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Foto: Adriano Machado/Reuters

O tamanho do ‘efeito Bolsonaro’ nas votações para a Câmara


Desfazendo o mito da suposta ascensão meteórica da direita nas eleições parlamentares de 2018

A análise das votações totais nos pleitos para deputado federal nas três eleições mais recentes traz interessantes dados acerca das mudanças no padrão de voto no Brasil. Como já apontado por alguns analistas políticos, há um contínuo crescimento da votação obtida por candidatos de partidos da direita ao parlamento. Com base na classificação de espectro ideológico proposta por Thimothy J. Power e Cesar Zucco Jr no livro “O congresso por ele mesmo: autopercepções da classe política brasileira”, é possível afirmar que a votação somada dos candidatos dos partidos de direita saiu de um patamar de 55,63% dos votos válidos em 2010 para 63,28% em 2018 – alta de 7,65 pontos percentuais. No mesmo período, os candidatos de partidos de esquerda viram sua votação somada cair de 26,04% para 20,04%. Os partidos de centro, por sua vez, experimentaram uma estagnação, com uma leve queda de 18,33% para 16,68%.

Essa avaliação de um período alongado, composto por três eleições consecutivas, ajuda a desfazer o mito da suposta ascensão meteórica da direita nas eleições parlamentares de 2018. O responsável por esse aparente crescimento da direita foi a incrível expansão do PSL - batizada pela mídia de “efeito Bolsonaro”-, que de partido nanico tornou-se a segunda maior legenda do país, com 52 deputados eleitos – apenas quatro a menos que o PT. Ao analisarmos a votação total obtida pelo partido nas eleições para deputado federal, o fenômeno PSL fica ainda mais evidente. Foram mais de 11,4 milhões destinados ao partido (11,65% dos válidos), número consideravelmente superior aos cerca de 10,1 milhões de votos conquistados pelos candidatos do PT (10,30%). Entre as eleições de 2014 e de 2018, o PSL conquistou 10,6 milhões de votos, o que ampliou a votação total obtida pelo partido em expressivos  1.313,26%. 

Mas isso não significa que uma inflexão à direita tenha ocorrido pontualmente nas eleições de 2018. Na verdade, a diminuição da votação obtida por partidos de esquerda (PT, PDT, PSOL, PCdoB e Rede) aconteceu com muito mais intensidade em 2014. Ao compararmos os resultados daquelas eleições com os da de 2010, observamos que a votação total obtida pelos candidatos desses partidos caiu de 26,04% para 21,86% - diminuição de 4,18 pontos percentuais. Em 2018, a votação total dos candidatos de esquerda caiu novamente, porém de maneira menos intensa, ficando em 20,04% do total de votos válidos. Então de onde teriam vindo esses 10,6 milhões de novos votos destinados ao PSL nas últimas eleições parlamentares?

Em sua maioria, do encolhimento do MDB e do ocaso do PSDB. O MDB viu a sua votação nos pleitos a deputado federal sair de 10,8 milhões de votos em 2014 para 5,3 milhões em 2018 – queda de 49,60%. O mesmo aconteceu com o PSDB, que observou os mais de 11 milhões de votos destinados aos seus candidatos em 2014 se transformarem em 5,9 milhões de votos em 2018 – diminuição de 46,66%. Como ambos os partidos são classificados por Zucco e Power como de direita, pode-se concluir que o “Efeito Bolsonaro” se deu primordialmente por meio do remanejamento de votos que anteriormente eram dados a outros partidos de direita.

Há, na verdade, um processo gradual de crescimento da direita, e a novidade que pudemos presenciar em 2018 foi um intenso esgotamento dos partidos tradicionais mais próximos da centro direita

Há, portanto, um visível redirecionamento das escolhas dos eleitores que tradicionalmente votavam em candidatos de partidos da direita. Esses eleitores migraram de partidos mais próximos do centro, representantes do que se poderia chamar de a “velha política”, para a promessa de novidade representada pelo partido de Bolsonaro. Isso significa não exatamente um crescimento da direita, mas sim um realinhamento desse campo rumo à extrema direita. E nesse realinhamento, a influência do “efeito Bolsonaro” parece inquestionável. Dentre os candidatos mais votados do PSL constam nomes como o de Eduardo Bolsonaro (SP), um dos herdeiros políticos do clã familiar desenhado por seu pai; Joice Hasselmann (SP), que se apresenta como “a Bolsonaro de saias”; Hélio Fernando Barbosa Lopes (RJ), que se rebatizou para a campanha como “Hélio Bolsonaro”; e Delegado Waldir (GO), conhecido como o “Bolsonaro de Goiás”. Diversos outros candidatos com votações menos expressivas também se apresentaram ao longo da campanha como “o candidato do Bolsonaro”.

Em conclusão, ainda que o “efeito Bolsonaro” tenha influenciado de alguma forma um crescimento da direita nas eleições para deputado federal em 2018, não há razões para crer que ele tenha de alguma forma acelerado o processo que já vem se consolidando desde pelo menos as eleições parlamentares de 2014. Há, na verdade, um processo gradual de crescimento da direita, e a novidade que pudemos presenciar em 2018 foi um intenso esgotamento dos partidos tradicionais mais próximos da centro direita. Esses partidos tradicionais foram engolidos pelo PSL, com o perfil do eleitor de direita se deslocando intensamente para a extrema direita. Nossos dados confirmam o encolhimento, ao menos momentâneo, dos partidos tradicionais mais classificáveis sob o rótulo de “velha política”, que atingiu de maneira mais intensa partidos de centro direita tais como MDB, PSDB, PP, PR e PSC.  

Vale lembrar, por fim, que os números totais dos votos obtidos pelos partidos usados para esta análise podem sofrer alterações, oriundas de eventuais decisões da Justiça Eleitoral acerca de candidaturas que estão sendo julgadas.

Cristiano Aguiar Lopes é jornalista, doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ.

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