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Os diferentes projetos econômicos refletidos no debate na rede


Interações no Twitter mostram oposição clara entre um campo mais liberal, em que se destacam Jair Bolsonaro e João Amoêdo, e outro mais ligado à esquerda, tendo Ciro Gomes como principal ator

Os dois anos de retração econômica atravessados pelo Brasil em 2015 e 2016, somados à lenta recuperação no último biênio, tornaram a economia um dos temas mais importantes (senão o principal) nas eleições de 2018. Questões como a alta taxa de desemprego e os altos impostos são as que mais mobilizaram usuários de redes sociais nos últimos meses. E, desde o início oficial da campanha, isso não tem sido diferente, com a economia pontuando não só entre os destaques nas redes, mas também como um dos assuntos mais explorados pelos candidatos, oferecendo indicadores sobre as principais controvérsias colocadas no debate público.

A FGV-DAPP analisou 253 mil interações (retuítes) entre 11 de agosto e 11 de setembro sobre o debate econômico no Twitter dentro do contexto eleitoral. O mapa de interações indicou a presença, hoje, de cinco grandes grupos de discussão, que refletem as agendas em disputa entre as principais propostas e revelam os candidatos que protagonizam em cada campo.

 

A maior parte do debate, que se organiza a partir do apoio ou rejeição a Jair Bolsonaro, não se debruça sobre as propostas concretas dos candidatos para a área econômica, mas sim pela associação da imagem dos candidatos. Até o momento, Ciro Gomes é o ator que tem conseguido se opor de forma mais clara, dentro do debate econômico, ao candidato do PSL, sobretudo a partir de sua proposta sobre limpar o nome dos brasileiros no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Ciro e João Amoêdo são os candidatos que mais conseguem repercussão em torno de suas propostas econômicas, posicionados em oposição e gerando repercussões positivas e negativas.

 

Conforme apontado pelo gráfico acima, Bolsonaro é o candidato mais mencionado no período, ainda que frequentemente seja associado a seu assessor, o economista Paulo Guedes. Os temas econômicos, ainda que menos frequentes do que os de segurança nas discussões sobre Bolsonaro, vão desde o apoio irrestrito às privatizações, como a da Petrobras, à defesa de mais investimentos públicos em educação e a propostas de alterações em programas sociais, além de críticas ao voto do deputado a favor do teto dos gastos.

No mapa de interações, o maior grupo de discussão foi o rosa (31% dos perfis), sem explícito alinhamento a uma candidatura ou posição partidária, e que se organiza a partir do compartilhamento de conteúdos críticos, sobretudo a Jair Bolsonaro, e de algum apoio pontual a Ciro. O segundo maior grupo, o azul, forma a base de apoio a Bolsonaro, com 27% dos perfis, e concentra o maior volume de interações do debate: 42%. O campo polariza diretamente com o rosa, com tuítes favoráveis ao candidato do PSL, em especial na questão da desigualdade salarial de gênero, motivada pelo confrontamento com Marina Silva.

Em seguida, há dois grupos de igual tamanho em termos de perfis (17%): o vermelho e o laranja. O primeiro teve 19% das interações e gira em torno de perfis de esquerda, como os de Guilherme Boulos, Fernando Haddad, do ex-presidente Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff. Os perfis têm a superação da desigualdade social no centro do debate. O segundo, com 15% das interações, concentra-se em torno de Amoêdo (terceiro candidato mais mencionado no período no debate econômico), defendendo posicionamentos liberais, como a defesa das privatizações e a redução de despesas do governo, com críticas a propostas como o programa Nome Limpo, proposto por Ciro. O grupo também estabelece certa disputa com o espaço das propostas liberais de Bolsonaro e de Geraldo Alckmin.

Por fim, o grupo em roxo, com 6% dos perfis (e 5% das interações), concentra o núcleo de apoio direto a Ciro e compartilha suas propostas, em especial o programa Nome Limpo, que busca tirar pessoas do SPC; a revogação de pontos da reforma trabalhista; e a expansão de políticas já aplicadas no estado do Ceará, sobretudo na área da educação. De forma minoritária, o cluster também conta com compartilhamentos de Marina Silva, por suas posições sobre a necessidade de maiores investimentos na educação (sobretudo na primeira infância).

O debate eleitoral sobre temáticas econômicas coloca, portanto, uma oposição bastante clara entre um campo mais liberal, em que se destacam Bolsonaro e o grupo liderado por Amoêdo — que, embora pontue pouco nas pesquisas de intenção de voto, tem um discurso econômico consolidado —, e um campo mais ligado à esquerda, tendo Ciro por ora como principal ator. O primeiro galvaniza os apoiadores de uma pauta voltada ao mercado, com a redução do papel do Estado como forma de promoção do emprego e redução de impostos. E o segundo tem sido focado na questão do endividamento dos cidadãos e na importância da redução das desigualdades como forma de promover oportunidades para os desempregados.

Wagner Oliveira é doutorando em economia (FGV-EPGE) e pesquisador da FGV-DAPP.

Beatriz Meirelles é mestre em economia (UFF-PPGE) e pesquisadora da FGV-DAPP.

 

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