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Como e por que vou votar neste segundo turno eleitoral


Este texto circulou originalmente como uma carta em 13 de outubro de 2018. O 'Nexo' publica-o como ensaio nesta versão editada para fins de clareza e adequação de tamanho

Alguns dizem-se surpresos com o meu apoio à candidatura de Jair Bolsonaro. Para desfazer as perplexidades acho importante expressar as minhas razões.

Nas eleições de 2014, concorri pela Bahia ao Senado, estando filiada simbolicamente à Rede, que, sem oficialização, abrigou-se no PSB de Eduardo Campos. O nosso sonho, à época, era cavar a terceira via para, em 2018, termos condições de vencer as eleições: era sabido que Dilma não tinha condições de governar o país por mais quatro anos, como terminou acontecendo.

Infelizmente, Eduardo Campos, que despontou como um líder crescente, ameaçando o PT, acabou morrendo tragicamente e Marina Silva, massacrada publicamente pelo partido da situação, não chegou ao segundo turno. Diante do que vivenciei, dentro dos partidos políticos, dos boicotes aos seus próprios filiados por venda da bandeira partidária a outros partidos, decidi afastar-me da política em definitivo.

Nestas eleições de 2018, com o resultado do primeiro turno, tive algumas surpresas. A mais agradável foi a maturidade do eleitor brasileiro que, do Oiapoque ao Chuí varreu antigas lideranças, arquivou velhas raposas e deu espaço a novos e jovens candidatos que concorreram sem dinheiro e sem espaço partidário, usando simplesmente as redes sociais e a  inteligência. Quero dizer com orgulho que até o Nordeste recebeu esses novos ventos, com algumas poucas exceções, sendo a Bahia um caso à parte, digno de um estudo sociológico em separado.

A segunda grande surpresa foi a manutenção do PT no segundo turno, um partido que, depois de 16 anos no poder, deixou o Brasil em frangalhos, foi publicamente desmascarado como abrigo da quadrilha que devastou os cofres públicos, saqueou as estatais e aparelhou o serviço público, o que valeu a prisão de toda a cúpula, inclusive do seu chefe maior, em julgamento de lisura absoluta, acompanhado ao vivo e a cores por toda a nação.

Para completar, seguiu-se o afastamento da ex-presidente da República, também petista, por um Congresso majoritariamente filiado ao partido da situação, seguindo-se a posse de um vice escolhido pelo PT e por ele apresentado como conveniente, eleito democraticamente na dobradinha da chapa Dilma/Temer.

Esse episódio político foi considerado pelo partido como golpe. Como golpe? Certamente um golpe democrático e constitucionalmente previsto, o que ocorreu porque o impeachment fugiu ao controle das forças dominadoras, que não contavam com o desenrolar dos fatos e a atuação parlamentar, acuada com a mobilização de uma população enfurecida com a escancarada corrupção.

Bolsonaro não seria a minha escolha primeira mas foi o que restou de decência e pudor ao povo brasileiro, diante do que ficou

Depois de desfilar aos nossos olhos os bilhões dos saques e as consequências nas políticas públicas, volta o PT com um candidato que me repugna, como magistrada de carreira, espectadora política e cidadã. Assistimos ao candidato debochando da nação, desrespeitando o Judiciário e empunhando na propaganda eleitoral uma máscara de um presidiário, que foi submetido em três instâncias a julgamentos, inclusive por magistrados que conheço de perto e sei da lisura e competência.

Mas não é só. O partido dito dos trabalhadores, ao sentir que não foi bem sucedido no deboche caricato de Lula-Haddad, Haddad-Lula, rapidamente mudou de tática ou de marqueteiro, passou a abolir a cor vermelha e a estrela da corrupção, aderindo às cores da bandeira brasileira e com o seu candidato posando de bom moço junto a uma destrambelhada garota desajuizada, que não sabe sequer articular as ideias, mesmo que sejam elas boas ou ruins, não diz nada que tenha lógica.

Bolsonaro não seria a minha escolha primeira mas foi o que restou de decência e pudor ao povo brasileiro, diante do que ficou. Acusam-no de fascista porque é militar! E o radicalismo do Partido dos Trabalhadores, o que é? E o apoio dado a conhecidas ditaduras da América Latina e a outras mais longínquas, em detrimento das nossas necessidades básicas de saúde, segurança e educação? Qual o nome que se pode dar a esse fenômeno dito "democrático"?

Não posso mais me enganar, já sei o que é o PT, convivo com ele há 16 anos e sofro as consequências de um país destroçado financeira e eticamente, desacreditado e desmoralizado fora das nossa fronteiras.

Tenho hoje pudor em dizer que pertenço a um país que tem a desfaçatez de permitir que as linhas mestras da política sejam dadas por dois presidiários, ou melhor, dois condenados por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula e José Dirceu, usando mais uma vez a técnica dos factoides, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, dois bobalhões que se submetem ao ridículo com naturalidade.

Esta é a primeira vez que estou revelando as razões de minha postura política. É também um desabafo, o primeiro que faço desde que, na quarta-feira, dia 10 de outubro, atendi ao convite para participar da campanha de um candidato de um partido minúsculo, sem fundo partidário, sem dinheiro de empresário e sem recursos dos cofres públicos, em favor de um candidato ficha limpa que há mais de 30 anos é político e nunca se misturou com a podridão parlamentar usada pelo PT como seu passaporte para os milionários desfalques.

Não consegui encontrar na vida do candidato nada que possa denegrir a sua imagem, senão tolas frases soltas, até pueris ou em tom de bravata, quando se viu acuado pelos adversários e pela mídia que sequer respeitam o seu estado de saúde.

Estou tranquila, estou em paz com a minha consciência e, tenha a certeza: farei o que estiver ao meu alcance para que o Brasil experimente o novo, o mais adequado para esse momento em que estamos pretendendo inaugurar um país com moralidade e dignidade cívica, ingredientes sem os quais de nada valerá fortalecer a economia. Os valores da nação precisam voltar aos seus lugares.

Obrigada pela oportunidade de falar com o coração e dizer, com tranquilidade, que escolhi o que melhor me pareceu, sem estar influenciada por mídia alguma, senão pela minha experiência de vida.

Afinal, “o diabo é sabido não por ser diabo, mas porque é velho”.

Eliana Calmon foi procuradora, juíza federal e ministra do Superior Tribunal de Justiça, além de corregedora do Conselho Nacional de Justiça.

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