com ampla maioria para Jair Bolsonaro, indicou que haverá segundo turno. Mas se dependesse dos brasileiros no exterior, o candidato teria ganhado em primeiro turno. Algumas cidades chegaram a dar 70% dos votos ao candidato de extrema direita. Em imagens postadas nas redes sociais, durante a votação em Miami, brasileiros entoaram o hino nacional e gritavam “mito” e em Portugal houve quem fosse vestido com a camisa e fez o gesto de arma associado ao candidato do PSL.

É preciso olhar a fundo a curiosa história de Berlim nessas eleições. A cidade teve um aumento de 34% de brasileiros que se registraram para votar desde 2014, segundo uma entrevista do embaixador Mario Vilalva para a Deutsche Welle. No início da tarde de domingo, a fila chegou até a altura da embaixada chinesa, que fica no final da rua. O clima era de descontração: alegre e bem familiar. Para quem mora no exterior, é dia para encontrar e para rever amigos - ou pelo menos costumava ser.

“De jeito nenhum! Não voto no racismo”, disse uma brasileira tímida na fila, enquanto aguardava sua vez de votar. “No coiso, não! Niemals (nunca, em alemão)!”, repetiu a senhora ao lado. A votação seguiu tranquila e horas depois veio o resultado.

Segundo informações do site Deutsche Welle, os brasileiros domiciliados em Berlim deram 36,3% dos votos válidos para Ciro Gomes; 21,8% para Fernando Haddad. Em terceiro lugar, Jair Bolsonaro ficou com 21,2%. Em outras cidades alemãs, o cenário foi um pouco diferente. Em Hamburgo, os brasileiros votaram 33,5% em Bolsonaro; 31,9% em Ciro; e 14,4% em Haddad. Resultado muito parecido com o de Frankfurt, onde Bolsonaro obteve 40,8% dos votos; Ciro Gomes, 19,1%; Fernando Haddad, 14,7%.

Por que Berlim é tão diferente? Talvez a resposta esteja na história e no momento atual que vive a cidade. Berlim é uma das metrópoles mais multiculturais da Europa e renasceu das cinzas — literalmente — em um doloroso processo de duas fases. A primeira veio após a Segunda Guerra Mundial: a segunda, depois da reunificação da cidade que foi o  símbolo máximo da divisão entre comunismo e capitalismo. Em uma Alemanha cheia de incertezas sobre o futuro, Berlim prepara-se para celebrar 30 anos desde a queda do muro, a serem comemorados em 9 de novembro de 2019.

Atualmente, a metrópole germânica é um microcosmo do mundo. Turistas que visitam a cidade desfrutam de sua intensa vida noturna, dos pontos turísticos e também prestam homenagens às vítimas das atrocidades cometidas ali no passado. É uma cidade que vivenciou os extremos. Ela foi a sede do governo que implementou o mais perverso sistema de extrema direita e facista já registrado na história da sociedade ocidental.

A memória do regime autoritário continua viva. Por terem passado por experiências totalitárias e por estudarem esses fenômenos, crianças, jovens e adultos na cidade reconhecem com maior facilidade discursos fascistas e anti-democráticos

Também foi de onde partiram as ordens da ditadura comunista coberta pela cortina de ferro soviética. As marcas de tiros dos conflitos da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria ainda estão presentes em alguns prédios no centro histórico. Pedaços do muro espalhados pela cidade explicam esse passado.

A alguns poucos quilômetros da embaixada brasileira, em frente à Universidade Humboldt, uma pequena janela no chão revela uma sala vazia. Em frente à universidade, essa sala relembra o vazio de uma biblioteca cujos livros foram queimados, em uma tentativa de calar o conhecimento.

A memória do regime autoritário continua viva. Por terem passado por experiências totalitárias e por estudarem esses fenômenos, crianças, jovens e adultos na cidade reconhecem com maior facilidade discursos fascistas e anti-democráticos. A história nunca foi negada e as memórias estão presentes em todo lugar.

Provavelmente por conta disso, falas como a do candidato Jair Bolsonaro apelam menos para os brasileiros que vivem nessa cidade. Seu discurso soa igual aos textos escritos nas placas e nas paredes espalhadas pela cidade. Berlim conhece o autoritarismo e o fascismo. Dá a ele o seu devido nome — sem meias palavras. Negar o Holocausto na Alemanha é crime.

Os brasileiros em Berlim sabem de todos os desencadeamentos que destruíram a cidade em que eles têm tanto orgulho de viver. Na primeira metade do século 20, em Berlim, minorias eram presas, mandadas para campos de concentração e mortas. Atualmente, mais de 50 monumentos celebram a diversidade dos grupos sociais na lista de extermínio nazista e comunista.

Recentemente, quando o partido Alternativa para a Alemanha, a  AfD, de extrema direita, ocupou cadeiras no Parlamento alemão, berlinenses foram às ruas protestar: 6.000 simpatizantes da AfD foram eclipsados por mais de 25 mil  pessoas com cartazes “Wir sind Stärker!” (somos mais fortes).

A cidade luta diariamente contra o fascismo e o racismo, ainda muito presentes, mas procura, acima de tudo, promover o diálogo contra a intolerância. Em um período de incertezas políticas dentro da Europa, marcado pelos efeitos do Brexit e pelos milhões de refugiados vindos de zonas de conflito, a capital alemã vai na contramão dos extremismos e do populismo. Talvez seja hora dos brasileiros olharem um pouco para as experiências dos conterrâneos em Berlim.

Assim como os demais imigrantes, os brasileiros residentes no exterior são moldados pelas sociedades em que vivem. Para aqueles em Berlim, não existe meio fascista, meio racista, ou meio autoritário. A indiferença da maioria das famílias alemãs permitiu que judeus e outras minorias fossem assassinados nos campos de concentração e que dissidentes políticos apodrecerem nas prisões e gulags soviéticos. Para a maioria desses brasileiros, o que existe hoje nas desculpas daqueles que não se importam com as falas do candidato é uma coisa só: cinismo.

AD Junior é comunicador e ativista, e vive na Alemanha desde 2008

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto citava uma entrevista do embaixador Mario Vilalva como tendo sido dada ao portal Terra. Na verdade, ela foi concedida à Deutsche Welle, e republicada por outros veículos de comunicação. A informação foi corrigida às 14h39 em 15 de outubro de 2018.

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