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Foto: Adriano Machado/Reuters

O perigo da bolsonarização da vida


A negação da política, o antipetismo, a militarização e o discurso de ódio embutidos no apoio ao candidato do PSL criam obstáculos à democracia no Brasil

Em 2017, realizei uma intensa pesquisa com simpatizantes de Jair Bolsonaro em São Paulo abrangendo os mais diversos perfis sociodemográficos. Escolhi pessoas que não encaixam na típica denominação do fascista violento. Aquele eleitor desiludido, frustrado, cansado, que vota em Bolsonaro como um “voto de desabafo” deve ser escutado.

O resultado da pesquisa foi o relatório “Crise da democracia e extremismos de direita”, apoiado pela Fundação Friedrich Ebert Brasil. Ao longo deste ano de 2018 continuei conversando com essas pessoas. Foram muitos os aprendizados. O mais tenebroso é escutar nas palavras deles que, ao se sentirem traídos pelo PT e por toda a classe política de forma geral, votam no Bolsonaro por “esperança”.  

É interessante notar que vários  dos entrevistados disseram ter votado no PT nos seus dois primeiros mandatos. Questionados sobre o porquê da mudança, a maioria coincide: Lula estava perto do povo, era carismático, alguém diferente dos políticos de sempre e era honesto. Hoje, mobilizam argumentos muito parecidos para justificar o voto em Bolsonaro: proximidade, carisma e honestidade.

Vou repetir: Bolsonaro é esperança para eles. Eis o nível de nosso abismo.

Exponho aqui meus aprendizados. Quero falar não só dos riscos que supõem Bolsonaro no Planalto, mas do fenômeno que denomino de “bolsonarização” da vida.

A negação da política

Quando os simpatizantes de Bolsonaro são questionados sobre política, os afetos que se mobilizam neles são raiva, desilusão, asco. Vejam bem: sentem isso não só pelos políticos que eles identificam como profissionais e sim pelo próprio fazer político. Entendendo a política como forma coletiva de construção de um presente e um futuro, o que aparece claramente é uma rejeição da importância de agir coletivamente e das instituições. Em paralelo, sobressai o louvor ao discurso meritocrático e à necessidade de um grande pai, um herói, um salvador que vai botar ordem no caos. É a negação da complexidade da política e a afirmação da simplicidade da figura do messias que vai cuidar de nós. É a adesão ao mantra empresarial: “se eu me esforçar na vida, vou conseguir”. Uma total infantilização do processo democrático.

O antipetismo,  o antiesquerdismo, o anti-humanismo

Alguém que não conhecesse Brasil e entrasse num grupo de Whatsapp de eleitores de Bolsonaro pensaria que o PT é um monstro, uma criatura terrível ou um partido de extrema esquerda, totalmente radicalizado. Esse antipetismo, às vezes de conteúdo muito visceral, aparece com força extraordinária nas entrevistas que realizo.  As principais razões são a corrupção, a crise econômica e, claramente, entre as classes médias tradicionais, um sentimento de rejeição à mobilidade ascendente dos mais pobres durante os governos petistas. Demofobia na veia. PT que se confunde com esquerda que se confunde muitas vezes com direitos humanos. Direitos humanos que são para humanos direitos. Bandidos que são tratados como vítimas pelo Estado. Presos que têm direitos demais nas cadeias. Homossexuais que poderão ser aceitos, mas só se ficarem escondidos porque eles se beijando na rua é um exagero e uma ofensa. É exibicionismo. Mulheres feministas nem pensar, porque somos loucas, exageradas, violentas e pouco femininas. Professores neutros e nada de doutrinar as criancinhas na escola. Cuidado com a ideologia de gênero. Cuidado com o kit gay. As cotas são racismo reverso.

A militarização da vida pública

A obsessão do votante de Bolsonaro é a ordem. O país é uma bagunça e precisamos impor ordem. A forma de fazê-lo é trazendo a filosofia militar para a esfera pública. Hierarquia, disciplina, comando, autoridade. Militarização do ensino. Essa lógica é incompatível com a democracia, porque ela enxerga em todo aquele que não seja cidadão de bem um inimigo. E com inimigo não se conversa, aniquila-se.

O discurso de ódio

Talvez a questão mais preocupante da bolsonarização da vida seja o despudor entre algumas pessoas em proclamar discursos de ódio. Durante as últimas semanas têm chegado até mim relatos de exaltação de ódio: mulheres com medo de seus maridos por eles estarem muito mais violentos agora, LGBTs sendo ameaçados nas ruas ao grito “quando Bolsonaro ganhar, você vai morrer, viado”.  A imagem dos candidatos a deputado no Rio quebrando a placa de Marielle Franco representa isso. Ela era mulher negra, periférica, com uma sexualidade que não encaixa nos padrões. Ela era o corpo matável. E ela foi morta de novo com esse ato repugnante. Expressar o ódio virou possível. Essa nova extrema direita transforma o ódio em algo lúdico, bacana, legal.

Ou seja, mesmo não vencendo no segundo turno, a candidatura de Bolsonaro, por meio das pautas que propõe e da própria forma como elas são expressas, já penetraram no debate público brasileiro. A bolsonarização da vida vai além da disputa eleitoral.

Esther Solano Gallego é socióloga, professora de Unifesp e organizadora do livro “O ódio como política” (Boitempo, 2018)

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