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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Cenários para 2018: rumo à pluralidade, contra o fantasma da aniquilação


O ‘Nexo’ convidou representantes de diferentes grupos políticos para que projetassem cenários para 2018. Neste ensaio, Maíra Kubik Mano professora do departamento de gênero e feminismo da UFBA analisa os desafios do movimento feminista neste ano eleitoral

“Daqui em diante, o mundo será vivido no plural e não há absolutamente nada que possamos fazer para reverter esta nova condição irreversível, pois é irrevogável. Porém, uma das consequências desta nova condição é a reativação, para muitas pessoas, do fantasma da aniquilação”.

As palavras acima são do filósofo camaronês Achille Mbembe, recém-traduzidas para o português no livro “Políticas da Inimizade”. Elas ecoam como uma profecia neste começo de ano. 2017 foi feito de debates que irromperam com toda potência, problematizando e incomodando muitos daqueles que estavam confortavelmente sentados sobre suas posições de sujeitos hierarquicamente superiores.

Foram muitos textos (e textões), imagens, músicas, versos, passeatas e performances que colocaram em questão a branquitude, o machismo e a heterossexualidade compulsória. As mulheres negras, cis e as trans, protagonizaram essa combinação crítica – que vem de longe, não de ontem, mas que teve nas redes sociais um novo e forte instrumento de propagação – trazendo sua experiência de vida como alimento para a formulação do debate.

Como escreveu recentemente a filósofa brasileira Djamila Ribeiro, ao citar a socióloga estadunidense Patricia Hill Collins, “o local em que as mulheres negras ocupam no movimento feminista é o de ‘forasteira de dentro’. Por estar e ao mesmo tempo não estar, entende esse lugar como um espaço de fronteira ocupado por grupos com poder desigual, pois, ao mesmo tempo que essas mulheres estão em algumas instituições, não são tratadas como iguais.”

A reação não tardou, de todos os lados. Não faltaram aqueles lacrimejando pelo afastamento e demissão de William Waack. Não apenas entre os de cima, mas também entre pessoas identificadas com posicionamentos à esquerda ou progressistas, que se somaram publicamente ao chororô. Utilizaram inúmeras vezes já gasta carta de nos acusar de limitar falas de acordo com o “politicamente correto”, como se desrespeitar direitos humanos merecesse aplausos e risos.

Houve ainda muitos dedos apontados. Na minha timeline, li denúncias ferrenhas contra pessoas que foram a determinados eventos de ativismo e não se comportaram da maneira esperada. Na pressa do compartilhamento veloz, sobrou pouca possibilidade de diálogo e, em especial, para a escuta, peça fundamental para aquelas e aqueles que se colocam do mesmo lado em determinadas situações. Para citar novamente Mbembe, “nos nossos dias, massificar é praticamente constituir uma horda. Na verdade, esta época já não é das massas, mas das hordas virtuais” .

O que as feministas podem esperar de 2018, me perguntou o Nexo.

 Em uma opinião situada de uma professora universitária, servidora pública, branca, moradora do Nordeste brasileiro, penso que em 2018 navegaremos por águas ainda mais turbulentas. Será um ano de eleição pós-golpe -- o que já coloca em questão todo esse processo --  onde uma das principais candidaturas tem programa político que se baseia no machismo, no racismo, na homolesbotransfobia e no classismo. E cujos apoiadores utilizam as “fake news” como um meio potente de difusão.

Os desafios são enormes, assim como serão as resistências

Em 2018 teremos a entrada em vigor da PEC do fim do mundo, aquela que limita os gastos públicos pelos próximos 20 anos, a votação da reforma da Previdência – lembrando que a reforma trabalhista já foi aprovada –, assim como de outros projetos de lei que impedem direitos, como os sexuais e reprodutivos, e a continuidade da violência contra as populações que estão na base da pirâmide social. E as mulheres serão, como sempre, as mais diretamente atingidas, já que são a maioria das pessoas pobres do mundo.

Espaços que durante muito tempo foram vistos pela sociedade como de diálogo, como por exemplo, as conferências – este ano teremos as Conferências municipais, estaduais e nacional de Educação – já não inspiram confiança de serem capazes de representar questões legítimas como a inclusão de gênero como uma diretriz transversal nos currículos escolares. Temos que repensá-los, recriá-los, propor outras formas de movimentação que comportem as dinâmicas das redes aliada à presença nas ruas, como fizemos com a Primavera Feminista de 2015. E isso em um momento de cada vez menos confiança nas organizações tradicionais, seja partidárias, seja sindicais, e onde o feminismo liberal, aquele que coloca sua ênfase nas saídas individuais para os nossos problemas coletivos, ganha força.

A aliança que permitiu a aceleração do neoliberalismo brasileiro, articulada entre a branquitude, aqueles contrários aos debates de gênero e os que detém o poder econômico e político, deverá se consolidar ainda mais. O racismo e os papéis tradicionais de gênero serão sua base ideológica e o medo do “outro” permanecerá como uma arma poderosa para estimular enfrentamentos e exclusões.

O fantasma da aniquilação rondará a cabeça dos debaixo. Se nós não sabemos como funciona um mundo radicalmente democrático vivido no plural, conhecemos bem a história daquele que se quer no singular. É um desfilar de autoritarismos e violências, que tem no tráfico escravista, no assassinato em massa de indígenas e no estupro e queima de mulheres as raízes fundadoras do colonialismo.

Os desafios são enormes, assim como serão as resistências. Na esquerda, vimos reaparecer a mesma “resposta” dada há décadas para explicar as dificuldades de promover a transformação social após a queda do muro de Berlim: colocar a culpa dos problemas de articulação de todo um campo político nas “questões identitárias”, que estariam provocando “divisionismos” e “desviando o foco” do que é central. 

É, pelo contrário, esta nossa incapacidade de enxergar que a desigualdade social no Brasil é estruturada pela raça e se assenta sobre a divisão sexual do trabalho que pode explicar o porquê de muitos dos nossos imobilismos.

É preciso encontrar maneiras de rebelar-se na pluralidade, sem que a unidade seja o pré-requisito para a luta política, mas sem perder de vista um sentimento de pertencer a um lado da peleja, retomando horizontes utópicos que adquiram um sentido coletivo e que vão na contramão dessa proposta mortífera de sociedade em que estamos. E defender, acima de tudo, a radicalização da democracia, contra as perseguições e restrições.

Acho simbólico que tenhamos o Fórum Social Mundial na Bahia, já em março de 2018. Um prenúncio, quiçá. Lembro das primeiras edições, em Porto Alegre, quando eu, ainda no movimento estudantil, participei do Acampamento da Juventude. Tinha gente do mundo inteiro reunida pelo slogan de um outro mundo possível e era bonito demais de se ver. Tantos discursos emocionados, encontros memoráveis, iniciativas múltiplas. Para essa nova edição, temos duas grandes marchas programadas, uma das mulheres negras e outra de todas as mulheres. É muita potência entre nós.

Que novas primaveras irrompam.

 

Maíra Kubik Mano é jornalista e professora do departamento de gênero e feminismo da Universidade Federal da Bahia.

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