Foto: Adriano Machado/Reuters

Como a pós-verdade segundo Bolsonaro é produzida nas redes


Uma análise sobre quatro estratégias fundamentais notadas nos discursos de apoio ao candidato do PSL em grupos de Whatsapp

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Em seu “Tratado Geral de Semiótica”, de 1975, Umberto Eco definia a semiótica como “a disciplina que estuda tudo aquilo que pode ser usado para mentir”. Nunca como hoje essa afirmação revelou-se tão atual. A campanha de Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República, fez da propagação via Whatsapp de boatos e notícias falsas o seu principal estratagema.

Os 49,2 milhões de votos (46,03%) obtidos pelo capitão reformado no primeiro turno da eleição demonstram o quão, até agora, a artimanha tem sido exitosa. O que pode dizer, então, a semiótica dessa profusão de pós-verdades? Como pode ajudar a compreender como e por que somos levados a acreditar em textos, áudios, vídeos e memes vindos sabe-se lá de onde, a achar que tudo o que neles se diz é verdadeiro?

Desde o dia 1 de outubro, venho monitorando grupos públicos de Whatsapp de apoio a Bolsonaro. Ao longo dessas semanas, percebi que existem ao menos quatro estratégias fundamentais por meio das quais a crença na palavra de Bolsonaro é construída.

Uma objetividade aparente

A primeira estratégia visa conferir às mensagens uma aura de objetividade. Tudo o que é produzido segundo essa lógica parece verdadeiro porque aparentemente é objetivo, factual, certo. Cabe precisar, no entanto, que o efeito de objetividade resulta de procedimentos diversos.

Um exemplo é a descontextualização de falas de adversários políticos. Retiradas de seu contexto original, tais afirmações ganham, nos grupos de apoio a Bolsonaro, outro sentido, que reforça e valida o discurso do candidato de extrema direita. É o caso de um vídeo de 10 segundos no qual Fernando Haddad diz: “Eu vou promover o desencarceramento de pessoas que cometem pequeno delitos, que é hoje o maior contingente de prisioneiros”. Como pode-se ver aqui, tudo o que Haddad disse antes e depois é omitido. Perde-se, assim, o sentido correto de seu raciocínio e converte-se sua fala em uma prova indiscutível de que o plano de governo do PT é “soltar bandido”.

Outro exemplo é a citação de fontes certas associadas a interpretações erradas ou parciais, como demonstra o meme “Malddad. Liberação do consumo de drogas”. No canto esquerdo abaixo da imagem, aparece a referência ao plano de governo de Haddad, de onde a frase acima parece ter sido extraída: “Plano de Governo. Pag. 32, item 3.4.2”. De fato, no item citado, discute-se de política de drogas. No entanto, em nenhum momento fala-se em “liberação do consumo de drogas”.

Há também o expediente de recorrer a formadores de opinião ou “experts” que, devido à profissão que exercem ou aos títulos que aparentam possuir, podem parecer fontes confiáveis. Em um vídeo intitulado “Operação Antifraude”, que circulou em 6 de outubro em vários dos grupos que monitoro, aparece, por exemplo, um tal de Hugo César Hoeschl, suposto Ph.D em inteligência aplicada. Citando estudos e leis científicas, Hoeschl alerta com verossímil rigor acadêmico sobre a alta possibilidade de fraude na eleição. Contudo, como foi apontado pelas agências de checagem, a notícia é falsa.

Uma cabeça, uma verdade

A segunda estratégia é oposta à primeira e, ao mesmo tempo, igualmente poderosa. A verdade é construída aqui a partir do discurso de um sujeito individual, de uma história que, pelo simples fato de ser contada em primeira pessoa, passa a ser percebida como um retrato fidedigno da realidade.

Trata-se de um processo de valorização, por parte da coletividade, daqueles relatos e opiniões pessoais que Eliane Brum define como “autoverdades”. É o caso de áudios de sujeitos não identificadas que garantem que Haddad irá proibir os cultos evangélicos; de vídeo-selfies que exortam a acabar com a “palhaçada” do #elenão, pois a violência não se combate com livros, e assim por diante.

A eficácia dessas mensagens reside em seu caráter testemunhal-assertivo, no fato de dizer “eu sei”, “é assim”, bem como na relação direta que elas estabelecem com o seu destinatário: “estou te falando”, “parem com isso” etc. O poder da autoverdade é tão forte e enraizado que mesmo a verificação de assuntos técnicos-jurídicos não depende mais de fontes institucionais, mas de declarações individuais: “AVISO IMPORTANTE, ESTÁ AUTORIZADO A IR COM CAMISETA DE BOLSONARO VOTAR. QUEM QUISER CONFIRMAR ESTA INFORMAÇÃO FOI O PRÓPRIO BOLSONARO QUE DISSE ISSO NA LIVE DO FACEBOOK DELE HOJE. SÓ ENTRAR LÁ E CONFERIR!!!”.

Esta foi a mensagem enviada no dia 7 de outubro para alertar os grupos sobre a possibilidade de se manifestar silenciosamente na urna. A informação, neste caso, é correta. No entanto, não é este o dado relevante. O que é preciso destacar é que, nela, a autoverdade de Bolsonaro vale mais do que a verdade do Tribunal Superior Eleitoral.

Um verdadeiro êxtase

A terceira estratégia é de ordem passional. Para se afirmar como verdade no Whatsapp, uma mensagem deve ser capaz de liberar uma carga de pulsões, isto é, de engendrar um choque emocional. O que importa, aqui, não é tanto o que é dito, mas o “como” se diz.

Nos grupos pró-Bolsonaro, este “como” resume-se, muitas vezes, ao grito. Tanto nos áudios, quanto nos vídeos e nos textos, sobe-se frequentemente o tom da voz: “ATENÇÃO MILITÂNCIA!!! ESQUERDA ARMA CONTRA BOLSONARO!”, “PAREM!”, “NINGUÉM VAI CURAR VAGABUNDO COM LIVRO!”. Promove-se, assim, um contágio comunicativo emocional, que funda, por sua vez, um consenso político passional. Em outros termos, a força da pós-verdade bolsonarista resulta mais de sua expressão do que de seu conteúdo. Não tem, nela, nada de racional. O que a define é o êxtase coletivo da autoverdade, a sua dança enfurecida.

URGENTE!!!

A quarta estratégia é temporal. A sensação que se tem ao participar destas redes de Whatsapp é de viver em um regime de urgência perene. Isto não apenas pelo ritmo vertiginoso no qual as mensagens chegam, como também pelo que nelas está escrito: “URGENTE! Eles querem CALAR os apoiadores de Bolsonaro!”, “URGENTE!!! O PT ESTÁ FAZENDO JOGUINHO”. Diante dessa enxurrada de urgências, não há tempo para pensar. Pode-se apenas reagir.

Um reagir que, no entanto, limita-se a um gesto pontual, executado de modo automático: “VIRALIZEM”, “REPASSEM”, etc. Em suma: a cifra temporal da pós-verdade bolsonarista é o imediatismo acrítico. O que ela proporciona é uma espécie de “datenização da informação”, a experiência de um “Brasil constantemente Urgente”. Quanto mais rápido o fluxo de urgências, mais facilmente elas se consolidarão como verdades.

A mentira, assim como a crença, constrói-se de maneiras diversas. É preciso saber quais são e como funcionam para se proteger de suas derivas autoritárias.

Paolo Demuru é doutor em semiótica pela Universidade de Bologna e professor titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista. Coordena o Grupo de Pesquisa Semiopolítica dos Processos Socioculturais e Midiáticos (Semiopol).

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