Foto: Vinícius Mendonça/Ibama/Creative Commons

Os efeitos perversos da ‘cruzada contra o globalismo’


Desprezo por instituições multilaterais e pelo sistema do pós-guerra está corroendo o caminho para o desenvolvimento sustentável

Velhas ideias travestidas de novas ideologias são, mais uma vez, manipuladas por líderes populistas e grupos religiosos, promovendo o obscurantismo e o individualismo, colocando em risco o modelo de prosperidade, cooperação e paz global forjados por décadas. A história conta como esses ímpetos e movimentos emergem, porém suas consequências em um mundo altamente interdependente são difíceis de prever. Ameaças globais - como as mudanças climáticas, a desigualdade, o crescimento populacional e a fome – dificilmente sairão da agenda, mas o enfrentamento a elas pode sofrer retrocessos, com altos custos a serem pagos.

Vivemos um período de questionamentos, de dúvidas e frustrações com a forma como a sociedade global está estruturada. A crise econômica e moral de 2008 tem gerado efeitos sobre a relação das pessoas com a economia, com o sistema de representação político. E fomentou uma impaciência com a democracia. Desemprego e recessão, revanchismos e polarizações, superficialidades e mentiras são o combustível para a ascensão de movimentos e governos nacionalistas. A agenda social-democrata e “globalista”, surgida no pós-guerra e acelerada com o fim da Guerra Fria, está sendo frontalmente atacada. Há um desprezo pelo caminho que nos trouxe até aqui. Há uma negação de “tudo isso que está aí”, como as instituições, a governança global, o modelo multilateralista, a formação de consensos, o caminho árduo, porém duradouro, de construir confiança.

Assistimos ao fortalecimento de uma visão de mundo conservadora e nacionalista. O indivíduo e sua pátria são colocados “em primeiro lugar”, acima da visão humanista dos direitos universais do homem e dos bens públicos globais. A ameaça e culpa estão nos outros. No roubo de empregos pelos países asiáticos, na imigração de indivíduos indesejáveis do sul, na perda de competitividade produtiva com os encargos e requisitos, sem contar no risco à soberania. Tudo isso parece um roteiro para um improvável filme, mas que tem levado ao poder grupos nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Polônia, na Itália e no Brasil.

A vocalização de insatisfações por grupos diversos é positiva e natural. Porém jogar toda a trajetória fora é desconsiderar mudanças irreversíveis e inexoráveis. É possível se beneficiar da globalização sem promover regras do jogo globais? A crítica ao “globalismo” se apresenta inócua quando considerado o nível de integração de cadeias produtivas, a circulação de capitais financeiros e a consolidação de grandes produtores globais.

Quem cuidará da “casa comum” da vida no planeta, se formos incapazes de olhar além de interesses próprios, de ganhos rápidos, “não importa o resto”?

O nacionalismo obscurantista tem potencial de colocar Estados relevantes em rota de colisão com temas globais urgentes e muito caros à vida no planeta. Se direitos civis e sociais são questionados internamente, temas como direitos humanos, saúde global, meio ambiente e mudanças climáticas são acusadas de interferências de jurisdição ou de alarmismos descabidos que atrapalham o progresso nacional. A realidade é outra. Os efeitos sobre o capital natural não respeitam a lógica de fronteiras nem retóricas vazias. A finitude de recursos traz desafios de realocação de capitais e distribuição. Os serviços ecossistêmicos são interdependentes. Quem cuidará dos bens públicos ambientais globais como os mares, geleiras, atmosfera e o espaço? Quem cuidará da “casa comum” da vida no planeta, se formos incapazes de olhar além de interesses próprios, de ganhos rápidos, “não importa o resto”?

As mudanças do clima devem ser consideradas o maior desafio global de nossos tempos. De acordo com recente relatório científico (IPCC 2018), é alta a probabilidade de termos impactos reais causados por elas. Que fique claro: as mudanças do clima já estão ocorrendo e aqueles que não atuarem para conter o seu avanço serão parte da causa e também sofrerão suas consequências. Não se trata, portanto, de um “dogma científico” como proclamado por poucos céticos. Muito menos de uma conspiração global ou uma agenda sequestrada por grupos corporativistas. É um problema real, que requer cooperação e governança global para minimizar os efeitos sobre os menos afortunados.

Devemos duvidar de respostas fáceis. Populismo e protecionismo não são os remédios necessários. A defesa de organizações internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas) ou UNFCC (sigla em inglês para Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima) desperta bem menos interesse e rende menos votos do que um ataque ao sistema internacional, às organizações estrangeiras. Entretanto, o sistema internacional indica caminhos positivos a serem explorados, novas oportunidades a serem desenvolvidas. A Agenda 2030, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, é um guia a ser compreendido e adotado.

O momento da história requer ações coletivas que sejam suficientes e efetivas para endereçar os enormes desafios frente à humanidade. A sociedade brasileira e suas instituições devem estar vigilantes a conter eventuais desequilíbrios. Não há espaço para distrações ao desenvolvimento sustentável.

Luiz Eduardo Rielli é formado em relações internacionais pela Universidade de São Paulo e mestre em economia ecológica pela Universidade de Edimburgo. É diretor da NOVí, consultoria em desenvolvimento sustentável

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