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Foto: Ana Volpe/Ag. Senado - 22.02.2013

Facebook: a galinha dos ovos de ouro das eleições proporcionais


Com pouco tempo no horário eleitoral, parca parcela dos fundos partidários e sem espaço na imprensa, candidatos a deputados federais e estaduais não têm opções de canal de comunicação a não ser a rede de Zuckerberg

O papel das redes sociais na eleição que se aproxima é uma grande incógnita. Se até pouco tempo havia grande expectativa de candidatos, analistas e marqueteiros quando à capacidade de elas funcionarem como instrumentos de cooptação eleitoral, depois do escândalo da Cambridge Analytica esse ânimo se arrefeceu bastante. Isso é particularmente verdade porque foi o Facebook, a rede social mais popular do Brasil, o pivô do episódio. Em busca de recobrar sua credibilidade, a empresa de Mark Zuckerberg passou a adotar uma série limitações de conteúdos e de acesso que comprometeu seriamente o potencial comunicativo da rede.

Por outro lado, os candidatos a cargos proporcionais — deputados estaduais e federais — não têm muitas opções de canais de comunicação a não ser o Facebook. Em período de campanha, candidatos podem se comunicar com seus potenciais eleitores por meio de eventos de campanha, horário eleitoral de rádio e TV, notícias na mídia e redes sociais. Contudo, os candidatos a cargos majoritários têm muito mais acesso a esses canais do que aqueles que concorrem aos proporcionais. Esses últimos recebem parca parcela dos fundos partidários — o que limita sua capacidade de fazer propaganda direta —, aparecem pouco no horário eleitoral e são praticamente ignorados pela mídia. Em suma, no plano hipotético, as redes sociais ainda seriam para eles uma opção tentadora.

Um estudo da utilização de mídias sociais por candidatos à reeleição na Câmara dos Deputados no pleito de 2014 (“Duas arenas, uma tendência: personalização da campanha de 2014 para deputado federal nas ruas e nas mídias sociais”, tese de doutorado defendida em julho de 2018 por Marcus Vinícius Chevitarese Alves) mostra uma forte correlação entre o uso do Twitter e o sucesso eleitoral, mas resultados inconclusivos quanto ao Facebook. Quatro anos depois, como estariam se comportando os deputados federais nas redes sociais às portas de uma nova eleição?

Entre 1º e 17 de agosto de 2018, encontramos 433 fanpages de deputados no Facebook, das quais 420 fizeram publicações, representando 81,87% do total de parlamentares na Câmara. Ou seja, a imensa maioria dos deputados tem páginas no Facebook. Contudo, o uso que eles fazem da ferramenta está longe de ser homogêneo, como mostra o gráfico abaixo:

 

Primeiramente, é preciso notar que os dois maiores fenômenos de popularidade na rede, Irmão Lázaro e Jair Bolsonaro, estão se candidatando a cargos majoritários em 2018 — o primeiro, ao senado pela Bahia, e o segundo, à Presidência da República. Mesmo se os retirarmos da lista e considerarmos apenas os deputados candidatos à reeleição, notamos uma concentração brutal de popularidade e atividade para um número muito reduzido de nomes.

Quando olhamos os nomes dos partidos na lista dos campeões do Facebook, notamos uma coincidência grande com a dinâmica da participação dos presidenciáveis na rede. Os estudos do Manchetômetro mostram que o debate eleitoral no Facebook é dominado pelas páginas de Lula e Bolsonaro. A forte presença de PSL e PT na lista dos deputados mostra que o sucesso na rede não se restringe às figuras dos presidenciáveis, mas se distribui, ainda que de maneira limitada, entre outros candidatos desses partidos.

O PT tem estrutura partidária e tradição de envolvimento de sua militância com a internet. Bolsonaro — por seu turno, e não seu partido — é um fenômeno da internet, angariando boa parte de sua popularidade por meio das redes sociais. Nisso é auxiliado por sites e páginas dos grupos da Nova Direita, como o MBL, o Movimento Brasil contra a Corrupção e o Vem pra Rua. Os deputados de maior sucesso de seu partido, inclusive seu filho, são todos ligados à agenda da segurança e defendem soluções de extrema direita para o tema. Ou seja, é possível que eles se beneficiem da sub-rede dos grupos da Nova Direita que militam em torno desse assunto. Não é claro, contudo, de que maneira eles se organizam para obter tamanho sucesso no Facebook.

Chevitarese Alves mostra que, ainda que o sucesso eleitoral não esteja totalmente correlacionado ao Facebook — o que indica que há candidatos que são eleitos sem utilizar intensamente a rede social —, há uma coincidência entre despesas de campanha, presença no Facebook e êxito na eleição. Em suma, mesmo que o Facebook não seja a galinha dos ovos de ouro eleitoral que muitos imaginavam, a performance dos candidatos na rede é um bom preditor de vitória nas urnas.

João Feres Júnior é cientista político, diretor do Iesp-Uerj e coordenador do Manchetômetro.

Marcelo Alves é doutorando na UFF e diretor da Vértice Inteligência.

 

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